Ideias
Adelto Gonçalves

Doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003) entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

‘Atlas do impossível’: contos surrealistas

12 de setembro de 2017 - 10:07

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   I

            Um livro de contos, geralmente, é o resultado da reunião de textos literários dispersos e autônomos que o autor produz ao longo dos anos, quase sempre sem um fio narrativo que os una. São também textos que escapam a qualquer critério quantitativo, ou seja, não podem ser definidos com base em sua extensão. Mas, ao contrário da novela e do romance, o conto exige, antes de tudo, a atenção concentrada do leitor para produzir nele um “efeito preconcebido, único, intenso, definido”, com observou o professor, ensaísta e investigador venezuelano Carlos Pacheco (1948-2015) em Del cuento e sus alrededores. Aproximaciones a una teoria del cuento (Caracas, Monte Ávila Latinoamericana, 1997, p. 20), com base no que dizia o poeta norte-ame ricano Edgar Allan Poe (1809-1849), para quem o “conto devia ser lido de uma assentada”.

             Atlas do impossível (Guaratinguetá-SP, Editora Penalux, 2017), de Edmar Monteiro Filho, quinto livro de contos do autor, não preenche todos esses critérios. Mas, entre os 15 relatos que o compõem, há dois que provam que a extensão em número de páginas ou palavras não é mesmo critério seguro para definir um conto. Por exemplo, o texto de abertura, “Autorretrato em espelho esférico”, tem apenas 18 linhas, enquanto aquele que encerra o volume, “Galeria”, ocupa 49 páginas, dividido em dez capítulos ou trechos, aproximando-se do que se poderia chamar de novela.

            O livro, porém, vai além. São relatos caudatários do movimento surrealista da década de 1920, liderado pelo poeta e crítico francês André Breton (1896-1966), que, tanto na pintura ou na gravura como na poesia ou na prosa, procurava incorporar elementos desconexos, formas abstratas e ideias irreais, com o objetivo declarado de escapar da lógica e da razão. Em outras palavras: levar o poder da subversão à criação.

            Muitos destes contos, de fato, não apresentam um fio condutor, mas, ao contrário do que seria comum em livros do gênero, foram escritos sob a inspiração de dois mestres. Um deles é o artista gráfico holandês Maurits Cornelis Escher (1898-1972). O outro se trata de Jorge Luis Borges (1899-1986), poeta e contista argentino, a quem a Academia Sueca ficou a dever um Prêmio Nobel de Literatura.

            Em Escher, Monteiro Filho buscou inspiração não só para a narrativa de seus contos, a ponto de o título de cada uma das 15 peças repetir o de uma gravura do artista. De certo modo, os relatos buscam provocar no leitor a mesma sensação de estranhamento que as telas de Escher costumam causar naqueles que as observam, pois sempre exigem uma nova visão, tal a confusão mental que provocam. Do mesmo modo, os textos do contista exigem, invariavelmente, uma nova leitura.

            É de se lembrar que as gravuras de Escher procuram representar construções impossíveis, explorações do infinito e metamorfoses, em que os padrões geométricos entrecruzados transformam-se gradualmente em formas completamente diferentes. Além das gravuras (xilogravuras, litografias e meios-tons) de Escher, Monteiro Filho vale-se de alguns de seus pensamentos, como aquele que funciona como epígrafe para o conto “Ordem e caos”: “Não consigo parar de brincar com nossas certezas incontestáveis”.

                                               II

Há também nestes contos referências implícitas e explícitas a Jorge Luis Borges, que, inclusive, aparece como personagem em “Mãos desenhando”, que conta as peripécias de um acadêmico tucumano para se tornar íntimo do mestre, visitando-o com certa frequência em seu apartamento na calle Maipú, no centro de Buenos Aires, além de segui-lo à distância pelas ruas de uma cidade que o escritor, à beira da cegueira, começava a deixar de enxergar.

Como se estivesse disposto a romper todas as classificações estabelecidas pelos críticos para o gênero, o autor cita neste conto pessoas ainda vivas, como a escritora, tradutora e professora argentina Maria Kodama, ex-secretária e viúva de Borges, e o contista, romancista e novelista brasileiro Menalton Braff.

Já no conto “Três mundos”, Monteiro Filho, igualmente nas pegadas de Borges, repete a metáfora do espelho, desenvolvendo uma autorreflexão sobre seu próprio processo de escrita, ao misturar realidade e ficção. E procura reconstituir a história fabulosa da vida do libanês Ismail, que chegou ao Brasil em 1950 e adquiriu um imóvel na Rua Treze de Maio, a principal da pequena cidade de Amparo, no interior de São Paulo, onde montou uma sorveteria, depois de, como soldado da Legião Estrangeira, ter participado de combates em Camarões e na Europa e, mais tarde, no Marrocos, depois de realistar-se, voltar à França em 1926.

Até que, em 1939, já com família constituída e uma sorveteria herdada do tio para cuidar, ao atender a um obscuro chamado interior, abandonou tudo e partiu para o Norte da África, realistando-se na Legião, para participar de novos combates. É a vida desse personagem que o narrador recupera com o auxílio de seu filho brasileiro, Kalil, agora um empresário bem sucedido. Para se ter uma ideia do estilo sóbrio, mas instigante, de Monteiro Filho, segue um excerto:

“O narrador está sentado diante de Kalil. O filho brasileiro de Ismail tem as unhas cuidadas e se veste bem. Por telefone, declarou trecho de seu arsenal: longas conversas com o pai, um legado inestimável de episódios de uma vida prodigiosa. Se teria tomado notas? Desnecessário, já que possui memória prodigiosa – o mesmo adjetivo talvez desmentindo esse prodígio. Kalil não vê problemas em contar o que sabe sobre Ismail. Suas frases calculadas traduzem as intenções: “Não se pode permitir que uma trajetória de vida tão rica caia no esquecimento”; “Ismail é um personagem riquíssimo”: “toda essa riqueza renderá um livro”: “O pai legou-lhe um tesouro”. Mas o narrador se agarra aos fios possíveis de sua história” (pag. 51).

 

                                               III

Como observa o experiente professor, romancista e pintor Aércio Flávio Consolin, no texto de apresentação que escreveu para as “orelhas” deste livro, os contos de Monteiro Filho “foram criados sob a égide de artistas que apuseram ao real uma reinterpretação subversiva pela própria natureza, derivando para uma suprarrealidade que atiça a compreensão e alarga-a por ampliar a perplexidade a cada aproximação, tanto das gravuras de Escher como da literatura por Borges”.

Nas pegadas do que diz Consolin, as imagens insólitas de Monteiro Filho têm atraído também a atenção de estudiosos jovens, como Alexandra Vieira de Almeida, doutora em Literatura Comparada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), para quem “o contista mostra seu pleno domínio sobre esta arte difícil do conto que para muitos é o texto em prosa da literatura mais complexo de se elaborar, pois é necessária a medida certa, o ponto essencial”.

Já para o romancista e pesquisador Krishnamurti Góes dos Anjos, autor de O Touro do rebanho (Lisboa, Editora Chiado, 2014), que obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional de Literatura da União Brasileira de Escritores (UBE), do Rio de Janeiro, quem vier a ler esta obra de Monteiro Filho estará “diante de um escritor com pleno domínio dos aspectos que envolvem a estruturação de suas histórias (onde ecoa um lirismo cativante)”. Para ele, o contista “articula e combina múltiplas linguagens, verbais e não verbais para criar sistemas autorrepresentativos onde a fusão interativa de elementos propicia uma maior consistência e eficiência de um fazer literário que o coloca entre os mais expressivos prosadores brasileiros da atualidade”.

 Aliás, os textos de Alexandra Vieira de Almeida e Krishnamurti Góes dos Anjos, que podem ser localizados na Internet, merecem desde já ficar reservados como prefácio e posfácio para uma possível segunda edição de Atlas do impossível, tal a maneira percuciente como interpretaram a originalidade dos contos de um escritor tão seguro de seu ofício.

                                               IV

            Edmar Monteiro Filho (1959) escreve e publica desde 1980. Possui graduação em Ciências Biológicas Modalidade Médica pela Universidade Federal de São Paulo (1980) e em História pela Fundação Municipal de Ensino Superior de Bragança Paulista (2007), com especialização em História Cultural pela mesma instituição (2010). É mestre em Teoria e História Literária pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), título obtido com a dissertação “O major esquecido: Histórias de Alexandre, de Graciliano Ramos” (2013). Faz doutoramento em Teoria e História Literária na Unicamp.

Recebeu os prêmios literários Guimarães Rosa (1997), promovido pela Rádio França Internacional, com o conto “Primeiro de janeiro é o dia dos mortos”, e Cruz e Souza de Literatura, com o livro Aquários (contos, Fundação Catarinense de Cultura, 2000). Fita azul (São Paulo, Editora Babel, 2011), seu primeiro romance, foi um dos finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura de 2012.

Publicou ainda Este lado para cima (poesia, edição de autor, 1993), Halma húmida (poesia, edição do autor, 1997), Às vésperas do incêndio (contos, edição do autor, 2000), com o qual conquistou o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, Que fim levou Rick Jones? (contos, edição de autor, 2010) e  Azande (novela, edição de autor, 2004). É autor também de O Rei condenado à morte & outras histórias (Guaratinguetá-SP, Editora Penalux, 2015).

            Nascido na cidade de São Paulo, mora em Amparo desde a infância, mas, como funcionário do Banco do Brasil, viajou por quase todo o País recolhendo relatos e experiências que depois utilizaria em seus contos. Foi em jornais de Amparo que começou a publicar seus textos em 1981, ano em que ganhou seu primeiro prêmio literário com o conto “Maré vermelha”, na cidade de Araguari-MG. Desde 1997, ministra oficinas literárias de contos em várias cidades. Assina uma coluna em que faz resenhas de livros no semanário A Tribuna, de Amparo.

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Atlas do Impossível, de Edmar Monteiro Filho. Guaratinguetá-SP: Editora Penalux, 246 págs., R$ 45,00, 2017. E-mail: penalux@editorapenalux.com.br Site: www.editorapenalux.com.br

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 (*) Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012) e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015).

 

  • Alexandra Vieira de Almeida

    Texto crítico muito bem elaborado com citações fundamentais para o entendimento da obra de Edmar. O texto carrega profundidade e uma análise arguta do livro Atlas do impossível. Obrigada pela citação de meu nome como resenhista. Parabéns, Edmar!!! Parabéns, Adelto Gonçalves!!! Sucesso!!! Forte abraço.