Vida de gado | Boqnews

Ponto de vista

23 de maio de 2013

Vida de gado

Os universitários que saem da Universidade Católica de
Santos, na Vila Mathias, por volta das 22h30, costumam demorar cerca de uma
hora e meia para chegar em casa. Eles dependem de ônibus da Viação Piracicabana
para levá-los à Cidade Náutica e bairros próximos, na vizinha São Vicente. É o
mesmo tempo de viagem para os estudantes que tomam ônibus fretados para Peruíbe,
a 70 quilômetros da instituição de ensino.

Na avenida Conselheiro Nébias, ônibus gastam até 10
minutos para percorrer um trecho de duas quadras no mesmo horário. O fluxo de
passageiros cresce exponencialmente por conta da saída de universitários. Como
agravante, a via é estreita e a empresa disponibiliza os maiores veículos, que travam
a avenida e transformam o tráfego em carreata (ou romaria).

Um professor estava no Canal 1, no Marapé, às 18 horas, e
precisava estar em sala de aula, no Boqueirão, uma hora depois para trabalhar.
Diante de ônibus lotados e trânsito carregado, preferiu ir à pé. Estava em sala
50 minutos depois. Uma aluna, por coincidência no mesmo ponto, esperou pelo
ônibus número 7. Chegou ao mesmo lugar meia hora depois que o professor.

Um passageiro me contou que cansou de esperar 30 minutos,
em média, por ônibus da Viação Piracicabana na avenida Presidente Wilson, em
São Vicente. Ele toma o coletivo às 13 horas e, quase todos os dias, enfrenta
veículos lotados até a porta. Não é horário de rush. Nesta semana, tomou uma
lotação e pegou um ônibus em Santos para cumprir a tempo um compromisso de
trabalho. Ele não conseguia entrar no intermunicipal número 8.  
            

É só parar em qualquer ponto de ônibus para verificar a
insatisfação coletiva dos usuários contra a empresa que mantém o transporte
coletivo em Santos. O debate sobre a cobrança em dinheiro e o uso de cartões
apenas mascara o real cenário. Até porque o prefeito Paulo Alexandre Barbosa, anunciou
a alteração na cobrança em fevereiro, naquele passeio de ônibus. Alteração adiada
em abril porque a empresa não se preparou no sentido de instalar postos em
quantidade suficiente. Lembram-se das filas de duas, até quatro horas, em março?
 

A
discussão desvia o foco sobre a ausência de cobradores nos veículos. Isso sem
falar na cortina de fumaça em forma de “benefícios”, como carros novos,
ar-condicionado e Internet. É transformar obrigação em mérito.
 

Com a mudança, os motoristas se tornaram soberanos nos
coletivos. Cada um toma a decisão que for mais conveniente. Alguns aceitaram
dinheiro. Outros enfatizaram as recomendações pelas novas regras. Um terceiro
grupo se recusou a receber pagamentos que não fossem em cartões. Crianças
tiveram que descer do ônibus por conta do comportamento do condutor.

A ideia de que os passageiros poderão pagar em dinheiro
três vezes ao mês soa ridícula. Os passageiros seriam filmados e as imagens,
registradas em banco de dados. Como os motoristas vão verificar quem passou
quantas vezes pela catraca? Outra função a acumular? Quem monitora a “lista
negra”? A proposta parece piada pronta diante de tantas dificuldades.

O prefeito disse, em várias situações, que vai cobrar da
Piracicabana melhor qualidade no serviço. Lembrou, inclusive, que o contrato –
herdado por ele, faça-se justiça! – se encerra em 2015. Quando a data chegar, a
cidade vai abrir concorrência no transporte coletivo? O passageiro poderá
escolher por qual companhia viajar, assim como faz na ponte rodoviária?

Em
tempo: os motoristas do ônibus Seletivo estão informando aos passageiros que
levem trocados para pagar a passagem de R$ 3,50. As notas maiores serão
guardadas nos cofres dos veículos para evitar assaltos. É a política da
transferência. Mudam-se os cenários. Mudam-se as vítimas. Persistem os
problemas. 

Da Redação
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