As ruas estão cada
vez mais infestadas de carros. E os carros carregam na pele colantes cada vez
mais numerosos de “família feliz”. Recentemente, numa festa, conheci uma mulher
que, empolgada com o adesivo no veículo, tatuou uma reprodução dos bonequinhos
nas costas.
Descontada a cafonice deste adesivo que se espalha como
música de Michel Teló, a família feliz não existe como padrão e suas variações numéricas.
Nem se separarmos as duas palavras. E se for vista como idealização apenas?
Desconfio também deste argumento, pois o dono do carro tenta a todo custo se
desvencilhar do igual, com uma falsa personalização ou exclusividade. Colar um
papagaio ou um cachorrinho de skate, por exemplo. É a armadilha das relações de
consumo. Desejar o diferente e cair no uniforme.
Antes que se prepare a cruz e a fogueira, não tenho intenção
de destruir a família como núcleo social ou pregar a melancolia como motor das
relações humanas. É duro de engolir a necessidade de exibir, como elemento de
um pacote de status, a família como símbolo do seriado mamão com açúcar da TV
fechada.
A concepção de família de comercial de margarina nunca
foi dominante na história brasileira. Este modelo carrega consigo outra ilusão:
família feliz é sinônimo de família estruturada. O colante do carro, como
representação do real, derruba todos os núcleos familiares que sonham com cerca
branca de madeira e cachorro saltitante na porta de casa. Sempre escondemos os
desgarrados, pervertidos e irresponsáveis no armário, embaixo do tapete ou no silêncio
monástico. É claro que as definições acima são invenções de quem manda no
barraco contra quem pensa ou se comporta diferente.
A família
feliz não nasceu das mentes de publicitários, obcecados em vender mais para o
café da manhã. Eles apenas se apropriam de um modo de vida construído com a cristalização
da sociedade de consumo. A crueldade reside no fato de que nós compramos um
modelo desvinculado, inicialmente, da nossa cultura, como exercício do Complexo
de Vira-Latas.
Absorvemos
o conceito de família de origem norte-americana. A família feliz seria branca,
heterossexual, religiosa, com macho alfa dominante, mulher-amélia, um casal de
filhos estudiosos, casa própria e recheada das últimas novidades em
eletrodomésticos, carro na garagem (para abrigar o colante, nos dias atuais), a
tal da cerca, e os animais de estimação; de preferência, cachorro.
A
dinâmica cultural, por exemplo, nos impede de adquirir o pacote completo de
família feliz, ainda que financiada em 24 vezes no carnê. Mas o problema é que
compramos a essência do produto. E fingimos que praticamos a única saída
possível. As demais construções familiares significam erros a serem
administrados.
Vivemos
numa época em que a felicidade se transformou em obrigação social. Integra o
protocolo da suposta convivência civilizada. Não há tempo para luto ou perdas.
E comprar a felicidade se torna um caminho espinhoso quando vivemos rotinas aceleradas
no nível do desumano.
Compramos
a felicidade 24 horas nas farmácias, nas redes sociais, nos programas que fazem
autópsias nas vidas alheias. Processamos esta felicidade nos consultórios, nos
gurus do mundo corporativo, nos livros de auto-ajuda que prometem
enriquecimento veloz.
Família
e felicidade raramente se encaixam. Se ainda não se convenceu, observe com
distanciamento os almoços de domingo na casa da vovó ou as noites de Natal. Não
utilize exceção como regra, mas aplique os critérios que você adota para
criticar a casa do vizinho ou do parente que se alojou na sua residência.
O
adesivo “família feliz” é mais um adereço que compõe o perfil de aparência que
adoramos ostentar. Colá-lo na frieza do metal do carro reforça a submissão de
todos os valores e princípios à lógica de consumo. Se não podemos, de fato,
pagar pela felicidade, optamos por transformá-la em badulaque na prateleira de
casa. E exibi-la como marca nos carros que infestam o trânsito.
A
ironia é que, se somos felizes o tempo todo, com a família que muitas vezes
odiamos ter escolhido, a felicidade e a família tornaram-se banais. Cadê a
graça?