Ponto de vista
Cultura do estupro – Parte II
Na semana passada,
escrevi neste espaço sobre a violência sexual como epidemia global. Uma doença
que não escolhe endereço, cultura ou nível de desenvolvimento econômico. E, em
todos os lugares, persiste a sensação de impunidade, seja por conta de leis mal
aplicadas ou inexistentes, seja por valores culturais enraizados até a medula.
A violência sexual é
utilizada, inclusive, como instrumento político. O Centro de Jornalismo Women
Under Siege denunciou que os estupros contra homens e mulheres se tornou uma
arma na guerra civil da Síria. Segundo a pesquisa realizada pelo Centro, oito
em cada dez vítimas são mulheres com idade entre 7 e 46 anos. Sete anos! A
maioria dos atos violentos são cometidos por soldados. Muitas vítimas afirmaram
ter ouvido, enquanto eram estupradas, frases como: “Você quer liberdade?
Isso é liberdade”.
Mas vamos aproximar o assunto da janela de casa,
conforme prometido. No Estado de São Paulo, quase 13 mil estupros em 2012. Um
caso a cada 40 minutos. Em 2005, eram 10 estupros por dia no Estado. Hoje, são
35 vítimas. Na Baixada Santista, aconteceram 545 estupros em 2011. Guarujá
lidera a lista com 139 casos. Santos registra, em média, quase dez estupros por
mês.
Esta doença permite leitura de variados
ângulos. Mas tenho a impressão de que aspectos sociais e econômicos soam como
transferência de responsabilidade, na qual o sistema ou qualquer outro nome
que pareça uma entidade abstrata assinaria a culpa por comportamentos
individuais, ainda que muitos estupros sejam coletivos.
Prefiro pensar a questão, neste momento, pela
perspectiva cultural. A violência sexual está associada à manifestação mais
selvagem do machismo. O estupro é a visão asquerosa de uma sociedade dita
civilizada quando se olha no espelho. A mulher não é vista como ser inferior,
passível de agressão e posse, apenas durante a violência sexual. O corpo não
pertence a ela. É do homem que se julga imbatível, inalcançável por causa de
seu órgão sexual.
A mulher não possui voz nem condições mínimas
de igualdade para ser capaz de contestar. A posição é servil, de submissão,
diante de um dominador que necessita satisfazer suas vontades, necessidades que
desprezam a existência do humano no outro.
Além de ser vista como coisa, fator que se
estende a quase todas as instituições sociais, a mulher também é classificada
como vilã, símbolo que perpetua o comportamento cultural e justifica como
natural a bestialidade do agressor. Muitos juízes, por exemplo, presumem o
consentimento por parte da mulher, que embora vítima tenha que provar o
contrário.
E se engana quem acredita que o machismo e a
defesa da violência sexual sejam exclusividade masculina. Na semana passada,
ouvi uma mulher dentro de uma universidade – dizer que muitas vítimas pedem
para ser estupradas. O pedido se traduziria nas roupas curtas e indecentes. Ela
não está sozinha. Poderíamos, então, sugerir à indústria do vestuário que fabricasse
camisetas com a estampa: Por favor, me estupre. Sou uma vadia!
A Marcha das Vadias, um movimento social internacionalizado,
surgiu por conta desta reação cínica e intolerante. Uma mulher ouviu algo
parecido de um policial, no Canadá, quando foi denunciar um estupro cometido
contra ela.
Enquanto não entendermos os danos provocados
por uma cultura essencialmente patriarcal, teremos que assinar embaixo das
palavras da coordenadora nacional da Marcha Mundial das Mulheres. Segundo Nalu
Faria, o Brasil é teoricamente livre do ponto de vista da sexualidade, mas se
utiliza dessa liberdade para desqualificar e culpar as mulheres.