O velho estivador e a festa | Boqnews

Ponto de vista

Foto: Nara Assunção/Arquivo
12 de novembro de 2016

O velho estivador e a festa

A roupa era de missa. O terno surrado ganhou um banho de escova para sair do armário depois de anos. O modelo era antigo, uma carcaça do século passado, mas que ainda impressiona numa festa. O estivador havia perdido as esperanças com tantos hematomas, fruto das surras de um século que poderia ter se encerrado.

Ele não recebera o convite. Sequer confirmara a data da festa, mas se julgava um homem prevenido. Passara várias vezes em frente à casa onde nasceu. Não acreditou nos tapumes, que escondiam o essencial. Escondiam sua saudade de reviver um passado, mesmo sabendo que os tempos são outros.

Quando os tapumes foram aposentados, ele aposentou a desconfiança. Os parentes alertaram: “é armadilha!”. O neto acendeu a luz amarela à maneira dele: “É pegadinha do Malandro!”.

O histórico colaborava para a dúvida. A casa foi fechada no final do século passado. Sejamos francos, pensou!, as reaberturas sempre foram parciais, sempre aquela sem vergonhice de falta de tudo.

Ele não passava perto para não se aborrecer mais, numa época em que os velhos parceiros perderiam seus empregos no cais, tentavam novas praias, novos negócios, mas se esqueciam que nunca tinham se preparado para abandonar a maresia e os sacos de açúcar e de café. Carregar os sacos é muito diferente de vender os dois produtos combinados atrás de um balcão.

Antes de outubro, ele viu na TV o garoto em campanha. Prometia abrir até o final do ano. Ele tinha algum crédito, pois prometera quatro anos antes abrir a casa novamente.

Enquanto passava a camisa de botão, a única que restara de uma vida mais ativa, o velho estivador tentava não dar voz ao espírito da desconfiança. Se um lado explicava que a obra atrasara demais, o outro explanava que todas as obras eram assim, faziam parte da cultura brasileira.

A gravata colorida não parecia tão desbotada quanto no último casamento. Dava para o gasto, bastava que o ferro de passar fizesse seu trabalho. Ao estender a gravata na cama, o cadáver das frustrações insistia em sair do túmulo. A casa vai ficar pronta, mas e os móveis? E as pessoas? Quem pagará a conta depois que a casa reabrir?

O otimismo tomou a dianteira, como o estivador sempre agia quando os dominós na mesa de canto do bar desejavam flertar com a mão alheia. Falou em voz alta: “Assim que a porta for destrancada, eles se organizam e tudo flui com naturalidade”. Nada como as leituras para melhorar o vocabulário e dar novos ares para a vida, pensou, surpreso com a erudição momentânea.

A promessa foi reforçada depois da festa da vitória, no começo de outubro. O garoto prometera quebrar o cadeado e abrir as janelas. O velho estivador comprara a ideia, crente que visitaria o lugar onde nasceu, onde dois dos três filhos também vieram a esta cidade.

O homem do cais lustrou os sapatos, tirou o par de meias sociais do fundo da gaveta. Vestiu primeiro a calça, colocou a camisa, ajeitou o cinto, abotoou o terno. Meias e sapatos completaram a roupa de missa.

Quando pensava em sair de casa, o estivador testemunhou no noticiário. Não era agora! Quem sabe no Natal? Otimista, ele tirou o paletó e pensou: “Estou pronto, pelo menos, para a Missa do Galo!”

Da Redação
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