Dunkirk | Boqnews

Ponto de vista

1 de agosto de 2017

Dunkirk

Muitos apontam que só o tempo transforma os filmes em clássicos. Talvez eu até concorde com isso, mas ainda assim é complicado sair de Dunkirk, novo e décimo filme de Christopher Nolan e não pensar: “taí um filme que será um clássico”.

Para chegar ai, Nolan vai justamente na contra-mão de praticamente toda sua carreira. Primeiro, por buscar inspiração em uma situação real, segundo, por praticamente usar a seu favor um dos seus maiores problemas: uma certa frieza. Quase um distanciamento que sempre faz seus filmes soarem pouco emotivos. O que, curiosamente, não acontece aqui.

E isso, por Dunkirk contar uma história perturbadoramente fria. Nela, em um dos episódios mais famosos da Segunda Guerra, depois de uma operação que dá desastrosamente errada, o exército inglês acaba “preso” a uma praia com seus mais de 300 mil homens. Sitiados pelo exército nazista, a única coisa que os separava de serem dizimados era um esforço francês que protegia a cidade de Dunquerque.

Durante mais de dez dias, o exército inglês (e também os franceses e holandeses) permaneceram enfileirados na areia esperando por uma salvação lenta e sem esperança. Uma das soluções da Inglaterra acabou sendo o uso de pequenas embarcações particulares que foram usadas para cruzar o Canal da Mancha e salvar os soldados.

O evento aconteceu em 1940 e serviu de inspiração para o começo da “virada de mesa”, tanto da Inglaterra, quanto da França (Russia e Estados Unidos ainda não tinham entrado na Guerra), e só é bom perder esse tempo explicando esse cenário, pois Nolan não está muito interessado nisso. Seu maior objetivo é única e exclusivamente a imersão.

Quem entrar no cinema para ver Dunkirk irá entrar de cabeça nessa guerra. Não aquela guerra pop de Spielberg e nem a poético de Terence Malick e Clint Eastwood, mas sim uma guerra crua e violenta. E essa violência não vem de qualquer tipo de sangue, mas sim do sentimento que Nolan, Hoyte Von Hoytema (diretor de fotografia) e Hans Zimmer (Trilha Sonora) criam.

Nolan busca essa falta de esperança, essa falta de explicação, esse distanciamento. Como se aqueles soldados estivesse ali apenas esperando seus destinos, atônitos e sem qualquer tipo de força. Acompanha um jovem soldado que faz de tudo para voltar para casa, mas aos poucos vai ligado seu arco com o de mais três outros personagens, um piloto da RAF (Tom Hardy), o oficial responsável pelo resgate dos solados na praia (Kenneth Brannagh) e um civil que decide sair com seu pequeno barco para resgatar os soldados (Mark Rylace).

Enquanto os três têm pontos de heroísmo, o jovem soldado é apenas um sobrevivente. Mas Nolan consegue ainda dar uma segunda camada para todo esse entrelaçamento com um jogo de tempo que não é uma surpresa, mas ajuda na hora de criar um ritmo diferenciado e dá uma enorme sobrevida ao segundo ato.

E tudo isso fotografado como pequenas obras de arte se por um acaso fossem estáticas. Tudo é lindo, marcante e enche a tela de cinema. Não existe sequer uma composição feia. E se Nolan não parece confortável em entregar muito significado em sua plasticidade, compensa isso com um visual de cair o queixo. Sua batalhas aéreas estão perto de estarem entre as mais empolgantes do cinema.

Por outro lado, tudo isso parece um pouco apressado demais e talvez alguns planos mais longos valorizassem ainda mais o trabalho de Nolan e Hoytema, assim como contrastaria melhor com o a agilidade das batalhas (por exemplo). Mas nem de perto um problema que prejudica a experiência de Dunkirk.

Ainda quando o assunto é “experiência”, Zimmer escreve (mais uma vez) uma trilha sonora que cria uma camada de complexidade ao filme. Suas composições tem a urgência de cada situação e crescem em uma impressão de sufoco e catarse que explode nos peitos dos espectadores. Como se sua trilha estivesse lá para incomodar.

E esse incômodo talvez seja a principal qualidade de Dunkirk. O peso de estar em uma guerra onde nada mais parece fazer sentido e não há esperança, onde a beleza é violenta. E tornar algo tão pesado em algo belo é coisa de clássico. E com Nolan em seu momento mais maduro, o resultado disso é um filme que futuramente será chamado de clássico, já que aparentemente agora ainda não podemos fazer isso.

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Da Redação
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