CineArt
Vinícius Kepe

Estudante de Jornalismo na Universidade Santa Cecília e Crítica e Linguagem Cinematográfica nas horas vagas. Escreve toda quarta-feira na coluna CineArt sobre assuntos relacionados à Sétima Arte.

As belezas de Praia do Futuro

Praia do Futuro é o mais recente trabalho do diretor cearense Karim Aïnouz, uma coprodução entre os países Brasil e Alemanha que narra uma história de amor, medo, perda e reencontro. No filme, os atores Wagner Moura, Jesuita Barbosa e Clemen Schick são os personagens centrais de uma produção que sustenta o quão maravilhoso é ver no cinema simples relações humanas por meio de uma linguagem visualmente poética.

21 de maio de 2014 - 10:25

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Os três personagens muito bem trabalhos pelos atores Wagner Moura, Clemen Schick (vermelho) e Jesuita Barbosa

No último dia 13 fui conferir a pré-estreia do filme Praia do Futuro (2014), no Cine Roxy Gonzaga. A promessa da presença do diretor cearense  Karim Aïnouz (Madame Satã, 2002) fez com que público e imprensa lotassem as cadeiras da sala 5 do multiplex, que completou 80 anos em 2014. Soma-se a isso a expectativa de ver o grande ator brasileiro Wagner Moura atuando novamente nesta que é uma coprodução entre os países Brasil e Alemanha.

Praia do Futuro – nome de uma praia localizada em Fortaleza, capital do Ceará – narra uma bela história sobre amor, medo, perdas e escolhas usando três personagens centrais: Donato (Wagner Moura), um salva-vidascearense, Ayrton (10 anos, Savio Ygor Ramos/18 anos, Jesuita Barbosa), irmão de Donato e Konrad (Clemens Schick), um piloto de motocross de Berlim. E tudo começa quando Donato não consegue salvar o amigo de Konrad, que morre afogado, e os dois começam a se relacionar. Após isso, Donato decide visitar o piloto na Alemanha e nunca mais voltar para o Brasil.

O filme começa enquadrando algumas belas imagens da praia como se fossem verdadeiros cartões postais de Fortaleza. Logo em seguida, um contraste brutal, mas sem deixar de ser belo: uma longa cena de afogamento onde Donato tenta salvar um turista alemão, mas sem sucesso. A cena é dolorosa pelo tempo que o bombeiro insiste em tentar carregar o corpo do rapaz, que se perde dentro do grande mar. A câmera, ora dentro e ora fora da água, sustenta a sensação de desespero.

Economizando nos movimentos de câmera e no diálogo a fim de valorizar a linguagem subjetiva e as expressões dos excelentes atores, é notável que assistir Praia do Futuro é estar diante de um filme cinematograficamente estético – poético, ou, para os mais classificantes, de “arte”.

O olhar de Karim Aïnouz, que também escreveu o roteiro em parceria com Felipe Bragança, valoriza as relações humanas de uma maneira intrínseca e divertida, como se todos pudessem se colocar no lugar dos personagens. Em um dos diálogos entre Donato e o irmão, Ayrton, o salva-vidas pergunta algo do tipo “e se algum dia eu morrer dentro desse mar?”. “Como assim, morrer? Tu é o Aquaman, cara! O Aquaman não morre no mar”, responde o irmão. A pergunta e a resposta veio a calhar após o incidente, quando o mar começa a intimidar Donato.

Karim Aïnouz, respondendo a pergunta de um espectador após a sessão, disse que quis “retratar no longa-metragem os heróis da vida real, os medos e perdas dos heróis da vida real” exatamente quando estreiam tantos filmes de super-heróis nos cinemas. Não é a toa que durante o filme os personagens recebem timidamente uma alcunha heroica: Ayrton é Speedy (Racer) e Konrad, o Motoqueiro-Fantasma.

A história viaja de uma quente Fortaleza para uma fria Berlim, que se estende durante todo o segundo ato do filme (dividido em três capítulos: O Abraço do Afogado, O Herói Partido ao Meio e Um Fantasma que Fala Alemão). A direção de fotografia, assinada por Ali Olcay Gözkaya, é um dos trabalhos de destaque e que faz toda a diferença.

A Direção de Arte de Marcos Pedrosos e os figurinos de Camila Soares não ficam para trás. Pedroso faz com que todo o público sinta o choque térmico de uma mudança brusca de ambiente. Se no início temos imagens com cores quentes, a partir do segundo ato temos cenas relativamente mais escuras e frias. Podemos ver três cores primárias com muita frequência no filme: vermelho, azul e amarelo. Os personagens usam essas cores do começo ao fim do filme. Para quem não viu, é possível notar que a cor mais usada por Donato é o vermelho, até por conta do seu trabalho: um salva-vidas. Vermelho é uma cor quente, característica da praia, do calor. Porém, quando o cearense vai para Berlim, em uma das cenas o personagem passa a usar uma camiseta azul, uma cor fria, como Berlim, indicando que ele não está mais no seu habitat natural.

Os atores foram muito bem selecionados. Wagner Moura emprega o mesmo profissionalismo de muitos personagens. Como bombeiro, ele trabalha o mesmo conflito pessoal, só que em uma situação diferente, do seu icônico Capitão Nascimento, do filme Tropa de Elite 1 e 2. Clemens Schick, mesmo sem entender e falar muito bem o português, mostra-se totalmente confiante em seu papel. O ator, em uma entrevista, disse que estava acostumado a fazer filmes de ação, como em uma vez que foi um vilão em Cassino Royale, da franquia 007. Jesuita Barbosa é considerado um novato, mas também uma promessa do cinema. Ficou conhecido depois do seu primeiro trabalho em Tatuagem (2013), onde atua ao lado de Irandhir Santos. Sua cena de reencontro com o irmão é memorável, forte e linda. Realmente, Barbosa tem muito para oferecer ao público viu ou vai ver o filme.

As cenas de sexo e nudez entre Moura e Schick são de tirar o chapéu. Quando bons atores estão em cena não é preciso de muito para ganhar o público. As atuações dos dois é tão natural que é possível arriscar que os dois se conheciam há séculos. É observável uma verdadeira intimidade amorosa, o que torna justificável, além de magnífica e bela, as cenas estarem ali.

Triste mesmo é notar o quanto a maioria do público é preconceituoso e imaturo. Diante dessas cenas, muitos começaram um reboliço em suas cadeiras. Notei o total de desconforto em ver dois homens fazendo o que o ser humano, biologicamente, nasceu para fazer. Para piorar, começaram a se levantar e ir embora. Não deu para ver direito – estava mais interessado em continuar me encantando com o filme -, mas a maioria dos que levantaram eram casais, tanto de idosos quanto jovens. Foi lamentável ter que escutar coisas do tipo “puta que pariu, gay é foda”, “até você, Wagner Moura?”, “eu não acredito!” ou “ninguém merece”. Para essas pessoas, desejo, muito, que aprendam a respeitar a orientação sexual de cada e valorizar uma verdadeira obra prima cinematográfica.

Ficha Técnica

Título: Praia do Futuro (2014)

Direção: Karim Aïnouz

Roteiro: Karim Aïnouz e Felipe Bragança

Atores: Wagner Moura, Clemen Schick, Savio Ygor Ramos, Jesuita Barbosa, Sophie Charlotte Conrad.

 

  • Jéssica Alves

    Um filme para quem, realmente, aprecia a sétima arte. Parabéns pelo belo contexto das cores e do filme em geral. 🙂

    • Vinícius Kepe

      O cinema é feito para todos, basta cada vez mais as pessoas serem críticas quanto aquilo que apreciam. Obrigado, Jéssica.

  • Antonio Pacheco

    Uma obra-prima de extremo bom gosto. Não tem nada de vulgaridade. É tudo na medida cert

    • Vinícius Kepe

      A maior vulgaridade é o preconceito na cabeça das pessoas, Antonio. Um abraço!