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Marcus Vinicius Batista
Conversas e Distrações

 
Porto: manda quem pode, obedece quem faz política
Publicado em 11 de julho de 2010
 
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“O presidente da Codesp ligou diretamente para o ministro Pedro Brito, que falou com a Casa Civil, que falou com o ministro do Meio Ambiente, que revogou a decisão.” A declaração é do deputado federal Marcio França (PSB-SP), dada à repórter Rejane Lima, de O Estado de S.Paulo.

 

França disse que pediria uma investigação na Câmara Federal sobre a postura do Ibama, que interditou o Porto de Santos por três horas na última quinta-feira. No mesmo dia, o Instituto fechou o Porto de Paranaguá (PR) por oito horas. O local foi reaberto por liminar concedida pela Justiça Federal. Em ambos os casos, a alegação dos fiscais foi descumprimento do prazo para apresentação de documentos que visem o licenciamento ambiental.

           

Os dois episódios indicam, com a clareza de um cristal, que meio ambiente é o assunto menos importante para os envolvidos. A ordem é fazer política mesmo. Se possível, da maneira mais rasteira, ignorando a importância institucional em detrimento do personalismo de dirigentes e amigos da corte. Prevalecem os telefonemas vermelhos e “sabe-com-quem-está-falando?”.

           

Em qual Ibama devo acreditar? No escritório de São Paulo, que tomou a decisão de lacrar o Porto de Santos, ou em Brasília, distante milhares de quilômetros, mas colado nos corredores do poder. Se os escritórios de São Paulo e do Paraná tomam medidas semelhantes no mesmo dia, há um padrão de comportamento entre as unidades estaduais? E este padrão, se existe, é via contrária à postura do centro nervoso, na capital federal? Os dois escritórios fizeram política rasteira?

           

O Ibama não fala língua única. São vários idiomas, escolhidos conforme os ventos da política. Perde a política ambiental, frágil na gestão Lula. Perde a instituição, à mercê de fiscais super-poderosos ou de autoridades de terno e gravata cinzas. A situação mostrou um instituto desgovernado, o que facilita exatamente aqueles que deveriam temê-lo, os infratores. Se a coisa fosse séria, jamais a Codesp ignoraria a decisão do Ibama de São Paulo, sob o argumento de que seguia as determinações de Brasília.

           

Outro ponto nesta história é como o Porto de Santos se relaciona com a questão ambiental. È um barril de pólvora com um fósforo aceso ao lado. O porto faz jus à cor cinza de muitos armazéns abandonados. Não há controle ambiental digno do nome. Política para o setor se restringe às brincadeiras pontuais, sem planejamento de longo prazo e avaliação das conseqüências, conhecidas por todos, mas dispensadas para o fundo do canal do Estuário.

           

O Porto de Santos, por exemplo, não tem controle algum sobre a água de lastro despejada pelos navios. A água colabora com a poluição do canal e das praias, além de trazer uma série de espécies invasoras, que alteram e corrompem o ecossistema local.

           

Onde está a rede de esgoto? È possível imaginar onde vai parar toda a quantidade de dejetos produzidos por quem trabalha ou transita pelas áreas portuárias? È possível acreditar nas bandeirinhas verdes que asseguram a balneabilidade das praias? Bandeirinhas verdes que enfeitam o mar negro.

           

O Porto de Santos recebe milhares de caminhões todos os dias. Os motoristas e seus veículos ficam amontoados em pátios, sob condições insalubres. Muitos veículos não passam por fiscalização e são máquinas produtoras de fumaça. Sabe-se que o problema é mais profundo do que o próprio calado do porto. Optou-se pelo modelo de transporte sobre rodas, somado à timidez nos investimentos na malha ferroviária brasileira. Nada justifica tratar caminhoneiros como se fossem gado à espera do abate.

           

Quem mora em Santos já sentiu inúmeras vezes cheiros desagradáveis com origem no porto. A Cetesb detecta o problema, aplica uma multa equivalente ao cafezinho dos executivos e a vida segue, com a rotina de vazamentos muitas vezes atrelados ao excesso e à rapidez da produção.

           

Os milhares de trabalhadores que mantém o cais em funcionamento 24 horas por dia recebem treinamento sobre o impacto ambiental de suas atividades? No máximo, segurança do trabalho, sem a fiscalização rigorosa em muitos setores.

           

Pensar em meio ambiente é muito mais do que repor meia dúzia de plantinhas ou capacitar meia dúzia de moradores para funções mal remuneradas, como acontece em obras nas margens portuárias. Pensar em meio ambiente é avaliar o impacto do relacionamento entre o homem e o espaço onde vive, com quem interage. Ligar o tema somente com bichinhos e árvores é crer em duendes atrasados 25 anos.

           

Lacrar dois portos brasileiros deveria envolver uma discussão como estes locais entendem e atuam em relação ao meio. Ainda que focalizem o crescimento econômico como único caminho ao paraíso, portos são muito mais do que recordes na movimentação de cargas. Quem ganha com os números? É necessário considerar que um dos motores atuais é justamente a conexão com meio ambiente. Só que tal mentalidade implica em questionar o imediatismo como o único combustível.

           

Esta história, entremeadas por ligações (telefônicas ou não), retrata como a classe política não vai além das tapadeiras que cegam o horizonte social. Discutir o assunto com seriedade é apenas plataforma de campanha, nada diferente de abraçar criancinhas. Se o encontro “afetivo” se der em oficinas isoladas de reciclagem e outras medidas circenses, melhor ainda.

           

No fundo, o lobo segue como cordeiro, com pelagem cinza, e mostra garras e dentes quando se duvida do Deus-progresso, com o milagre da multiplicação dos cifrões. 

 

Contato: marbatista@hotmail.com

Outros textos do autor:  www.conversasedistracoes.blogspot.com

 

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Caro Marcão o problema da poluição do estuário santista é antigo, inclusive muito prejudicial as comunidades ribeirinhas(conceiçãozinha e outras) que viviam do pescado e hoje não vivem mais,pois o nível de chumbo ,ferro e outros resíduos altamente poluentes acabaram com a qualidade dos peixes sendo os mesmos impróprios.Vale lembrar que o ministério público e orgãos ambientes lutam pelo espaço só que esbaram na política corriqueira de interesse de pessoas que só bem em lucros em espécie(money).O Ibama apesar de ser um orgão sério ,no entanto é veículado ao governo federal.Por isso,manda quem pode e obedece quem faz política.

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Brilhante!! Irretocável!! Nada a acrescentar à esse cruel e real panorama que temos!! Nem mesmo em ano eleitoral podemos confiar que alguém vá contra tantos cifrões!!! Mas não deixo nunca de acreditar que aqueles que lutam todos os dias são imprescindíveis!!!

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