Violência

Intolerância e discurso de ódio tem gerado vítimas em Santos

Em Santos a intolerância recentemente criou dois episódios de violência que resultaram em agressões, cada vez mais pessoas são alvos, por questões pessoais

19 de agosto de 2018 - 09:30

Lucas Freire

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A intolerância é assunto presente no cotidiano de algumas pessoas e a própria intolerância é risco para a sociedade. Em Santos, recentemente ocorreram dois casos que ganharam uma vasta repercussão nas redes sociais, onde as vítimas  – ou amigos – procuraram relatar sem se expor, por insegurança.

O mais recente caso ocorreu na orla da praia, onde uma jovem corria pela praia nas imediações do Canal 3. Ela foi xingada por dois rapazes, pois estava usando uma camiseta com dizeres pró-LGBT.  Após discussão, ela foi agredida com um soco. Ambos fugiram na sequência.

O outro caso ocorreu em um quiosque nas imediações do Canal 4, onde duas jovens sofreram agressões físicas e verbais. De acordo com as publicações feitas pelas mesmas, tudo se iniciou quando elas foram abordadas por homens.

Na publicação, elas relataram o ocorrido. “Seis homens falaram gracinhas para nós, com cantadas e ofensas do tipo ‘tá falando o que, sapatão!’. Eventualmente se tornou um bate-boca, em seguida virou um caso de agressão, levamos chutes, socos empurrões, nem conseguimos reagir. Alguns pertences foram subtraídos e os envolvidos fugiram do local […]’’.


Perspectiva

O professor de História e Filosofia, Luiz Felipe Araújo Moretti, de 32 anos, explica que a palavra tolerância vem do latim, que significa ‘’suportar’’, de aguentar algo. Já o contrário representa quando o limite de tolerância não é mais o suficiente para lidar com a situação.

‘’No meu ponto de vista, a intolerância da pessoa está relacionada com algo que ela não tem conhecimento. E hoje em dia, principalmente, está vinculada com o não querer compreender. O desconhecido para o intolerante traz medo e insegurança, levando a pessoa a ter uma reação intolerante’’, explicou o filósofo, enfatizando que a intolerância representa uma resposta sobre uma ação.

De acordo com Moretti, a visão intolerante sobre os diversos aspectos, como étnico, religioso, sexual e de gênero não se refere exclusivamente para o ser individual, como se fosse uma bolha, também está ligada ao pensamento coletivo.

“Uma coisa interessante na bolha é a visão que o coletivo acaba tendo. Quando esse coletivo já possuiu um padrão engessado, questões como, por exemplo, homofobia e racismo, acabam faltando novas possibilidades para mudanças’’.

Conscientização

Dessa forma, para o educador, o trabalho de conscientização seria a solução. ‘’É necessário fazer com que as pessoas entendam o que é a intolerância, e também fazer com que elas notem esse comportamento’’.

Ele também ressalta que o combate à intolerância não pode bater de frente com os valores da sociedade, pois o valor é algo forte para o ser humano.  ‘Por meio da consciência, sem ir logo de cara, é que talvez sejam modificados os valores. Muitas vezes, é necessário ir pelas beiradas, achar caminhos, momentos de lucidez da pessoa. Claro que é difícil ouvir certos posicionamentos. Por mais absurdos que pareçam, é necessário entender que se trata de um valor muito forte perpetuado, difícil de modificar, no entanto é possível com muito trabalho e esforço’’


Comportamental

Hélio Alves, de 67 anos, professor universitário em Psicologia Preventiva, entende que a intolerância está ligada com o sentimento de frustração. ‘‘Para algumas pessoas isso causa um transtorno muito grande. Todos têm que pensar e agir como ela. No entanto, a vida não é assim”, diz.

Alves explica que não existe uma fórmula pronta de como reverter à intolerância. No entanto, ele afirma ser importante fazer o exercício de reflexão de que o mundo não gira em torno da pessoa. Ele diz que entrar em contato com essa diferença provoca sofrimento para o intolerante, sendo uma tarefa árdua. “No entanto, isso faz com a pessoa cresça”, diz.


Internet

É perceptível a presença de conteúdos carregados de discurso de ódio na internet. No último dia 7, houve uma palestra no Teatro Guarany a respeito do feminicídio.

A advogada e presidente da Comissão Estadual da Mulher Advogada da OAB-São Paulo, Katia Boulos, foi uma das convidadas. Ela apresentou slides de print’s feitos de comentários que incentivavam o discurso de ódio contra a mulher.

Assim, Hélio explica que pelo fato da pessoa poder se ocultar na internet, ela tende a se comportar de uma maneira que não faria normalmente.  ‘‘Essa agressão é retida no dia a dia, sendo descarregada repleta de ódio e agressão, por meio de comentários, e publicações”.

Mensagens de ódio, machismo e preconceito são comuns nas redes sociais. (Foto: Lucas Freire)


Racismo

O jovem Vinicios Ribeiro, de 20 anos, sente na pele a intolerância. O jovem bissexual diz que já sofreu tanto preconceito sexual, quanto étnico.  No entanto, o racial é o mais  recorrente. ‘‘O racismo é algo que eu lido desde muito novo. Isso vai desde as piadas racistas no colégio até os dias atuais”, afirmou.

Portanto, para Vinicios, a intolerância é uma das formas mais ridículas de se afastar da sociedade. Ele acredita que uma pessoa que não consegue respeitar o próximo e seu espaço, “e pior ainda, faz de tudo para afetar essas pessoas, não passa de um ser covarde”, enfatiza.

‘‘Eu acho que para combater isso precisamos se unir e confrontar toda forma de intolerância. Jamais abaixar a cabeça. Sempre ter orgulho de quem você. Seja negro, índio, gay, bi, umbandista”, expressou o artista ao citar alguns grupos sociais que mais sofrem preconceito.

Além disso, Vinicios frequentava a Batalha da Conselheiro, local onde ocorrem batalhas de MCS, realizadas na praia do Boqueirão.

Musicalmente, Vinicios era conhecido como Allure nas batalhas. No entanto, apesar de se tratar de um local de diversão e socialização, também era alvo de intolerância por terceiros.

‘‘Já aconteceu da batalha parar porque a polícia enquadrou todo mundo, sem necessidade, pois era visível que tratava-se de algo cultural. Não havia necessidade de tanta truculência”, lamenta. Ou seja, até o Estado também se mostra, muitas vezes, intolerante com o cidadão comum.

Vinicios Ribeiro, conhecido artisticamente como Allure Dayo, aborda questões raciais e LGBT em suas músicas (Foto: Arquivo Pessoal/ Reprodução)

 

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