Ponto de vista
Homens de branco
Estive duas vezes, nos
últimos 15 dias, no consultório de um cardiologista, para acompanhar uma pessoa
próxima. Na primeira vez, ao ver a sala de espera lotada, pensei que assistiria
a horas de TV e que tanta gente tornaria a consulta uma versão médica de
lanchonete fast-food.
Realmente, esperamos por uma hora e meia. Quando entramos
na sala do médico, começaram as surpresas. O cardiologista estava de ótimo
humor, ainda que ciente de que teria mais quatro, cinco horas de trabalho. Ele
pegou os exames, recomendados por outro profissional, e analisou item por item.
Depois, explicou didaticamente para que servia cada
um deles. Perguntou sobre os remédios que a paciente tomava e sobre os efeitos
provocados pela medicação. Recomendou outro remédio, explicou os motivos para a
mudança e quais os efeitos colaterais que poderiam ocorrer. Neste meio tempo,
aliviou a conversa com assuntos mais leves.
Pediu para examinar a paciente. Verificou se havia
inchaço, fez os exames básicos e explicou o porquê da ligeira elevação da
pressão arterial. Voltou à mesa e detalhou novamente cada medicação, quanto
tempo deveria tomá-la e alternativas em caso de insucesso. Depois de 40
minutos, pediu que ela marcasse a data de retorno para 15 dias. E foi enfático:
Qualquer problema venha até o consultório. Não espere até o início de
janeiro.
Saímos do consultório com a sensação de que algo estava
errado. O comportamento simpático do médico se repetiu na volta, 15 dias
depois, o que nos fez pensar que ele se aproximava de um grau de exceção. A
obrigação profissional se transformou em mérito, em elemento de diferenciação.
Mais
do que se queixar das filas, das esperas sem fim e da falta de infra-estrutura,
os pacientes costumam reclamar da ausência de humanidade na relação com os
profissionais de saúde. Tive várias experiências de ser atendido ou testemunhar
consultas, em plantões de hospitais e pronto-socorros, nas quais os médicos não
tocaram nos doentes. Fizeram três ou quatro perguntas e foram taxativos:
virose. Virou piada em salas de espera.
Em outras situações, o paciente sai com uma lista de
exames e sem a certeza de um diagnóstico preliminar. Outro exemplo: um amigo,
internado em um hospital de Santos para uma cirurgia cardíaca, jamais viu o
médico que o operou em duas semanas que ficou por lá em férias forçadas.
A falta de humanização no contato médico-paciente é
assunto recorrente entre profissionais com formação mais antiga, do tempo em
que existia médico de família. Eles protestam, por exemplo, contra a ausência
de disciplinas da área de humanas nos cursos de Medicina.
Tenho a impressão de que a tecnologia e o avanço
científico, se facilitaram o diagnóstico e o tratamento de inúmeras doenças,
também colaboraram para fortalecer a visão de que o corpo humano se limita a
ser uma máquina para conserto.
O Hospital Santa Catarina, em Blumenau, inicia, em
fevereiro, testes com prontuários digitais. O trabalho, pioneiro no país, vai
durar um ano. O prontuário eletrônico permite ao médico acessar exames,
cuidados recebidos pelo doente, prescrever medicamentos e orientar enfermeiras.
A
ferramenta analisa o prontuário e fornece, por meio de um índice, um
prognóstico ao médico, com base em temperatura, frequência cardíaca, frequência
respiratória, pressão arterial e função renal, entre outros pontos. Apenas 10%
dos hospitais brasileiros usam algum tipo de prontuário eletrônico, mas se
limitam a controlar agendamento de consultas.
Independentemente
das facilidades tecnológicas, nada substitui o olhar de conforto de quem foi
escolhido para diagnosticar ou tratar um paciente. As máquinas servem para
auxiliar, jamais para se sentar em um consultório ou se deitar numa maca. E
Medicina nunca será mera leitura de dados matemáticos.