Dr. Bruno Pompeu

Chuva que te quero chuva

Novo artigo do médico Bruno Pompeu

09 de agosto de 2018 - 17:54

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Chuva que te quero chuva

Acabei de chegar em casa. Chove muito. É uma chuva fina, aquela que molha e congela. Tomara fosse um chuvisco. Nesse tempo chuvoso, saí sem guarda-chuva e fui pego na chuva. Molhado, gelado, chego em casa. Numa chuveirada bem quente me assossego num canto, contemplando como as chuvas da minha infância.

Criança tenra, minha mãe fazia bolinhos de chuva, que nos acalentavam, diminuíam o medo e eram uma segurança, até porque, em dias de chuvão, sempre faltava luz: que medo! Nessas noites sem luz uma chuvarada de perguntas sobre assombrações era sempre feita aos pais, e a resposta era: quando voltar a luz, todo mundo no chuveiro pronto para dormir. E assim se passou o tempo.

Na juventude dos 16 anos, fomos conhecer uma indústria em Cubatão, trabalho de escola. Lá, ouço pela primeira vez a expressão “chuva ácida” – aterrorizante -, produzida por produtos químicos exalados pelas indústrias que, em forma de chuva química, que poluía o solo, mangues, plantas, animais marinhos, terrestres e o homem. Ficamos aterrorizados e voltamos a Santos com pavor da acidez química produzida pelo “capitalismo desenfreado”, na época metralhado por marxistas destemperados, porém com razão.

Na mesma época, surge na telinha a chuva artificial, através de bombardeio de nuvens, na esperança da tão esperada chuva na caatinga. Chuva que não vem e que não virá tão cedo, tamanha a agressão ecológica ao planeta, principalmente pelo desmatamentos das épocas colonial e imperial, e que segue até hoje. A disparidade era tanta que, paralelamente, chovia granizo no sul do país. Chuva de meteoros nos pólos, e, por conta disso, só uma taça de espumante Chuva de Prata para afastar a chuvarada de más notícias.

Ligavamos a TV e, nesse tormento pluvial, cenas de Cantando na Chuva – aliás, um belíssimo sapateado – contrastavam com as condições climáticas. Indo para o Colegial uma chuva de perguntas aos professores dedicados: era chover no molhado, pois tudo na ciência ainda estava só começando. Chega a Copa de 70. Numa chuva de papel, comemoramos o título – que alegria! Músicas como “Chove Chuva”, de Jorge Ben, davam o tom da época.

Já na vida como médico, comecei a perceber que o poder de tudo estava nas mãos de um manda- chuva. Até que exercendo a clínica me deparo com um caso de “chuva tireotóxica”, situação grave da glândula tireóide e que pode levar o paciente à morte.

Vou indo porque a chuva vem vindo e a enxurrada é certa.