Ponto de vista
Amor

A porta de um apartamento lacrada, um ambiente com pouca luz,
uma rotação de 360 graus e um cadáver em volta de flores: está montado o
cenário que descreve o resultado do sentimento humano contido na última
produção do cineasta alemão Michael Haneke, Amor, que disputa na cerimônia do
Oscar cinco estatuetas, entre elas, a de melhor filme, melhor filme estrangeiro
e melhor atriz, com a interpretação de Emmanuelle Riva, do clássico de 1954
Hiroshima Meu Amor.
Somos apresentados, logo de cara, ao cotidiano de um casal de
velhinhos que vivem sua vida pacata, simples e desfrutando de um sentimento não
muito comum aos dias de hoje. E na cena onde temos uma plateia à espera do
começo de uma peça musical chega a ser desconfortante é curioso o modo como, no
cinema, podemos ter a sensação de que nossa vida é observada pelo resto do
mundo. Isto é, parentes, amigos, colegas de trabalho, transeuntes etc. Haneke,
talvez, possa estar querendo falar com o público: Olha, é isto. Nossa vida é
uma apresentação musical, a variação de humor compreende as notas musicais nos
seus tons baixos e altos, agudos e graves. Vivemos num cenário vago, onde as
interpretações no palco são o resultado do enredo em que vamos determinar o que
viver em nossas vidas. Quem nós vamos amar ou o odiar. Tudo se resume a
escolhas.
Após um derrame, Anne tem metade do seu corpo paralisado. Sem
querer voltar a ser tradada em um hospital ou qualquer casa especialidade em
cuidados médicos para pessoas na terceira idade, cabe ao seu carinhoso companheiro,
Georges, prometer dar todo tipo de cuidado que ela necessitaria. Dentro de sua
própria casa. É neste ponto que começa uma verdadeira batalha interna entre o
amor e o limite do esforço físico, enfraquecido com o passar do tempo. Logo
vemos as adaptações necessárias sendo feitas no recanto do tranquilo casal:
cama, banheiro e cadeira de rodas. O apartamento deixou de ser um local de
amor, descanso e paz para se tornar uma rotina de atividades que Georges faz
com toda a dedicação baseada na clássica frase matrimonial na saúde e na
doença, mas que, para Anne, seria como dias e mais dias se sentindo um
verdadeiro peso e responsabilidade injusta na vida do marido.
A grande questão é: Até onde vai o amor entre duas pessoas?
Claro, é uma questão tão aberta que fica quase impossível de responder com
qualquer tipo de certeza. O ser humano é capaz de fazer as coisas mais lindas
para outras pessoas, como também é capaz de fazer outras que serão totalmente
reprováveis diante da referida plateia. Mas que, mesmo assim, pode ser em
prol do melhor. E foi vendo o desenvolver da trama e refletindo sobre alguns
assuntos, que me peguei pensando na prática ilegal da eutanásia. Um assunto
complexo, sempre passível de opiniões prós e contras, e que se encaixa
perfeitamente na trama como resposta de uma história de amor trágica, porém,
que mostra, desde o início, o lado sentimental e humano que cada um de nós pode
ter diante da mesma situação.
Ficha Técnica
Amor (Amour, 2012)
Diretor: Michael Haneke
Roteiro: Michael Haneke
Elenco:
Jean-Louis Trintignant; Emmanuelle Riva; Isabelle Huppert; Alexandre Tharaud;
William Shimell;