Triste realidade

Renda mensal de, no mínimo, 18 mil santistas não compra uma cesta básica

Pelo menos 18 mil santistas vivem com 1/4 do salário mínimo, valor inferior ao custo de uma cesta básica que garante o mínimo de alimentação a uma pessoa

09 de novembro de 2018 - 13:51

Fernando De Maria

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Considerado um dos municípios mais ricos do País, Santos convive com uma triste realidade.

Conforme o censo do IBGE de 2010, 27,7% dos santistas vivem com renda nominal mensal per capita (por habitante) de até 1/2 salário mínimo (R$ 954,00).

Em números, com base na população atual, são cerca de 120 mil pessoas.

E os percentuais não levam em consideração a crise econômica e o aumento do desemprego registrado nos últimos anos.

Entre os 5.570 municípios brasileiros onde há maior incidência de brasileiros neste grupo, Santos ocupa a 5.066ª no ranking.

No estado de São Paulo, das 645 cidades, fica na 549ª posição.

Posições até positivas.

Mas a realidade dos números salta aos olhos quando comparados ao volume de pessoas nesta situação.

 

Sem renda, as pessoas ocupam palafitas ao longo do estuário e formam a maior favela de palafitas do País, como no Dique da Vila Gilda. Foto: Divulgação

Mais de 18 mil santistas

Apesar de posições relativamente melhores que a imensa maioria dos municípios brasileiros (o salário médio formal dos trabalhadores santistas é 3,3 salários mínimos (R$ 3.148,20), com dados de 2016, segundo o IBGE), para uma imensa massa de cidadãos e cidadãs o custo da cesta básica praticamente consome toda renda per capita de milhares de famílias.

E até ultrapassa.

Em números, são, no mínimo, 6.131 domicílios cujos moradores convivem com esta situação.

Ou seja, para, no mínimo, 18 mil santistas a renda per capita de 1/4 do salário mínimo (R$ 238,50) não dá sequer para comprar uma cesta básica.

Mas, certamente, este número é bem maior.

Afinal, conforme o IBGE, Santos tem média de 2,89 moradores por imóvel ocupado.

No entanto, na periferia, este número é  superior, mas a pesquisa não traz este tipo de detalhamento.

O volume é tão expressivo que se supera a população de 369 municípios paulistas (são 645).

Afinal, segundo dados da Fundação Seade, 4,23% dos moradores de domicílios santistas vivem com renda per capita de até 1/4 do salário mínimo.

Mesmo levando em consideração o salário mínimo paulista de R$ 1.108,38, isso equivale a R$ 277,09.

Se for o salário mínimo nacional (objeto do levantamento do IBGE), R$ 238,50.

Quase 57 mil pessoas

E a situação também é complicada para outro volume considerável de santistas, cuja renda per capita mensal, é de 1/2 salário mínimo (R$ 477,00).

Afinal, 9,31% dos domicílios são formados por moradores nestas condições (total de 13.495). Em números, são 39 mil.

Na soma, portanto, entre os dois grupos (com renda de até 1/2 salário mínimo per capita), são 57 mil pessoas – cerca de 13,5% da população santista.

Se fosse uma cidade, seria a 122ª mais populosa do Estado de São Paulo.

 

Cesta básica

O drama social fica mais explícito quando os dados do IBGE e da Fundação Seade são cruzados com o levantamento realizado pelo Labores – Laboratório Econômico Social da Universidade Católica de Santos .

Realizado mensalmente desde agosto do ano passado, o estudo mostra que o valor da cesta básica em Santos tem aumentado sucessivamente, atingindo especialmente as famílias mais carentes.

Justamente as que mais necessitam dos produtos presentes na cesta.

Denominado Índice de Custo da Cesta Básica de Alimentos – ICCB, o levantamento mensal é realizado por professores e alunos dentro do programa de pesquisa e extensão do curso de Ciências Econômicas da Universidade Católica de Santos.

“Visitamos  os mercados varejistas, de acordo com a população de cada região, dentro de uma metodologia que avalia os valores mínimo, máximo e médio”, destaca o professor João Alfredo Carvalho Rodrigues.

Ele é coordenador do Labson – Laboratório de Soluções Organizacionais, que tem neste tipo de estudo uma das atividades de extensão oferecidas à comunidade.

Sem promoções

Ao todo, são 16 mercados  espalhados por bairros, divididos em zonas da orla, intermediária, central e noroeste.

As pesquisas são realizadas ao longo de vários dias.

Desta forma, evitam-se datas onde as redes de supermercado fazem promoções de hortifrutigranjeiros, que tem peso na cesta básica.

Na metodologia, utilizam-se os produtos mais baratos e mais caros e até marcas diferentes.

Assim, o  objetivo é calcular um índice de preços de alimentos similar ao do Dieese – Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômico).

Para tanto, utiliza-se a metodologia do economista e estatístico alemão Ernst Louis Étienne Laspeyres.

Todos os dados são coletados até o dia 10 de cada mês, quando as tabelas são montadas e divulgadas no portal da instituição para consulta pública.

Vale lembrar que este levantamento não tem qualquer relação com o divulgado no Diário Oficial de Santos, conforme lei municipal 1761/99.

 

Para pelo menos 18 mil santistas, a renda per capita mensal não dá para comprar nem a cesta básica. Foto: Divulgação/Ag. Brasil

Mais horas trabalhadas

Os números apresentados pelos pesquisadores revelam que em setembro (com base no estudo divulgado em outubro), o valor médio da cesta básica em Santos foi de R$ 358,85.

Ou seja, 9,1% acima do valor médio do mesmo mês do ano passado.

Para se ter uma ideia, naquela ocasião, o valor da cesta básica equivalia a 30,7% do salário mínimo paulista (R$ 1.072,20).

Em setembro último, chegou a R$ 32,4% do mesmo salário já reajustado (R$ 1.108,38).

Em horas trabalhadas com base no salário mínimo, esta alta fica ainda mais evidenciada.

Em setembro do ano passado, o trabalhador que recebia um salário mínimo gastava 67,5 horas para comprar uma cesta básica.

Agora, são 71,2 horas.

“As pessoas estão comprando menos comida”, enfatiza Rodrigues.

“É uma triste realidade que temos notado. E tem atingido especialmente as pessoas de menor poder aquisitivo”, salienta o coordenador dos cursos de Negócios da UniSantos, Elias Salim Haddad Filho.

Ou seja, justamente as pessoas que moram em áreas mais periféricas é quem têm pago mais pelos alimentos que compõem a cesta básica. (veja quadro abaixo).

Assim, a quantidade da cesta básica se baseia no consumo mensal per capita por morador em uma residência.

Por exemplo: são 7,5 litros de leite ao mês – o equivalente a 250 ml diários.

No entanto, em caso com crianças pequenas esta é uma meta praticamente impossível de ser atingida.

Ou 100 gramas de arroz/dia e 150 gramas de feijão/dia.

 

 

Valores médios por zona (R$)

Zona                 V. médio (set/18)     V. médio (set/17)     Variação

Central (*)               *                                         325,02                              –

Intermediária      356,71                                  327,14                           + 9%

Noroeste               359,93                                 320,88                       + 12,17%

Orla                       359,32                                  331,32                         + 8,4%

Fonte: Labores – Unisantos – 9/2018. O supermercado da Zona Central estava em reforma.

 

 

Tabela de provisões mínimas da cesta básica

Item                           Quantidade               Unidade
Carne (acém)                    6,0                                Kg
Leite                                    7,5                                 L
Feijão (carioquinha)       4,5                                Kg
Arroz                                  3,0                                Kg
Farinha                              750                                 g
Batata                                6,0                                Kg
Legumes                           9,0                                 Kg
Pão francês                      6,0                                  Kg
Café em pó                      600                                  g
Banana (nanica)              90                             Unidades
Açúcar                               3,0                                   Kg
Banha/Óleo                      1,5                                    L
Margarina                         750                                    g
Fonte: Decreto-Lei n° 399/38

 

Professores e alunos realizam o estudo mensalmente e constatam a elevação do custo da cesta básica, que atinge principalmente moradores de áreas mais periféricas. Foto: Nando Santos

 

Labson

O Labson – Laboratório de Soluções Organizacionais promove outras atividades de extensão.

Por exemplo, desenvolve consultoria e treinamento voltados para a melhoria competitiva dos negócios, abrangendo as áreas de Marketing, Gestão de Pessoas, Finanças e Produção.

Já no NAF – Núcleo de Apoio Contábil e Fiscal, o objetivo é prestar assistência contábil e fiscal a moradores da Baixada Santista.

Com apoio técnico da Receita Federal, destina-se a contribuintes de baixa renda que são auxiliados gratuitamente na resolução de tramites fiscais e previdenciários.

Assim, alunos e docentes  do curso de Ciências Contábeis realizam atendimento gratuito esclarecendo dúvidas.

Entre elas: auxílio na elaboração da Declaração do Imposto de Renda – foram 220 atendimentos neste ano -, e à consulta fiscal.

E ainda: informações e auxílio do eSocial do Empregados Doméstico, auxílio à inscrição de Microempreendedor Individual.

Além disso,  informações e auxílio à regularização de CPF suspenso.

Funciona na Avenida Conselheiro Nébias, 300, em Santos, das 15 às 19 horas.

Agendamento por telefone pelo (13) 3205-5555, ramal 1361.