Não existe uma pessoa, seja por estresse, pressão no trabalho, problemas na família ou mesmo pela derrota do time de futebol que não tenha seus momentos de mau humor. Algo que é normal, compreensível e até saudável.

Mas quando o mau humor se torna algo constante, é hora de começar a se preocupar. O mau humor crônico é uma doença, chamada distimia, e possui tratamento. Reconhecida pela Medicina nos anos 80, é uma forma crônica de depressão, porém, com sintomas mais leves.
"Quem expressa o mau humor mesmo nos melhores momentos, sem distinção ou razão para tal humor, sempre negativo e cronicamente deprimido na maior parte do dia apresenta na verdade um sintoma típico da distimia ou transtorno distímico", explica a psicóloga Carla Ribeiro de Oliveira, que possui o blog
http://www.psicologacarla.com/.
O problema, que atinge cerca 3% da população - de acordo com a Associação Psiquiátrica Americana - pode surgir na infância ou numa fase mais tardia da vida. O mais comum, porém, é que surja na adolescência. A causa é multifatorial, podendo ser por hereditariedade, predisposição biológica, traços de temperamento e estressores vivenciais. De acordo com pesquisadores, eventos estressantes na infância também podem ter um papel importante no perfil afetivo distímico do adulto.
"Para se pensar na hipótese de um transtorno há critérios e para isso a pessoa deve ser devidamente avaliada por um profissional para verificar outros sintomas bem como o contexto da expressão de tais comportamentos da vida do paciente, transtornos associados, histórico pessoal e familiar", esclarece Carla.
Os principais sintomas, segundo a psicóloga, é a perda generalizada de interesse ou do prazer, retraimento social, preocupação excessiva com o passado ou sentimento de culpa, irritabilidade ou raiva excessiva, diminuição da atividade e produtividade, mas não a ponto de atrapalhar as exigências do dia a dia. "Alguns destes sintomas devem se manter por pelo menos um ano para se levar a hipótese de distimia", ressalta Carla.
Para a psicóloga, porém, é importante tomar o cuidado para não rotular e transformar todos os comportamentos do homem em doenças, logo, deve-se ter uma compreensão do momento em que a pessoa se encontra. "Às vezes, o mau humor é saudável, dependendo do momento no qual a pessoa está vivendo", acrescenta.
Para o jornalista Bruno (o sobrenome foi omitido), com fama de mal humorado, isso acontece pois nem sempre as coisas ocorrem como planejado. "Muitas vezes vezes, isso me deixa nervoso quando elas não acontecem. O que me torna uma pessoa com fama de mal humorado.
Isso interfere no meu dia a dia quando as pessoas entendem que eu estou bravo, mas na realidade eu só estou sério, preocupado para que tudo saia da melhor maneira possível. Tanto na minha vida pessoal, quanto profissional. Minha namorada e minha família já pediram para que eu fosse me consultar com uma psicóloga. Eu até fui, mas não tive nem paciência, nem tempo para voltar. Acredito que seja importante, mas vou tentar outras alternativas para melhorar meu humor antes de voltar ao consultório".
Tratamento
De acordo com a psicóloga, a percepção de que é necessário um tratamento é muito particular. "Nem sempre quem sofre deste transtorno busca por ajuda, pois a distimia pode vir a se tornar um quadro crônico. É importante que a família e pessoas próximas possam sugerir e estimular a busca por ajuda profissional", explica
Atualmente, o tratamento do transtorno associa acompanhamento profissional com psicólogo e psiquiatra, que utiliza medicamentos antidepressivos. Os medimentos auxiliam a corrigir o distúrbio biológico, porém o paciente precisa aprender novas possibilidades de reagir e estabelecer relações interpessoais.
Além do tratamento, mudanças na rotina mesmo de pessoas que apresentam mau humor apenas em alguns momentos, mas também desejam mudar o humor são essenciais. A busca pelo prazer - de acordo com a psicóloga - é fundamental, por meio de atividades de lazer, da prática esportiva e reencontro com amigos, por exemplo.
"Estas podem ser alternativas que contribuem para uma vida mais saudável e feliz. É difícil conciliar isso na rotina do dia a dia, mas é necessário priorizar o bem- estar", ressalta.
Difícil convivência com os mal humorados
Em praticamente todas as famílias existe um que acorda sem humor algum. Quem nunca ouviu: Bom dia! Por quê?? Comportamento que se modifica depois de alguns minutos, mas, às vezes, horas. Se acordar ao lado de uma pessoa assim já é difícil, porém normal, imagina ter que passar o dia com alguém que acorda e dorme neste mesmo estado de espírito. Carla (nome fictício) convive com o problema todos os dias. Casada e mãe de gêmeos, ela enfrenta diariamente o mau humor do marido.
"A vida a dois já é difícil ainda mais com duas crianças, o que fica ainda pior por conta do temperamento dele. Tudo é motivo para ele fechar a cara, desde a hora que acorda até a hora de dormir. Se eu tenho um problema, por exemplo, tento encarar de bom humor, pois com certeza o problema fica mais leve e menos tenso. Em contrapartida, ele faz de um probleminha um problemão. Agrava as coisas. A convivência fica cada vez mais difícil", explica. "Isto interfere em tudo. Tenho medo inclusive que o estado de humor dele interfira na educação dos nossos filhos, que passe para eles esse comportamento", ressalta.
Criada em uma família de pessoas bem humoradas, Carla explica que fica difícil aceitar. "O casamento pode até não estar dando certo por este problema. A convivência diária é muito difícil", acrescenta. Além disso, Carla explica - assim como a maioria das pessoas mal humoradas - que o marido não aceita a necessidade de tratamento. "Ele se acha normal", diz.
O lado bom
De acordo com o estudo realizado na Universidade de New South Wales (Austrália), e publicado na edição da revista científica Australian Science, em 2009, o mau humor também apresenta um lado positivo. Os mal humorados são mais atentos, menos influenciáveis e especialmente cuidadosos na hora de tomar decisões. É o que aponta o estudo que colocou voluntários para assistir a filmes especialmente escolhidos para deixá-los de bom ou mau humor, e depois observou como eles se saíam em uma série de testes de raciocínio lógico.
No artigo, os mal humorados cometeram menos erros e se comunicaram melhor — especialmente quando escreviam. Tudo indica, segundo o estudo, que o mau humor potencializa as estratégias de processamento de informações do cérebro. Ponto pra ele. E enquanto um estado de ânimo positivo facilita a criatividade, a flexibilidade e a cooperação, o mau humor melhora a atenção e facilita um pensamento mais prudente. A pesquisa sugere que a tristeza melhora as estratégias para processar a informação em situações difíceis.
Confira os sintomas e recomendações*
- Mau humor;
- Baixa auto-estima;
- Desânimo e tristeza;
- Predominância de pensamentos negativos;
- Alterações do apetite e do sono;
- Falta de energia para agir;
- Isolamento social;
- Tendência ao uso de drogas lícitas, ilicítas e de tranquilizantes.
Recomendações
- Se você conhece alguém sempre de mau humor, irritado, pessimista, considere a possibilidade de que seja portador de distimia, um distúrbio do humor para o qual existe tratamento e tente convencê-lo a procurar assistência psicológica;
- Fique atento: a distimia, assim como a depressão clássica, pode acometer crianças e adolescentes. Às vezes, esses transtornos estão camuflados atrás do baixo rendimento escolar, do comportamento anti-social e do temperamento agressivo que não conseguem controlar;
- Se, nos últimos dois anos pelo menos, seus amigos e parentes têm comentando que você anda de cara amarrada, irritado, descontente com tudo e com todos, esteja certo de que isso não é normal, procure um médico;
- Não subestime os sintomas da distimia. Para aliviá-los, é comum o paciente recorrer ao uso de drogas e de tranquilizantes. Em 15% a 20% dos casos, surge a ideia do suicídio;
- Não se engane: não atribua ao envelhecimento, a casmurrice, o mau humor e as queixas do idoso que só reclama e não quer sair de casa. A distimia pode acometer pessoas na terceira idade
- Mantenha a adesão ao tratamento farmacológico e à psicoterapia. Os medicamentos ajudam a corrigir o problema físico e a psicoterapia a aprender novas formas de relacionamento