Ponto de vista
O novo passageiro
O prefeito de Santos, Paulo
Alexandre Barbosa, resolveu andar de ônibus essa semana. Acordou cedo, chegou
de carro à praça Jerônimo La Terza, no Jardim Rádio Clube e tomou um ônibus até
o Terminal do Valongo. Ele estava acompanhado pelo presidente da CET, Antônio
Carlos Gonçalves.
No trajeto, o prefeito perguntou aos passageiros sobre
qualidade do transporte, horários, pontualidade e limpeza dos veículos. E
aproveitou a presença da imprensa para prometer que os motoristas deixarão de
ter dupla função em abril. Os passageiros deverão ter cartão de transporte para
andar de ônibus. Não haveria mais pagamento em dinheiro.
O que o prefeito esperava encontrar na viagem? O sistema
de transporte da Dinamarca? É necessário andar de ônibus para descobrir que os
motoristas de ônibus têm um emprego desgastante, com dupla função, além de
dirigir por horas, sem descanso, em um trânsito cada vez pior?
Esta ação de marketing é realmente fundamental para o
prefeito ter certeza de que os luminosos nunca acertam os horários de passagem
dos coletivos? São necessários holofotes da mídia local para o prefeito descobrir
que os ônibus parecem carregar gado em várias horas ao dia? Ele poderia
perguntar ao presidente da CET, que está no governo há 16 anos e conhece bem a
cidade.
O Conheça Santos que o prefeito improvisou esta semana
poderia estimulá-lo a pensar o modelo de transporte e trânsito que o município
adotou nos últimos 20 anos. Até que ponto a Prefeitura vai questionar as ações
da empresa que detém o monopólio do transporte público? Não precisa entrar em
coletivo para ouvir um rosário de reclamações. Qualquer ponto de ônibus é
suficiente para compreender o óbvio.
O passeio do prefeito de Santos é uma atitude comum entre
políticos. A escola da política é apartidária e, por conta disso, padroniza
comportamentos, principalmente na hora de encenar para os eleitores. É claro
que existe a conivência da outra parte, mas políticos seguem regras básicas
como abraçar idosos, beijar crianças e experimentar comidas, inclusive as
exóticas.
No
caso de alguns partidos, como o PSDB, existe um fascínio por andar de
transporte público. Seria culpa inconsciente pelos serviços (mal) prestados?
José Serra e Geraldo Alckmin adoram passear, por exemplo, de trem e metrô. É
item obrigatório na cartilha de campanha.
O
marketing que mascara governos conta com a tolerância da sociedade. Na prática,
o prefeito Paulo Alexandre Barbosa não tomou medida alguma. Como é preceito
básico da bíblia política, parecer costuma gerar mais resultados do que
exercer.
O
tour via ônibus aconteceu na quarta-feira. No dia seguinte, os usuários que
madrugam e precisam de coletivo na Zona Noroeste continuaram esperando muito
tempo pelo transporte, viajaram apertados, pagaram por uma passagem
proporcionalmente cara e foram conduzidos por motoristas exaustos para uma
jornada de trabalho difícil. E que clonam a si mesmos como cobradores.
Paulo
Alexandre Barbosa já provou ser excelente aluno na escola da política. Nunca
perdeu uma eleição. Sabe que ensinar também significa aprender o que não se
deve fazer.
Por isso, torço para
que o prefeito não compartilhe da lição do chefe de turma José Serra, que veio
inaugurar a maquete de uma obra na Ponta da Praia, em 2010. Aliás, obra
cancelada pelo governador eleito Geraldo Alckmin logo na primeira semana de
trabalho dele.