Ponto de vista
O PT está morto!
O PT morreu. É um cadáver que se transformou em páginas de memória recente, em
lembranças que nos conduzem ao século passado. O PT das greves do ABC. O PT das
Diretas Já, testemunha ocular da redemocratização. O partido que se envolveu
com os caras-pintadas, símbolo da morte momentânea de um caçador de marajás e
piloto de jet-ski.
Os protestos das últimas três semanas
enterraram, em definitivo, a velha estrela vermelha. E deu forma definitiva e
assumida da nova versão, morta-viva, que suga o que pode e o que não deveria
para se perpetuar no poder.
O PT de hoje é cúmplice de quem bate
em manifestantes. O PT no governo não dialoga, somente sussurra para os
movimentos sociais. É um partido que permitiu que suas lideranças mergulhassem
até o fundo em alianças lamacentas e tóxicas com outras legendas em
decomposição.
O PT de hoje tem ministros que
sugerem as forças nacionais para acuar o que vê como vândalos e sua lista de
reivindicações. Baderneiros que um dia pertenceram à agenda pública de quem
compactua com o porrete no lombo de estudantes.
A militância jovem do PT foi a
exceção, mas teve que esconder suas bandeiras nas ruas para não pagar o preço
dos velhos caciques, que hoje pelas atitudes mais se parecem com generais
de pijama. São semelhantes na fala, no olhar sobre o mundo e nas reações diante
do imprevisto.
A direção do partido, por sinal, só
autorizou a presença da militância e o abraço à causa quando a tarifa de ônibus
foi reduzida em São Paulo. Nada mais petulante do que autorizar que as
pessoas compareçam às ruas para romper o silêncio. Não é coisa de partido do
outro extremo político? Depois, é sintoma de quem optou pelo pragmatismo dos
acordos nocivos ao país.
O PT de tempos atuais aceita e defende
com tom mais elevado de voz que Guilherme Afif Domingos seja ministro. O
mesmo sujeito é filiado ao PSD de Gilberto Kassab e vice-governador de São
Paulo. Mais do que tolerar, o PT abraça e sorri ao lado de Maluf, Sarney, o
próprio Collor e Michel Temer.
O
líder máximo do partido, um ex-presidente cuja barba simbolizava o pensamento de
uma corrente, emudeceu. Por qué no hablas, poderia pedir o rei da Espanha? Luiz
Inácio não se manifesta justamente quando a hora é de se expor e defender o
rebanho. Lula, pelo contrário, jogou a ovelha-mor aos leões, talvez de olho no retorno
à cadeira principal da capital federal.
Um
ex-presidente pediu, certa vez, que esquecessem o que ele escreveu. A atual
presidente dá a impressão que solicita, a todos nós, que esqueçamos o passado
dela. Dilma Rousseff fala na TV como uma antiga matrona, que autoriza a
bagunça, mas dá o pito: Sem arruaças! Ela mal fala de questões sociais. O
discurso é quase sempre economicista, como se este fosse o único ângulo de
análise dos problemas nacionais.
O
PT de hoje caminha com um zumbi, na busca dormente por onde está o alimento. A
carne crua da política dos esgotos. O partido, que esmaga as vozes descontentes
de sua militância, se tornou o espelho de quem mais criticava. Abriu tanto a
boca, que provou do veneno. E gostou!
Hoje,
PSDB e PT se parecem irmãos siameses. Basta ouvir o discurso dos caciques. Pautas
parecidas, perspectivas semelhantes. Governantes que discursam em conjunto para
resistir contra o clamor popular. Governantes que só respondem quando sentem o
gosto azedo vindo das urnas eletrônicas.
Dizem
que o PT morreu com o mensalão. Mas ainda havia pulsação em quadros importantes,
revoltados com seus líderes. Acabaram calados ou expulsos. Para eles, era
possível sentir o cheiro de podre de um moribundo.
O
PT morreu e não notou. Vaga pelos corredores do poder como um morto-vivo,
incapaz de descansar e permitir a reencarnação de novos horizontes, infelizmente
pouco provável em tempos de protestos nas ruas.