Ponto de vista
Celso Lago, a voz
Nunca havia derramado
uma lágrima com a morte de um artista. Além do sentimento de perda e de luto,
sempre soube separar a obra e o autor (ou intérprete). Em muitos casos, porque
independentemente da qualidade a obra não me aguçava lembranças afetivas ou
experiências específicas. Em outros, porque não conhecia a fundo a biografia do
artista, embora apreciasse suas criações.
Nunca me senti tão melancólico com a ausência de um artista
até saber da morte do cantor Celso Lago, na noite de 28 de dezembro. Celso é,
para muita gente, o melhor intérprete de MPB que passou por essas terras
caiçaras. O melhor que testemunhei nos últimos 20 anos.
A obra se misturava com o artista. Celso Lago era tão doce
e sofisticado quanto o repertório que nos entregava numa noite comum em um bar
qualquer. Como todos os sensíveis, o cantor jamais andava pela obviedade.
Celso Lago transformava, durante três, quatro minutos de
duração da música, uma composição lado B em clássico instantâneo. Ouvíamos a
letra pela primeira vez com o mesmo ar de nostalgia daquele ícone que viria a
seguir no repertório.
Como os melhores intérpretes, Celso era um camaleão. Mas um
camaleão capaz de imprimir metamorfose com carimbo único, que acrescentava
substâncias àquela obra em construção, que sobreviveria pela memória de quem
estava sentado à frente dele.
Celso Lago não fazia covers. Era como os clássicos
crooners, como foi Milton Nascimento. Celso marcava a ferro a canção que
interpretava, nos escravizando com afetividade, bem mais profundo do que aquele
pedido em papelzinho de bar (ou de cruzeiro de navio). Ouvir Celso era
memorizar quando, onde e com quem estava quando o assistiu.
Acompanhei à distância a trajetória de Celso Lago durante
muitos anos. Tornei-me fã por causa de um casal de amigos, Meire e André, que
como muitos admiradores descobriam onde ele estava e peregrinavam para
ouvi-lo. No caso deles, são mais de 20 anos, desde os tempos de namoro.
Passei a entender, com eles (e com o próprio Celso), o
sentido de uma música sacra. Aprendi que, dependendo de quem está no palco, o cenário,
o cardápio e o endereço pouco importavam. Ali estava a voz.
Ouvi Celso Lago pela primeira numa churrascaria. Estava lá,
com pouco menos de 20 anos, para um almoço com amigos. Mal consegui tirar os
olhos do palco apertado, diante de um cantor cuja voz engolia as dezenas de
desafinados que jogavam conversa fora. Muitos deles acabaram convertidos e,
menos de uma hora depois, cantavam junto e obrigavam os envergonhados a admirar
em silêncio.
Ouvi Celso Lago pela última vez no extinto bar Pierrot. André
e Meire estavam lá comigo. Éramos seis fieis em busca do pastor. Uma de nós,
Aracely, também cantora, dividiu com ele duas músicas. E Celso, num dos intervalos,
sentou-se à nossa mesa para papear, falar de música e lembrar de pessoas e
lugares da cultura de Santos.
Santos perdeu também um professor em gestação. Celso Lago
daria aulas de canto na Secretaria Municipal de Cultura em 2014. Fico imaginando
como seria um camisa 10 descrever e tentar ensinar os milagres de um gol de
placa com estádio lotado.
Santos não pode esquecê-lo. Mais do que um texto em jornal
ou dar nome a uma sala, as homenagens tem que acontecer onde Celso Lago se
sentia melhor. Por que não um show, com cantores, instrumentistas, poetas,
atores, todos os caminhos da arte desaguando no que este intérprete foi em
vida? Por que não uma apresentação ao ar livre, de graça, para todos?
De tantas mensagens, comentários e condolências, uma delas
melhor definiu o que representou Celso Lago para a música santista. A frase é
do músico Julinho Bittencourt e me pareceu tão simples quanto definitiva.
Celso Lago, o maior de todos nós.