O Coliseu romano é aqui! | Boqnews

Ponto de vista

30 de março de 2012

O Coliseu romano é aqui!

Santos vai receber, no final
de abril, um dos maiores encontros esportivos do Brasil. Milhares de pessoas
estarão reunidas para acompanhar as novidades no mundo das academias. A cereja
do bolo deve ser o MMA (artes marciais mistas, na sigla em inglês), um esporte
que – como negócio – se transformou em febre e gera múltiplas reações, de artificiais
a oportunistas.

Os sinais de que este esporte é vestido como tendência
popular de comportamento se mostram visíveis na tentativa de nocautear consumidores.
Nas academias, o MMA é oferecido como a coqueluche de benefícios físicos para a
politicamente correta qualidade de vida.

O truque é velho, clássico para uma sociedade que adora
aparências. Assim como outros exercícios mudam de nome por conta de qualquer
enfeite tecnológico (se a nomenclatura estiver em inglês, melhor ainda!), o MMA
é a composição de três modalidades (boxe, jiu-jitsu e muay thai), com
benefícios já comprovados e que pouco as diferem de práticas também
tradicionais.

No cenário cultural, prevalece a estratégia de se
construir um ídolo de maneira artificial por conta de superexposição em vários
tipos de mídia. Anderson Silva, por exemplo, aparece em capas de revista,
frequenta – como outros lutadores – os programas de TV aberta para opinar sobre
variados temas, assina contrato com agência de ex-jogador de futebol e se
conecta a um clube de massa como o Corinthians.

A
história indica que tais conexões são frágeis de longo prazo porque não possuem
respaldo estrutural e cultural para se sustentar a idolatria. Adilson Maguila
Rodrigues, no boxe, e Gustavo Kuerten, no tênis, provaram que um atleta é
incapaz de popularizar um esporte; no máximo, engrossar a linha de palpiteiros,
que opinam como estas modalidades fossem derivações do futebol.

O
filme sobre Anderson estreou em 150 salas, raridade para um documentário. Outra
ação de marketing para se explorar um ícone esportivo construído a fórceps.
Transmissões esportivas aos sábados fecham o pacote.

Até
a classe política, sempre alerta em ano de eleição, sonha em tirar casquinha da
glória alheia. Não cora de vergonha ao passar atestado de desinformação. Um
exemplo é o deputado federal José Mentor, que apresentou projeto de lei para proibir
as transmissões do MMA na TV aberta. O argumento do deputado é que o esporte
propaga a violência na sociedade.
 

Para
se entender o MMA como violento, é preciso se estabelecer mecanismos de
comparação. Como criar graus de violência? Estatísticas de fraturas e mortes,
por exemplo? Neste olhar simplista, o MMA poderia ser visto como tão violento
quanto o futebol, o futebol americano, o boxe, o automobilismo. A lista seria
tão grande quanto estéril.

O
MMA é somente mais um adereço em um modo de vida que cultua a violência, sem
entrar mérito como esporte. Somos violentos por natureza. Apenas nos contemos
por causa das convenções sociais, dos processos que lutam por nos civilizar
todo o tempo. A biografia do ser humano é permeada, sem intervalos, por ações
violentas, com motivos variados, de ganância a poder, o que inclui até a
selvageria pela selvageria.

Vivemos
a cultura do medo por conta desta necessidade real de praticar e glorificar a
violência. Debater a violência física representa somente cutucar a ponta da
ferida. Transformamos, de fato, a violência em mercadoria, que pode ser
negociada de maneira explícita ou nas sutilezas da psiquê.

Culpar
o MMA por estimular a violência ou endeusá-lo pelos benefícios ao corpo humano
é escapar à francesa do olhar sobre como vivemos. É realimentar o esporte como
fonte de lucros por meio de polêmicas superficiais e ídolos de mídia. Nada mais
ingênuo do que um deputado que pretende tirar da tela da TV a versão moderna da
arena romana. Ou uma questão de má fé. 

Da Redação
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