Semana
passada, durante uma palestra, me perguntaram se a falta de conhecimento
científico do brasileiro se deve à falta de cultura científica. Na realidade,
respondi, é a soma de vários fatores. Para haver uma cultura científica,
influenciam aspectos políticos (de investimento em projetos e capacitações de
agentes da Divulgação), econômicos (países mais desenvolvidos tendem a se
preocupar mais com a Divulgação), além de outros. Dois em particular gostaria
de tratar aqui.
O
primeiro é o aspecto educacional. Segundo o Relatório do Programa Internacional
de Avaliação de Alunos, o Pisa, feito em 2009, cerca de 85% das nossas crianças
não são alfabetizadas cientificamente. Isto significa que elas aprendem o
conteúdo na escola, principalmente de Ciências, mas não conseguem apreender e
trazer para o dia a dia. A pesquisa levou em consideração dados da Prova Brasil
e, de mais de 60 países, o Brasil ficou em uma das dez últimas posições em alfabetização
científica.
Como se resolve esse déficit na educação científica? Com
políticas científicas voltadas ao setor, principalmente. Capacitar os
professores para o ensino em Ciências é fundamental. Na realidade, o professor
é (ou deveria ser) um divulgador científico por natureza. O divulgador
científico é quem transforma o discurso dos cientistas, que têm sua linguagem
complexa, em algo entendível à sociedade, neste caso, os alunos. E provoca reflexão sobre Ciência.
Este mês, por exemplo, foi bastante difundida a descoberta da
partícula de Deus, ou Bóson de Higgs, que mudaria os rumos da Física. Mas em
que essa descoberta afeta o dia a dia das pessoas? Como ela deve ser discutida
com os alunos em sala de aula? Em suma, a partícula poderia explicar a origem
do Universo. Entretanto, quais as implicações para isso? E se essa partícula
fosse usada de forma errada? Questionamentos que um professor pode ajudar os
alunos a fazerem.
Continuemos no exemplo da partícula de Deus. Por que é
importante que a sociedade saiba de descobertas desse tipo? A Ciência é uma
criação humana e existe para ajudar no desenvolvimento e existência humanos.
Além disto, também colabora no melhoramento das relações do humano com o
planeta e os outros animais. Precisamos saber o que os cientistas estão
pesquisando e descobrindo, portanto. No Brasil, três quartos de todo
investimento em Ciência provém de verbas públicas. Divulgar a Ciência é, então,
uma prestação de contas.
Evidente
que não é só o professor que leva Ciência à sociedade. O segundo aspecto para
discutirmos é o midiático. Voltando à partícula de Deus, a notícia chegou à
maioria das pessoas justamente pela mídia. Então, os meios de comunicação de
massa têm importância no culturamento
científico da sociedade, ao passo que leva à informação científica às pessoas e
também ajuda na Divulgação.
Mas
esse aspecto é bastante preocupante, exatamente por ter a ver com cultura
científica. Segundo pesquisa do então Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT),
de 2010, 36,7% dos brasileiros não se interessa por Ciência e Tecnologia porque
não entende.
Além
disto, 19,5% nunca pensou sobre isso, 17,8% não tem tempo, 10,4% não gosta,
9,7% não liga, 3,6% acredita não precisar saber sobre o assunto e 2,2% dos
entrevistados deu outra resposta, não respondeu ou não soube responder. A
pesquisa foi feita com 2.016 pessoas, homens e mulheres, das mais variadas
idades (acima dos 16 anos), com diferentes graus de escolaridade, renda e
região de moradia do Brasil.
Tanto
o Relatório do Pisa quanto a Pesquisa do então MCT mostram a importância de uma
cultura científica e como diversos setores devem colaborar para que essa
cultura voltada à Ciência exista. É uma soma de política, educação, mídia,
entre outros, para que a Divulgação da Ciência continue acontecendo. E os
professores têm papel importante.
Assim,
vale a criatividade de cada educador. Muito além de trazer essas discussões
para a sala de aula, o professor pode, por exemplo, desenvolver projetos de
Divulgação Científica com os alunos, levando, inclusive, em consideração o contexto
em que vivem esses alunos. É a Ciência na prática.
Conheci
em Goiânia-Goiás uma professora de Biologia que desenvolveu com pesquisadores
um levantamento dos animais e plantas da região e conseguiu patrocínio para desenvolver livros direcionados aos seus alunos, com os resultados das pesquisas. Resultado: os alunos conheciam mais os animais da África,
como leão e girafa, que os animais existentes na região onde viviam.
Outras
sugestões seriam trabalhar com revistas como Ciência Hoje das Crianças, que já
têm esse direcionamento de educação científica, notícias científicas que estão
na mídia e o impacto no cotidiano dos alunos e de
suas famílias, levar os alunos para museus de Ciência e aulas de Botânica no
campo. Além de peças de teatro que falem de Ciência, mostrar filmes de Ciência,
até fazer brincadeiras e pinturas com direcionamento científico. Vamos divulgar Ciência, professor?