Ideias
Adelto Gonçalves

Doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003) entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Autores gaúchos divulgados na Itália

23 de março de 2015 - 17:40

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I

Maior divulgador da literatura de expressão portuguesa na Itália, o professor Brunello Natale De Cusatis, titular da cadeira de Língua e Literatura Portuguesa e Brasileira da Universidade de Perugia, esteve no Brasil ao final de 2014 para  divulgar os últimos lançamentos da coleção Letteratura Luso-Afro-Brasiliana da Morlacchi Editore, de Perugia, e algumas reedições de obras de autores brasileiros, todas traduzidas e editadas por ele.

Além de dar conferências e cursos na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), campus de Assis, De Cusatis participou da Feira do Livro de  Porto Alegre, promovendo o lançamento dos livros Nel Dolore Sconfinato (Nos Gerais da Dor), de Maria Carpi (1939), e Racconti, antologia bilíngue (Contos Completos), de Sergio Faraco (1940), e da terceira edição da novela policial Il caso del martello (O caso do martelo), de José Clemente Pozenato (1938), autores gaúchos descendentes de italianos.

É de notar que a primeira edição italiana de Il caso del martello é de 2008, o que mostra o interesse do leitor italiano pelo Sul do Brasil, onde se concentra a maior população de oriundi fora da Itália. Hoje, no Brasil, existem cerca de 25 milhões de descendentes de imigrantes italianos, metade dos quais se concentra no Estado de São Paulo e os demais no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

Responsável por diversas traduções para o italiano, como, por exemplo, obras do poeta Fernando Pessoa (1888-1935) e da biografia La vita plurale di Fernando Pessoa (Milão, Edizioni Bietti, 2014), do espanhol Ángel Crespo (1926-1995), De Cusatis começou a se interessar pela divulgação da literatura do Sul do Brasil na Itália há cerca de 20 anos, quando conheceu o escritor gaúcho Armindo Trevisan (1933). Começou, então, uma amizade que o levou a traduzir Versi puri e impuri, antologia poetica (Versos puros e impuros, antologia poética), de Armindo Trevisan, próximo lançamento da coleção Lettetatura Luso-Afro-Brasiliane de Morlacchi Editore, de Perugia, em nova edição ampliada.

II

Maria Carpi, nascida em Guaporé-RS, filha de um italiano da Reggio Emilia, formou-se em Direito em 1962 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Exerceu a profissão de advogada do Estado na Defensoria Pública, além de atuar como professora na Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de Porto Alegre. Atuou também como membro do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente. Atualmente, é membro efetivo da Comissão de Paz e Justiça, repartição regional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Revelou-se como poetisa já na idade madura, aos 50 anos, quando publicou Nos Gerais da Dor, em 1990, pela Editora Movimento, de Porto Alegre, que lhe valeu o Prêmio Revelação da Poesia/1990da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). Entre outros livros, é autora do originalíssimo Abraão e a Encarnação do Verbo (Porto Alegre, AGE Editora), 2009), interpretação poética de uma passagem bíblica. Seu último livro é O Senhor das Matemáticas (Porto Alegre, AGE Editora, 2012), livro de prosa poética. De 2011, é A Chama Azul (Porto Alegre, AGE Editora), traduzido na França como título La Flamme Bleu (Paris, Lês Arêtes Editions, 2013).

III

Sergio Faraco nasceu em Alegrete-RS, mas vive em Porto Alegre desde 1971. Na juventude, de 1963 a 1965, viveu em Moscou, onde frequentou o Instituto Internacional de Ciências Sociais. Em 1964, depois de expressar publicamente sua contrariedade com as restrições de comportamento impostas pela direção do Instituto, ficou internado três meses num hospital psiquiátrico. Narrou essa experiência sob o regime comunista no livro Lágrimas na chuva: uma aventura na URSS (2002). Ao voltar ao Brasil, em razão de sua estada na União Soviética, ficou preso por um breve período, à época do regime militar de direita (1964-1985). Formou-se em Direito em 1980 no Instituto Ritter dos Reis de Canoas, cidade da região metropolitana de Porto Alegre.

Contos completos é de 1995 (Porto Alegre, L&PM), com reedição em 2004 e 2011. Cronista do jornal Zero Hora, tem sete livros de crônicas publicados. É também tradutor e ensaísta. É autor também dos contos “Travessia” (2002), ‘A dama do Bar Nevada” (2005) e “Um aceno na garoa” (2006), que foram levados à tela em produções regionais.  Tem mais de 20 livros publicados entre os gêneros contos, crônicas e ensaios. Seu livro mais famoso é  A Dama do Bar Nevada (Porto Alegre, L&PM, 1987), de contos. Seus contos foram publicados nos seguintes países: Alemanha, Argentina, Bulgária, Chile, Colômbia, Cuba, Estados Unidos, Paraguai, Portugal, Uruguai e Venezuela. É autor ainda do ensaio Tiradentes a alguma verdade (ainda que tardia),  publicado pelaCivilização Brasileira, em 1980.

Organizou uma antologia de poemas de autores brasileiros e portugueses que levou o título Livro dos poemas, publicado em 2009. Sergio Faraco recebeu por três vezes o Prêmio Açorianos de Literatura (1995, 1996 e 2001), principal premiação cultural do município de Porto Alegre-RS. Em 1999, recebeu o Prêmio Nacional de Ficção da Academia Brasileira de Letras. Em 2008, foi agraciado com a Medalha Cidade de Porto Alegre.

IV

Filiado à tradição do romance negro, O caso do martelo, de José Clemente Pozenato, conta as peripécias de um delegado provinciano para chegar à autoria do assassinato de Nàne Tamànca, solteirão de mais de 60 anos, que vivia sozinho num lugarejo perto de Caxias. Quem matou Nàne Tamànca? – a resposta para essa questão leva o comissário Hilário Pasúbio a duvidar de tudo e de todos, até chegar a um final surpreendente, como em toda boa história policial que é capaz de prender a atenção do leitor até a última linha.

Na novela, o autor até reproduz na fala de seus personagens algumas expressões do dialeto vêneto, ao mesmo tempo em que faz uma descrição inesquecível não só da paisagem gaúcha como das pequenas comunidades em que se movimentam personagens ligadas à colonização italiana no Rio Grande do Sul. De Cusatis diz que a linguagem de Pozenato, embora simples, apresenta certo hibridismo, pelo dialeto vêneto falado na colônia italiana do Rio Grande do Sul

José Clemente Pozenato nasceu em Santa Teresa-RS, filho de um imigrante italiano, Girolamo, que fez questão de romper com o seu passado. Sem nunca ter ouvido do pai um palavra do dialeto vêneto, Pozenato viveu uma infância adaptada exclusivamente à realidade brasileira e, aos 12 anos, mudou-se para Caxias do Sul, onde entrou num seminário. Só mais tarde, já como professor de Literatura Brasileira da Universidade de Caxias do Sul, aprofundou-se no estudo da cultura italiana..

Sua carreira literária começou em 1967 com a publicação de um livro de poesias, Matrícula, que dividiu com Oscar Bertholdo, Jayme Paviana e Ary Trentin. Em 1993, já grande conhecedor da cultura de suas origens paternas, publicou outro livro de poemas, Cantos rústicos / Cànti rùsteghi, em português e em dialeto vêneto. Sua obra poética completa até 2000 foi publicada em Mapa de viagem.

Foi em 1985 que publicou a novela policial O caso do martelo, que teve uma adaptação para a televisão de muita repercussão. O sucesso, porém, veio mesmo com o romance histórico O quatrilho, publicado em 1985 e, mais tarde, transposto para o cinema pelo diretor Fábio Barreto. Em 1996, o filme concorreu ao Oscar como o melhor longa-metragem estrangeiro.

V

O professor Brunello destaca a tradução que fez de quatro autores gaúchos, dois de prosa e dois de poesia. O interessante é que os textos nos livros são em italiano, acompanhados do original em português. Por isso, destaca, “têm também função didática”. Assim, os que se interessam particularmente por tradução têm a oportunidade de observar as particularidades de cada idioma, na comparação entre os dois.

Além da coleção Letteratura luso-afro-brasiliana, que dirige desde 2007, De Cusatis cuida, desde 2010, de mais duas coleções: Pessoana e Saggistica luso-afro-brasiliana (Edizioni dell’Urogallo, Perúgia). Publicou ainda Fernando Pessoa. Scritti di sociologia e teoria politica (Settimo Sigillo, Roma, 1994); Fernando Pessoa: Politica e profezia. Appunti e frammenti 1910-1935 (Antonio Pellicani Editore, Roma 1996); O Portugal de Seiscentos na «Viagem de Pádua a Lisboa» de Domenico Laffi. (Editorial Presença, Lisboa 1998); Fernando Pessoa, Alla memoria del Presidente-Re Sidónio Pais. (Edizioni dell’Urogallo, Perugia 2010); Fernando Pessoa. Economia & commercio. Impresa, monopolio, libertà. (Edizioni dell’Urogallo, Perugia 2011), entre outros.

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Nel Dolore Sconfinato (Nos Gerais da Dor), de Maria Carpi, a cura di Brunello Natale De Cusatis. Perugia:Morlacchi Editore, 107 págs., 2014.

Racconti antologia bilíngüe, de Sergio Faraco,  presentazione, selezione e traduzione di Brunello Natale De Cusatis. Perugia: Morlacchi Editore, 160 págs., 2014.

Il caso del martello (O caso do martelo), de José Clemente Pozenato, presentazione, selezione e traduzione di Brunello Natale De Cusatis. Perugia: Morlacchi Editore, terceira edição, 2014.