Ponto de vista
Vida de gado
Os universitários que saem da Universidade Católica de
Santos, na Vila Mathias, por volta das 22h30, costumam demorar cerca de uma
hora e meia para chegar em casa. Eles dependem de ônibus da Viação Piracicabana
para levá-los à Cidade Náutica e bairros próximos, na vizinha São Vicente. É o
mesmo tempo de viagem para os estudantes que tomam ônibus fretados para Peruíbe,
a 70 quilômetros da instituição de ensino.
Na avenida Conselheiro Nébias, ônibus gastam até 10
minutos para percorrer um trecho de duas quadras no mesmo horário. O fluxo de
passageiros cresce exponencialmente por conta da saída de universitários. Como
agravante, a via é estreita e a empresa disponibiliza os maiores veículos, que travam
a avenida e transformam o tráfego em carreata (ou romaria).
Um professor estava no Canal 1, no Marapé, às 18 horas, e
precisava estar em sala de aula, no Boqueirão, uma hora depois para trabalhar.
Diante de ônibus lotados e trânsito carregado, preferiu ir à pé. Estava em sala
50 minutos depois. Uma aluna, por coincidência no mesmo ponto, esperou pelo
ônibus número 7. Chegou ao mesmo lugar meia hora depois que o professor.
Um passageiro me contou que cansou de esperar 30 minutos,
em média, por ônibus da Viação Piracicabana na avenida Presidente Wilson, em
São Vicente. Ele toma o coletivo às 13 horas e, quase todos os dias, enfrenta
veículos lotados até a porta. Não é horário de rush. Nesta semana, tomou uma
lotação e pegou um ônibus em Santos para cumprir a tempo um compromisso de
trabalho. Ele não conseguia entrar no intermunicipal número 8.
É só parar em qualquer ponto de ônibus para verificar a
insatisfação coletiva dos usuários contra a empresa que mantém o transporte
coletivo em Santos. O debate sobre a cobrança em dinheiro e o uso de cartões
apenas mascara o real cenário. Até porque o prefeito Paulo Alexandre Barbosa, anunciou
a alteração na cobrança em fevereiro, naquele passeio de ônibus. Alteração adiada
em abril porque a empresa não se preparou no sentido de instalar postos em
quantidade suficiente. Lembram-se das filas de duas, até quatro horas, em março?
A
discussão desvia o foco sobre a ausência de cobradores nos veículos. Isso sem
falar na cortina de fumaça em forma de benefícios, como carros novos,
ar-condicionado e Internet. É transformar obrigação em mérito.
Com a mudança, os motoristas se tornaram soberanos nos
coletivos. Cada um toma a decisão que for mais conveniente. Alguns aceitaram
dinheiro. Outros enfatizaram as recomendações pelas novas regras. Um terceiro
grupo se recusou a receber pagamentos que não fossem em cartões. Crianças
tiveram que descer do ônibus por conta do comportamento do condutor.
A ideia de que os passageiros poderão pagar em dinheiro
três vezes ao mês soa ridícula. Os passageiros seriam filmados e as imagens,
registradas em banco de dados. Como os motoristas vão verificar quem passou
quantas vezes pela catraca? Outra função a acumular? Quem monitora a lista
negra? A proposta parece piada pronta diante de tantas dificuldades.
O prefeito disse, em várias situações, que vai cobrar da
Piracicabana melhor qualidade no serviço. Lembrou, inclusive, que o contrato
herdado por ele, faça-se justiça! se encerra em 2015. Quando a data chegar, a
cidade vai abrir concorrência no transporte coletivo? O passageiro poderá
escolher por qual companhia viajar, assim como faz na ponte rodoviária?
Em
tempo: os motoristas do ônibus Seletivo estão informando aos passageiros que
levem trocados para pagar a passagem de R$ 3,50. As notas maiores serão
guardadas nos cofres dos veículos para evitar assaltos. É a política da
transferência. Mudam-se os cenários. Mudam-se as vítimas. Persistem os
problemas.