Ponto de vista
Cartada de mestre
A nomeação de João
Paulo Tavares Papa para a diretoria de Tecnologia, Empreendimentos e Meio
Ambiente da Sabesp não representa apenas o retorno do ex-prefeito à empresa
onde exerceu o primeiro cargo de destaque, há 20 anos. É a confirmação de que
Papa se constitui no maior vencedor político das últimas eleições.
Se Paulo Alexandre Barbosa ganhou nas urnas e, em três
meses de governo, coleciona obstáculos, o ex-prefeito parece ter o controle das
peças no tabuleiro. Cada passo é pensado e executado de maneira meticulosa,
como qualquer estrategista político que se preze.
Perceba que me refiro ao político, e não ao
administrador. A cidade quase andou no piloto automático na segunda gestão. A
Prefeitura lavou as mãos para a transformação urbana e a especulação
imobiliária. Papa não mexeu sequer blefou com o monopólio do transporte
coletivo. O trânsito nos presenteia com o lado perverso das metrópoles. Na área
social, mais de 600 pessoas moram nas ruas, muitas dependentes químicas.
Um ano atrás, o noticiário político cutucava o suposto
mau relacionamento entre o então prefeito de Santos e Geraldo Alckmin. Papa
recebia, por exemplo, convites em cima da hora para eventos com a presença do
governador. Os mais apressados diziam que as rusgas eram previsíveis por conta
da candidatura de Paulo Alexandre.
O primeiro ato apenas se desenhava. Quase sempre em
silêncio, quando não por meias palavras, Papa segurou até onde pôde a definição
do candidato à sucessão. Sérgio Aquino fazia parte, no mínimo, de uma lista
tríplice de especulações.
Enquanto isso, Paulo Alexandre Barbosa disparava na
frente, apoiado ainda que parcialmente – em um discurso de continuidade e sem
atacar a administração municipal. E não negava a imagem de ser um candidato do
governo. Até porque o PSDB, de fato, pertencia à base do prefeito. O então vice
e secretário de Assistência Social, Cacá Teixeira, por exemplo, era do partido
e se elegeu vereador. Quando Aquino entrou na corrida, era tarde demais. Mesmo
com a presença de Papa na campanha e triplicando os números das pesquisas,
Aquino ficou em terceiro lugar.
Depois da eleição, o ex-prefeito pouco se expôs. Deu as
tradicionais entrevistas de balanço, auxiliou o sucessor na transição e deixou
o governo com a popularidade elevada. Manteve a quarentena de praxe e não caiu
nas armadilhas da retórica do atual que culpa o anterior. Mais do que isso:
Papa reapareceu na hora em que Paulo Alexandre enfrenta o pior momento, numa volta
às origens e convidado pelo governador Geraldo Alckmin.
João
Paulo Tavares Papa sempre demonstrou fome de aprendizado. Teve um grande
professor, Osvaldo Justo. Nunca se expôs a escândalos pessoais. A vida privada
sempre foi discreta. E absorveu que na arte da política o silêncio das
sombras produz mais frutos do que os holofotes.
Voltemos ao ano de 2004. Papa convenceu Beto Mansur a
apostar em um novato, em um técnico sem experiência eleitoral. A cidade ficou
dividida e Papa venceu Telma de Souza por 1771 votos. Assim que pôde andar com as
próprias pernas, a criatura abandonou o criador. Papa se afastou de Mansur, que
apresenta altos índices de rejeição. A última eleição para prefeito que o diga!
Quatro anos depois, Papa venceu no segundo turno com a maior votação proporcional
da história de Santos, numa coligação recorde de 19 partidos.
João Paulo Tavares Papa, como político, segue silencioso.
Muitos, dentro do mundo da política, acreditam que ele mostrará as cartas no
momento certo. Em 2014, teremos eleições legislativas. A previsão óbvia é que
Papa, invicto nas urnas, se candidatará a deputado. As apostas variam somente
no CEP. João Paulo pretende subir a serra ou morar em Brasília?