Ponto de vista
Carta aos professores
Caros
colegas,
Assim
como vocês, recebi muitas felicitações por causa do dia 15 de outubro. Muitas
delas me pareceram honestas, que indicaram admiração e reconhecimento,
relevando erros por mim cometidos em 11 anos de docência. Outras manifestações,
claro, cumprem as convenções sociais, em parte ditadas pela cartilha de bom
mocismo das redes sociais.
Como
estabelecer a diferença entre as duas posturas? Não sei, sinceramente, mas tenho
a tendência a crer que a maneira como fomos tratados por aqueles que nos
felicitam hoje pesa em minha interpretação.
Não
comemorei o Dia dos Professores. Não pronunciei a palavra escola. Agradeci
educadamente os cumprimentos, mas me soaria cínico se pulasse de alegria ou
soltasse fogos de artifício diante da condição contemporânea desta atividade
profissional.
Ser
professor não é missão, destino, sacerdócio ou trabalho voluntário. Não dou
aulas. Estudo todos os dias para me preparar e ter o que dizer dentro de uma
sala, para 10, 20, 50 pessoas, ainda que erre. Sempre acreditei que tenho que
ser remunerado por este comportamento, como qualquer trabalhador.
Reproduzir
a ideia de que somos seres especiais aponta, a curto prazo, uma posição presunçosa.
Professores são fundamentais em qualquer sociedade, assim como médicos,
enfermeiros, motoristas, engenheiros e atletas. Somente para mencionar poucos
atores ah, esses também são essenciais nesta história.
A longo
prazo, esta condição única realimentada como discurso de confetes e
serpentina mascara a desvalorização contínua de nossa atividade profissional.
Recebo um salário acima da média dos professores brasileiros. É claro que a
frase anterior pode ser distorcida do contexto. Basta torturar números que eles
dizem o que queremos. Porém, devo acrescentar que trabalho quase o dobro de
horas fora da sala de aula. Voluntariado?
Sofro para pagar as contas, mantenho um padrão de vida classe
média, visito bancos os cassinos de hoje de tempos em tempos, fico exausto
entre números para realizar qualquer sonhozinho de final de semana.
Comemorar a data me indica hipocrisia. O país tem um
déficit de 300 mil professores. O piso nacional da categoria gira em torno de
R$ 1500 e muitos Estados ignoram a referência. Este valor é pouco mais da
metade do salário mínimo considerado como ideal pelos economistas. E risível
quando compararmos com alguns dos melhores sistemas educacionais do planeta.
É triste assistir ao Governo Federal se esfalfar para
implementar o Programa Mais Médicos, como único mecanismo de solução para abismo
social brasileiro. Só os estúpidos entendem que o país não necessita urgentemente
de profissionais de saúde.
Por que não temos o Programa Mais Professores? Por que
médicos recebem R$ 10 mil e o piso do professorado é 15% disso? Associar
professores a trabalho menor é prática em todos os níveis. Nas universidades, as
licenciaturas são primos pobres. Recebem, aliás, muitos alunos de baixa renda,
em parte os primeiros de suas famílias a alcançarem o ensino superior. Não é
caridade, é mudança social que deveria ter ocorrido há décadas.
As licenciaturas moram no final da fila dos investimentos
em pesquisa. A retórica não é explícita, mas a rotina indica que outras áreas
diluídas em exatas e de saúde merecem mais verbas pela utilidade à ciência.
Por limitações de espaço, optei por ficar em somente um
exemplo e não descer ao inferno do ensino fundamental e médio. Lembrem-se,
colegas, que estamos a pouco menos de um ano das eleições. Ouviremos pregações
messiânicas de que a educação salvará o país. E que o professor está no centro
do milagre. É a clássica resposta que foge da pergunta e resulta em nota zero.