Ideias
Adelto Gonçalves

Doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003) entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

Poesias eróticas de Bocage: as falsas e as verdadeiras

Novo artigo do professor universitário, jornalista e escritor Adelto Gonçalves

11 de julho de 2018 - 13:30

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Durante largos anos, a imagem de Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805) que ficaria para a posteridade seria a de um poeta erótico, pornográfico e chocarreiro. Nos últimos anos, porém, graças ao trabalho de estudiosos – inclusive, deste articulista –, essa imagem tem sido substituída por um perfil menos caricaturesco. Essa revisão ganha agora ainda mais força com a publicação de Obras completas de Bocage: Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas (Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2017), com organização e notas do pesquisador setubalense Daniel Pires, que reúne as composiç&ot ilde;es de caráter fescenino do poeta, as de autoria duvidosa e as indevidamente atribuídas a ele, acompanhadas por estudo introdutório fundamental para uma melhor compreensão da dimensão do homem, da obra e do seu contexto.

Aliás, as Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas podem ser consideradas como o sétimo volume da obra completa de Bocage, depois de terem sido publicadas inicialmente de maneira anônima em forma de folheto no início do século XIX. Mas só foram, pela primeira vez integradas na obra completa de Bocage em 2004, na edição preparada pelo mesmo Daniel Pires para as Edições Caixotim, do Porto.

Nesta nova edição, porém, os poemas foram divididos por Pires em três núcleos: o primeiro contempla aqueles que são de Bocage, enquanto o segundo reúne aqueles de autoria duvidosa e o terceiro é constituído por peças que não lhe pertencem, mas que lhe foram atribuídas por editores pouco responsáveis ou ainda forjadas por seus inimigos, entre eles Belchior Curvo Semedo (1766-1838) e José Agostinho de Macedo (1761-1831), inclusive a famosa Ribeirada: poema em um só canto, de autor anônimo.

Como diz Pires na conclusão da introdução que escreveu para este livro, é urgente inverter aquela imagem desvirtuada de Bocage que ainda perdura junto a setores menos ilustrados da população tanto em Portugal como no Brasil, ou seja, a do “Bocage chocarreiro, protagonista de anedotas boçais, fura-vidas, promíscuo e pornográfico”. Ou ainda: homem de caráter obsceno, licencioso, difamador, libelista e devasso, que teria lido com sofreguidão alguns dos escritores libertinos franceses dos séculos XVII e XVIII, como Donatien Alphonse François de Sade, o marquês de Sade (1740-1814), e até o italiano Aretino (1492-1556), “pena corrosiva e temida tanto pelo clero como pela nobreza”.

Em oposição a esta caricatura, quem conhece a sua obra sabe que a imagem mais adequada à realidade – aquela que deveria ter ficado para a posteridade – é a do poeta genial, conhecedor profundo da literatura francesa, predominante em seu tempo, tradutor rigoroso do latim e do francês, homem de paradigma cívico,  muito superior àquela que ficou, a de “cidadão que marcou múltiplas gerações de portugueses, influenciadas pela sua irreverência, frontalidade, demanda de liberdade, humor corrosivo e pela assunção inequívoca do corpo”, como observa o estudioso.

Para tanto, Pires fez, mais uma vez, aquilo em que se tem mostrado um mestre incomparável nas letras lusas de nossa geração: vasculhou arquivos e tratou de mostrar que essa imagem fescenina, em grande parte, nasceu de um comportamento nada ético de editores que, em busca do dinheiro fácil, trataram de atribuir à pena de Bocage, praticamente, toda a poesia erótica e pornográfica que surgira à época. Esses novos documentos colhidos nos arquivos confirmam essa trapaça da história e devolvem ao poeta a verdadeira dimensão de sua obra.

II

Em busca das fontes consultadas por Bocage, Pires leu no Arquivo Nacional da Torre do Tombo o processo inquisitorial de Bocage, que inclui a devassa feita à casa de André da Ponte Quental, onde o poeta residia quando foi detido pelos esbirros do intendente de Polícia, Pina Manique, em 1797. Nessa devassa, está a relação dos títulos dos livros apreendidos, que inclui obras como Thérèse Philosophe, de Jean-Baptiste de Boyer d´Argens, o marquês d´Argens (1704-1771), considerada “imoral” e apreendida 12 vezes entre 1771 e 1789 pelas autoridades portuguesas. Depois, o pesquisador deslocou-se até a Biblioteca Naciona l Francesa, em busca de outros livros inventariados pela polícia e que não são encontrados nos arquivos portugueses.

O pesquisador lembra que, no ano seguinte ao da morte de Bocage, aproveitando-se da comoção que o seu desaparecimento causara, saíram duas edições de Rimas e, em 1812-1813, à época em que a família real estava no Rio de Janeiro e a censura estava mais branda, a edição em dois volumes de Obras Poéticas de Manuel Maria de Bocage, feita pelo impressor Desidério Marques Leão sem qualquer cuidado, apenas com fins claramente pecuniários.

III

Na introdução, Pires diz que o poema erótico Cartas de Olinda e Alzira saiu, sem dúvida, da pena de Bocage, mas dúvidas persistem até hoje. Pires diz ainda que as afinidades de Cartas de Olinda e Alzira com Pavorosa Ilusão da Eternidade colocam por terra a tese de que o texto não seria da lavra de Bocage. Mas é claro que afinidades não provam nada, pois continua a ser, no mínimo, estranho que alguém tenha dado, em 1825, Cartas de Olinda e Alzira como traduzidas de Voltaire por Bocage, como se vê no códice 10576, pág.81, da secção de Reservados da Biblioteca Nacional de Lisboa.

O que intriga ainda mais é que Cartas de Olinda e Alzira não tenham nenhuma referência a personalidades e geografia portuguesas, enquanto na Pavorosa o autor pelo menos introduz a si mesmo no poema quando cita seu nome arcádico (Elmano). Poder-se-ia argumentar que a situação de clandestinidade a que estava sujeito obrigaria o autor à prudência de não se revelar nos textos, mas essa argumentação teria de ser válida também para a Pavorosa, que correu de mão de mão tanto quanto Cartas d e Olinda e Alzira.

Além disso, sabe-se que Bocage traduziu outros textos de Voltaire e de vários autores franceses, como La Fontaine (1621-1695), Lesage (1668-1747), Evarist de Parny (1753-1814), Racine (1639-1699), Rousseau (1712-1778), Bernardin de Saint-Pierre (1737-1814), Anne-Marie Fiquet du Bocage, madame du Bocage (1710-1802), François-Thomas-Marie de Baculard d’Arnaud, monsieur d´Arnaud (1718-1805), e outros. E que Voltaire foi uma das influências que mais marcaram as culturas que orbitavam em torno da cultura francesa. De uma coletânea apreendida pelos esbirros de Pina Manique, constavam composições de Voltaire, ao lado de outras de autores diversos e anônimas.

Só que o suposto original de Voltaire de Cartas de Olinda e Alzira nunca apareceu. E não tem sido por falta de pesquisas. Florence Jacqueline Nys, autora de As Fontes Francesas de Cartas de Olinda e Alzira de Bocage (Braga, Centro de Estudos Humanísticos, Universidade do Minho, 2005), fez exaustivas pesquisas não só em arquivos portugueses como em bibliotecas de França. Igualmente o professor francês Jean-Michel Massa (1930-2012), estudioso da obra de Machado de Assis (1839-1908), a pedido deste articulista, deslocou-se várias vezes a arquivos franceses em busca de alguma pista que levasse à conclusão sobre a possível autoria voltairiana daquele poema. Todos os esforços foram infrutíferos.

IV

Em sua introdução, Pires reconhece que a estrutura de Cartas de Olinda e Alzira é idêntica aos Ragionamenti, de Aretino, que “constituíram uma fonte úbere para os libertinos dos séculos XVII e XVIII”, inclusive Voltaire. E que Thérèse Philosophe, do marquês d´Argens, seria uma das obras que mais marcaram a lira de Bocage. De fato, na epístola VII de Cartas de Olinda e Alzira, há uma referência a uma Teresa francesa: “(…) Como é vil a expressão, e é vil o gozo/ Que uma Teresa, que outras tais francesas/ Em impuros bordéis gabar se ufanam!”. A diferença é que Thérèse Philosophe é um monólogo e Cartas de Olinda e Alzira um diálogo entre duas protagonistas.

Para Pires, a influência mais determinante em Bocage seria, isso sim, a do poeta romano Ovídio (43a.C.-18d.C) em quem o poeta “se revia na sua poesia e no seu percurso de vida”. Afinal, “ambos foram marginalizados pelo poder, sentiram o peso indelével do ostracismo, apesar do seu inequívoco talento, e lapidaram versos que a posteridade registou”.

Mas não se pode esquecer que Florence Jacqueline Nys detectou outra influência marcante em Cartas de Olinda e Alzira, a de L´Académie des Dames, de Nicolas Chorier (1612-1692), onde já havia um célebre par da literatura pornográfica: Octavie e Tullia. Segundo a estudiosa, o tema e a estrutura desse poema “estão muito mais próximos do texto de Bocage”. A investigadora contestou ainda que as Heroides, de Ovidio, possam ter inspirado Bocage, já que naqueles versos do poeta latino aparecem mulheres apaixonadas que escrevem aos seus maridos e amantes, d os quais se encontravam separadas, enquanto Olinda e Alzira têm contatos com seus parceiros.

Seja como for, a verdade é que esta nova edição de Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas torna-se, desde já, fundamental para quem quiser se aprofundar na obra e na vida de Bocage. Até porque biografia definitiva não passa de um termo inventado por editores astutos para atrair leitores, ainda que se trate de obra exaustivamente pesquisada, pois os arquivos sempre guardam segredos que demoram, às vezes, séculos para serem desvendados.

V

Daniel Pires (1951), doutor em Cultura Portuguesa pela Universidade de Lisboa, é mais conhecido por suas pesquisas sobre Bocage, sua paixão literária, o que o levou a fundar o Centro de Estudos Bocageanos, em Setúbal, em 1999, além de defender tese de doutoramento sobre a obra do poeta. Foi responsável pela edição da Obra Completa de Bocage, publicada por Edições Caixotim, do Porto, entre 2004 e 2007.

Licenciado em Filologia Germânica, já deu aulas de inglês no ensino secundário e foi professor em Setúbal. Sua paixão pela pesquisa e seu gosto pelo conhecimento já o levaram a trabalhar em São Tomé, Angola, Moçambique, Macau, China, Goa e Escócia. Em Macau viveu por três anos, entre 1987 e 1990, onde atuou na Universidade local, e, mais tarde, ensinou na Universidade de Cantão, a cerca de 120 quilômetros de Hong Kong.

É autor de importantes trabalhos de divulgação da obra de Bocage, como o livro Fábulas de Bocage (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 2000), Bocage: a Imagem e o Verbo(Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2015) e a organização e publicação da brochura da Exposição Biobibliográfica comemorativa dos 230 anos de nascimento e dos 190 anos da morte de Bocage (Setúbal, Câmara Municipal de Setúbal/Biblioteca Pública Municipal de Setúbal, 1995). Com Fernando Marcos, preparou a edição de uma pasta com 15 belos postais (sépia) sobreBocage na Prisão (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 1999).

É autor de Padre Malagrida: o Último Condenado ao Fogo da Inquisição (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 2012), O Marquês de Pombal, o Terramoto de 1755 em Setúbal e o Padre Malagrida (Setúbal, Centro de Estudos Bocageanos, 2013) e de ensaios sobre Camilo Pessanha, Wenceslau de Moraes e Raul Proença.

Publicou ainda o Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa no Século XX (Lisboa, Editora Grifo, 1996), constituído por três volumes, e o Dicionário Cronológico da Imprensa Macaense do Século XIX,  em que descreve todos os periódicos que foram publicados em Macau no século XIX, incluindo os jornais ingleses que, durante a Guerra do Ópio, saíram simultaneamente em Macau e em Cantão.

Colaborou no Dicionário de História de Portugal, Dicionário da República, Dictionary of Literature of the Iberian Peninsula, Cambridge Guide to World Theatre, Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Dicionário do 25 de Abril e no Dicionário de Fernando Pessoa, além de fazer parte das comissões que organizaram as comemorações do bicentenário da morte de Bocage, em 2005, e as comemorações dos 250 anos do nascimento de Bocage, em 2015.