Páginas de um Game | Boqnews

Ponto de vista

19 de julho de 2017

Páginas de um Game

Desde que comecei a trabalhar com games, fiquei muito próximo ao que este universo tinha a oferecer. Desde aos próprios jogos, quais tive um acesso infinitamente mais facilitado (para minha infelicidade financeira) quanto a tudo que o envolvia. Um dia, ainda no início deste caminho, foi trazido às minhas mãos um livro por um dos antigos colegas de trabalho, que mudaria a minha percepção sobre como isto tudo ia além do que minha breve vida me apresentou.

O livro em questão se chamava Jogador Número 1. Nunca tivera lido nada do autor, Ernest Cline, e estranhei o título. Era o quê? Algum tipo de livro sobre alguém competitivo? Algum tipo de aventura clichê baseada nas experiências no videogame? Enfim, só saberíamos lendo, certo? Para dar um contexto a vocês, só tinha visto obras baseadas em jogos específicos até então. Halo, God of War, Diablo, Assassin’s Creed…histórias em universos já estabelecidos. Domínios “seguros”. E o escritor Ernest Cline tomou a missão de me tirar dali.

Jogador Número 1 foi publicado em 2011 por Ernest Clines e é publicado no Brasil pela editora Leya

Em resumo, o livro conta a história do protagonista que vive num mundo que tudo é feito através de uma realidade virtual. Estudos, games, a própria internet, entre outros você tem de colocar um óculos e partir para o fictício. Admirador do criador deste projeto inovador, que acabara falecendo, ele busca pelos itens deixados pelo mesmo quais, reunidos, darão o poder de “administrador” ao portador. Parece brega, eu sei. Mas indo ao que interessa, eu nunca li um livro de forma tão frenética em toda a minha vida (perdeu apenas para Harry Potter e a Ordem da Fênix…não é um ótimo exemplo, reconheço, mas juro que meu gosto literário vai além disso caros leitores).

Em sua busca aos determinados itens, mostra-se o que é escondido no “mundo real” e o que isso implica nesta outra realidade. Por mais que o jogo se aprofunde, mais o que nos torna carne e osso se mostra. Até, de forma genial, ele unir ambos numa trama que me surpreendeu de várias formas até o “glorioso” final. Para quem me conhece e sabe que sou mega apaixonado por videogames, tenho de admitir que consegui gostar mais das partes onde o livro mostrava estes personagens agindo no mundo real. O que os games tinham o ensinado que fosse funcional “aqui”?

O livro Jogador Número 1 vai ganhar uma adaptação cinematográfica em 2018, dirigida por Steven Spielberg

“Fanboyzice” à parte, terminei o livro pensando o que deu nos escritores de livros sobre jogos por nunca terem entrado nesse mérito? Vamos combinar, os videogames são legais, são uma fonte de entretenimento que transcende idades e gostos, mas como demorou tanto para perceberem que o foco de verdade são os jogadores? Nós, que jogamos, aprendemos, absorvemos o que eles oferecem, sofremos (Aeris, eu lembro de você R.I.P.), rimos, fazemos amizades, nos unimos entre outros fatores infinitos que poderia passar o dia listando aqui.

Claro que curto as adaptações comuns, mas Jogador Número 1 se provou outro tipo de leitura. Referências, easter eggs, saudosismo, colocando o protagonista e os outros personagens no mesmo patamar que os jogadores que conhecemos e somos aqui, hoje. Isso é mais do que uma indicação, caro leitor, é uma declaração de alguém que cresceu com o controle em mãos (do videogame, não se engane ~risos~). De um jornalista e de um leitor ávido. Seja qual for seu gosto, se você já se divertiu nos jogos é uma leitura obrigatória.

Aeris protagoniza uma das mais tristes histórias do mundo dos games, em Final Fantasy VII. 

No começo do ano, em um dos meus passeios, fui até a Livraria Saraiva do Shopping Praiamar e encontrei Ernest Cline novamente. Até mesmo minha namorada sabia o que isso significava. “Perdi o Diego” foi o que ouvi, com alguns risos (que escondiam um pouco de sinceridade na frase). O nome do livro era Armada. Vamos ser céticos, como alguém acertaria dois raios no mesmo lugar? Nos próprios videogames isso já é raro de acontecer. Um game faz sucesso, dois na mesma seqüência geralmente não. Inclusive nas franquias mais famosas. Fui gostar do Halo DE VERDADE no quinto jogo. Era divertido, mas nada convincente. God of War até hoje não me encantou. Gostei muito da geração GameBoy Advanced do Pokémon (Sapphire e FireRed), mas no Nintendo DS senti algo faltando.

Pensando desta forma, posterguei Armada. Li Deuses Americanos, reli coleções de mangás, comecei outras e nada desse. Fechei vários games, comprei o Nintendo Switch, e parecia cada vez mais distante. Quando sentei e pensei “comprei né…vamos ler”. E foi um dos maiores arrependimentos que tive no universo, o de não ter feito isso antes. Repetindo a frase do parágrafo acima, dois raios caíram no mesmo lugar. Uma verdadeira homenagem aos jogos FPS (tiro em primeira pessoa), ficções de invasão alienígena e aos jogadores de videogame, foi tocante em cada aspecto de gamer que tenho dentro de mim.

Armada é o segundo livro de Ernest Cline, publicado pela Casa da Palavra no Brasil. 

Isso nos volta à essência de tudo, sejam livros, games ou o que for. Tem de nos fazer saber quem somos. Nos tocar e nos aproximar do que temos em nossa vida. Pode ser fantasioso o quanto for, temos de nos ver no reflexo dessa história. Conheci games maravilhosos em sua estrutura que não me chamaram interesse algum. Faltava “alma”. Faltava “eu” ali. Pode não ter sido direcionado à mim, mas não aceito menos do que isso. Tenho de ver nas ações dos personagens as minhas próprias. Seja em pensamentos, ideias, interações ou o que for. Algo que me faça conhecer mais sobre eu mesmo e agregue alguma coisa que me melhore como ser humano. O uso do meio digital para melhorar o real.

Dicas de leitura à parte, quais recomendo fortemente se vocês curtem umas páginas de pura ação e nostalgia, temos de buscar tudo que nos adicione boas coisas na vida. Essa coluna é sobre games, mas não apenas da parte que você senta na frente da televisão ou da telinha dos portáteis e sim de todo universo que os preenche. E Ernest Cline, mesmo sem ter trabalhado em nenhum jogo de sucesso, me transportou para duas das melhores histórias que já vi sobre o universo. E boas histórias podem custar o que for, mas não tem “preço” (ainda mais se vocês gastam mais de R$200 num jogo).

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