Ponto de vista
Os passos de Papa
Política não é um exercício para apressados. Apenas os
pacientes enxergam o óbvio. A saída do ex-prefeito de Santos João Paulo Tavares
Papa do PMDB e o noivado (quase casamento) com o PSDB representa mais um
capítulo de uma novela tipicamente comercial, daquelas que minha avó poderia
dizer: Quem viu o primeiro e o último capítulos viu todos.
Papa é um excelente estrategista, daqueles jogadores com a
capacidade de antever dois, três movimentos no tabuleiro de xadrez. Uma de suas
virtudes é saber esperar. Ao contrário de muitos políticos, que tagarelam
diante de qualquer luz acesa, o ex-prefeito de Santos é calculista em seus
passos. Domina a arte de sair de cena e o momento exato de retornar ao palco.
Não sou fã dele. Penso que sua gestão permitiu o aumento da
desigualdade social no município. O legado dos espigões e os problemas
ambientais também devem ser creditados, em parte, na conta dele e de sua turma.
No entanto, administrador e político são personagens
diferentes. Papa anunciou sua saída do PMDB sem abrir a boca. Deixou que outros
falassem por ele. Ignorou as especulações da imprensa e da classe política. No
movimento seguinte, manteve acesos os flertes com outros partidos, como o PSB,
do cacique Márcio França. Aliás, um dos 17 partidos que ajudaram a sustentar o
governo Papa.
Sem surpresas, o ex-prefeito continuou mineiro quando o
PSDB abriu as portas para ele. Onde estaria a novidade? De fato, nenhuma. Papa
sempre foi tucano, somente não possuía a carteirinha oficial do ninho, mas
sempre se sentou nos sofás mais confortáveis da casa. O PSDB, por sinal, nasceu
da barriga do PMDB.
Como escrevi aqui, no início do ano, Papa foi o maior
vencedor da eleição de 2012. Em primeiro lugar, porque Paulo Alexandre Barbosa
encarava um jogo ganho. A vitória no primeiro turno era cristalina a quatro,
cinco meses antes da votação.
Depois, Papa segurou até onde pôde o lançamento da
candidatura própria e natimorta – do PMDB. Até os turistas sabiam que Sérgio
Aquino não poderia vencer cachorros grandes como Telma de Souza e Paulo Alexandre,
sujeito que construiu sua candidatura ao longo de oito anos e soube o instante
correto de apostar suas fichas.
Durante a campanha, Papa abraçou Aquino sem virar as costas
para o PSDB, que teve o vice-prefeito na sua segunda gestão. Tanto que boa
parte de sua equipe, de secretários ao terceiro escalão, permaneceu na Prefeitura.
Crédito também das alianças partidárias.
Discretamente, Papa saiu de cena para trabalhar no governo
do Estado. Assumiu uma diretoria na Sabesp, retornando à casa que lhe deu visibilidade
como técnico há 20 anos. Era a hora de só observar o tabuleiro e esperar o
relógio correr. O ex-prefeito muda de camisa às vésperas do final do prazo para
troca de partidos.
A entrada de Papa no mundo tucano gera, claro, ganhos
secundários. O maior deles cai nas mãos do atual prefeito de Santos. Paulo
Alexandre Barbosa, em tese, terá ao lado quem seria o principal obstáculo à
reeleição em 2016, além de consolidar o PSDB como o principal partido da
região.
O próximo passo, depois da filiação oficial ao PSDB, é
definir se Papa concorrerá à deputado federal ou estadual. Ele tem crédito
eleitoral para os dois cargos. Contudo, como adepto da paciência, Papa voltará
a ler o tabuleiro e compreender os movimentos dos adversários. Ele tem seis meses
para sair do ninho na hora certa.
A política é, em definitivo, a arte do previsível. Mas o redundante
não é para todos.