Ponto de vista
Django Livre

Histórias que contém a dose certa de amor entre duas pessoas,
sempre renderam um bom enredo para atrair o público ao cinema. O motivo? É
passivo do ser humano ter compaixão e torcer por alguém que sofra por não ter o
seu ou sua amado entrelaçado em seus braços, mesmo que para isso seja
necessário derramar sangue. Muito sangue.
Essencialmente, todas as boas histórias estão focadas em um
tipo de amor. Não que existam diferentes tipos de amor. Amor é amor. A política
imposta para diferenciar os interesses do indivíduo que exerce o ato de amar
é que são questionáveis. Enfim, o sentimento que provém da passionalidade é
material bruto para suprir grandes expectativas das relações sociais. E é
trabalhando o indispensável Lei x Desejo que Quentin Tarantino coloca à mostra nas telonas sua mais nova Arte.
Com pinceladas fortes com a cor vermelha sobre uma tela de material árido, a
mistura vai tomando forma. Uma forma que tanto surpreende e exalta os ânimos de
quem as vê. Ah, e quando digo Lei x Desejo, neste caso, leve em consideração
que não é algo apenas metafórico, e sim literal, já que estamos falando de Django com D mudo -, um negro
alforriado do século 19 vivendo entre as turbulências políticas e
comportamentais em um período da pré-guerra civil americana.
Assistir a um filme de Tarantino é uma experiência única.
Sempre única. Mesmo que a trama apresente, inicialmente, uma situação clichê
(briga entre os membros da mesma gangue, sede de vingança, roubo de dinheiro,
judeus e o fascismo alemão etc.), o diretor sempre busca um novo ponto de
vista, outro olhar, outro ângulo o olhar humano e o olhar da câmera. Em
entrevista para a revista Rolling Stones
do mês de janeiro (2013), ele diz: A vingança é material bruto para fabricar
filmes do gênero. E, com maestria, ele faz desse produto sua fórmula mágica de
produzir filmes autorais de sucesso nos quais, ele mesmo, escreve o roteiro, dirige,
produz e, com certa timidez, mostra sua cara em uma cena ou outra.
Em Django Livre, ele não faz diferente. Dessa vez,
carimbando sua marca como fã das produções italianas sobre caubóis no velho
oeste (western spaghetti), Tarantino monta uma peça de vingança em
meio a terras secas, foras da lei, escravidão e fazendeiros ricos. Logo na
primeira cena, que, aliás, é uma homenagem que deixaria Sérgio Leone cheio de orgulho, entre muitos zooms in e zooms out (aproximação
e afastamento) das câmeras e uma música tema clássica dos filmes de Django nos anos 70, cantada por Luis
Bacalov, é perceptível a
fidelidade do cineasta com o ambiente. E, com um close nas costas feridas com
chicote de Django, vemos que aquela será uma história de sofrimento e ódio.
Mas, com a chegada de um doutor especialista em odontologia e que vende aos
montes seus sorrisos de escárnio, chamado Dr. King Schultz, a mistura
tanto esperada pelos fãs está montada: a saga neoexploitation, no melhor estilo
Quentin, está pronta para rodar.
Com quase três horas de duração,
vemos um escravo sendo alforriado e se tornando caçador de recompensas, brancos
criminosos e violentos sendo empilhados aos montes, escravos sendo castigados e
uma história de amor interrompida. Uma história digna de um conto germânico
onde, a Princesa (mulher de Django), é presa em uma montanha de fogo
(fazenda Candyland) por seu pai (Calvin Candie) e que coloca um
dragão (Stephen) no seu encalço e que espera ansiosamente ser resgatada
por seu príncipe. Até aqui, já é de se imaginar a mescla de situações que o
diretor pode fazer em apenas um filme. Mesmo quem não tenha visto nenhum outro
de seus filmes.
Tarantino é assim, gosta que o
público deem risadas de situações delicadas. E não pensem que é por querer
transformar problemas em algo engraçado a escravidão é um assunto no qual ele
sempre teve muito interesse em estudar mas, sim, para mostrar o quanto a
história poderia ser diferente com apenas alguns retoques. Retoques que, hoje,
o cinema pode mostrar ao mundo de forma aberta, sem censura ou retaliação por
parte da sociedade que ainda é racista. O mesmo ele fez com os judeus em Bastardos
Inglórios. Deu poder ao povo oprimido e uma segunda chance para reinventar, de
forma fantasiosa, a aniquilação da parcela nazista alemã.
A violência é sua assinatura. Em
outra entrevista, esta concedida para a revista Bravo!, do mês de janeiro (2013),
ele diz: Não vou mudar minhas cenas por quê um tipo de público acha que exista
muito sangue ou violência. Não vou a uma
apresentação do Metallica e peço para eles abaixarem o volume do som. É
a mesma coisa.
Com uma trilha sonora envolvente,
inserida de forma magistral em cada cena de destaque, o filme embala o
espectador em uma odisseia pela região Sul dos EUA muito bem caracterizada
pelas paisagens, construções e figurinos.
Entre um bang-bang e outro, o
filme agrada e fornece um retrato diferente de um período onde as marcas da
injustiça ainda sangram nos dias de hoje.
Agora, deixo algumas dicas de
filmes que com certeza influenciaram Django Livre, além, é claro, da
filmografia de Quentin Tarantino. São eles:
– Django (dir. Sergio Corbucci)
– Por um punhado de dólares (dir. Sergio Leone)
– Os imperdoáveis (dir. Clint Eastwood)
Filmografia de Quentin Tarantino
– Cães de Aluguel
– Jackie Brown
– À Prova de Morte
– Pulp Fiction
– Kill Bill: Vol. 1 e 2
– Bastardos Inglórios