Ponto de vista
O tempo e o suor
Todas as pesquisas indicam,
inclusive a deste jornal, que a eleição para prefeito de Santos será decidida
neste domingo. Pesquisas apontam caminhos. Não costuram certezas. Mas, quando
três institutos diferentes falam a mesma língua, é preciso diagnosticar um
cenário com alto grau de probabilidade.
Apontar as causas para a
possível vitória de Paulo Alexandre Barbosa (PSDB) em primeiro turno e
motivos para o fracasso dos demais é tarefa que requer tempo para os
analistas políticos. Vale, óbvio, para qualquer fenômeno social. É preciso prazo
para conectar e pesar na balança fatores que, juntos, não garantem um resultado
matemático. Sempre haverá um campo de especulação e subjetividade no olhar
sobre o processo eleitoral.
Resolvi, para manter viva a
coerência, pensar sobre a escolha que a maioria dos eleitores fez (ou fará).
Por que escolheram o tucano? Por que rejeitaram os concorrentes, alguns com
mais experiência para a função? Entenda, leitor, como estradas para a reflexão,
somente impressões.
A campanha de Paulo
Alexandre foi eficiente. Construiu uma imagem que convenceu uma parcela do
eleitorado. Um produto bem embalado, que atende às necessidades do consumidor.
Campanhas, a bem da verdade (opa, uma palavra incompatível para o momento),
seguem a obsessão de diagnosticar e se comunicar cirurgicamente com os desejos
de alguém que mal compreende até porque desacredita as entrelinhas da
política.
A campanha do candidato
tucano preencheu os espaços ignorados ou negligenciados pelos adversários.
Expôs o que é diferente de colocar em debate ideias dentro de um cardápio
de anseios coletivos, mas coletivos apenas por coincidências de necessidades
individuais.
Paulo Alexandre se encaixa
no modelo que representaria o novo, embora não o veja como tal. Sem
personalizar, ele simboliza um rumo de gestão que se conhece do governo do
Estado e da própria Prefeitura.
A imagem também funciona
pelo oposto. Os candidatos com maiores índices de rejeição são ex-prefeitos.
Beto Mansur e Telma de Souza carregam nas costas o desgaste de várias eleições,
de discursos requentados, do lado negativo de suas administrações, que o tempo
fora do Paço Municipal inevitavelmente desenterra.
O candidato do tucano soube
capitalizar a popularidade do atual prefeito João Paulo Tavares Papa. Antes de
se oficializar a corrida, Paulo Alexandre não fazia questão de se divorciar do
governo. Pelo contrário, Alckmin e Papa davam as mãos em solenidades e, dentro
da dança política, com o então secretário estadual Paulo Alexandre na mesma
foto.
Papa também demorou para
definir seu candidato. E Sérgio Aquino pagou o preço da indecisão. As primeiras
pesquisas apontavam, por exemplo, que poucos sabiam quem era o apadrinhado do
prefeito. Depois, nas rodas de conversa, a desculpa: quando chegar o horário
eleitoral, as pessoas saberão quem é o candidato dele. De fato, Aquino
triplicou as intenções de voto, mas a poeira no rosto marca o quanto estava
atrás, sem fôlego para se aproximar de Paulo Alexandre. O perfil do técnico
foi, além de tudo, insuficiente.
O candidato do PSDB contou
ainda com as circunstâncias. O eleitor médio está exausto. Não suporta a
campanha eleitoral, ignora os debates, ri nervosamente do horário eleitoral. É comum
a opinião de que a eleição, resolvida em primeiro turno, significa um fardo
cumprido.
Na prática, a cidade deve optar pela
continuidade, pela figura de um gerente, mesmo que a retórica política seja
somente um tempero dentro da receita que borbulha no caldeirão de partidos. O
tempo resolve? Quatro anos para sabermos qual a distância entre a imagem e o
real. Por hora, impossível confiar em um gerente que não transpira embaixo de
sol na feira livre.