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Domingo, 19 de maio de 2013
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Fala do leitor  |  Publicado em 29 de setembro de 2011
Quando transformo meu ser em elemento de cenário?

 
Editor , Rosildo Barcellos* IMPRIMIR ENVIAR POR E-MAIL
   
 

Uma das funções do articulista é transformar o que vivemos em elemento pensante.E essa semana fui provocado a escrever sobre algo que também é parte de mim. É a fotografia. Acredito na transmutação histórica do tempo quando estamos fotografando.Quando olho uma foto,não vejo as cores nem tampouco o ambiente. Vejo o tempo  detido, percebo a memória. As fotografias valorizam e eternizam o momento solene do registro do estado de felicidade. Por isso quando leitores me apresentaram essa semana o tema “lambe-lambe” e a ameaça de extinção a que está submetida essa profissão, me senti uma estátua e,claro; estátua é algo inanimado. Só ganha vida no imaginário das pessoas, sem a ter de verdade.Uma estátua nada produz, não escreve, não pensa, só representa.E resolvi pensar sobre o assunto por gostar muito da arte de fotografar e que para meu desespero sou apenas um principiante.

Foi então que recordei que longe dos  grandes estúdios fotográficos e das máquinas digitais, encontramos uma figura especial, ligada à esse passado não muito distante, mas considerado arcaico por muitos: o fotógrafo lambe-lambe. Assim comecei a indagar  ao redor sobre o tema e constatei que poucas pessoas no mundo conhecem a atividade do fotógrafo lambe-lambe.Acrescente-se a isso a informação de que  a máquina que deu origem a esta profissão foi fabricada  no Brasil. Surgiu no início do século pela necessidade de um homem, Francisco Bernardi, de transportar com maior comodidade, todo o equipamento necessário para se obter uma foto em preto e branco.

Essa atividade  é tão diferente pois consegue aliar  criatividade a uma natural e aguçada sensibilidade tátil, que foi o  ponto de partida para o desenvolvimento do ofício, cuja nomenclatura foi sugerida por abarcar um gesto  incomum no exercício da profissão, isto é, o teste que se faz para verificar de que lado está a emulsão de uma chapa, filme ou papel sensível. Para evitar o erro de colocar a chapa com a emulsão voltada para o fundo do chassis o que deixaria fora do plano focal e portanto com falta de nitidez, costumava-se  molhar com saliva a ponta do indicador e do polegar e fazer pressão com esses dois dedos sobre a superfície do material sensível num dos cantos para evitar manchas.

Não podemos deixar que esses verdadeiros artistas sejam esquecidos em nossa memória e não podemos apenas  contemplar as imagens desses “desconhecidos íntimos” e apenas guardar em nossa gaveta do passado, devemos,sim lembrar que das milhares de fotografias esmaecidas produzidas pelos lambe-lambes e que hoje estão esquecidas ou desprezadas em velhas caixas;que cada uma delas representam os fios que tecem a história de sua família,de sua juventude, de sua cidade e por fim da sua vida. E quando estamos em uma fotografia, devemos ter a certeza de que quando ela estiver pronta  não podemos enxergar apenas com os olhos; pois necessitamos amiúde do auxílio da alma,pois quando olharmos uma foto com a alma deixamos de ser pessoas para sermos,lágrima,sorriso,história e elementos do cenário da vida.Quero exaltar a importância da fotografia,neste momento, porque nem sempre aquele adeus poderemos dar e muito menos tatear um semblante com a ponta do nariz.

* Rosildo Barcellos é articulista

 
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