O jardineiro | Boqnews

Ponto de vista

24 de abril de 2011

O jardineiro

 Regis
é um velho amigo. Ou um amigo velho. A inversão dá sempre no mesmo porque
delimita a idade, seja do sujeito, seja da amizade. Embora goste muito dele,
nunca tive o direito e a coragem de alertá-lo. A vida dele é uma “paradeza”,
como diriam meus parentes mineiros.

Regis se aposentou e, até o final do
ano passado, ocupava seu tempo com o próprio controle do tempo. Dos outros.
Passava horas na garagem do prédio onde reside, lugar em que serve de
referência. Era balcão de informações, centro de fofocas, controle de entrada e
saída de carros, moradores e visitantes. Tudo permeado por comentários
meteorológicos.

A eficiência era tamanha que deixava o
posto apenas para comer, dormir e ver TV, esta última tarefa depois das 22
horas. Permanecer no posto informal de vigilância e conversar com os vizinhos
aguçaram a percepção dele para um problema das redondezas. Regis se incomodava
com a transformação do canteiro central da avenida onde mora, a Pedro Lessa, em
depósito de lixo.

Nem os caminhões de coleta e os suportes
de metal davam conta de tanta tranqueira. Além dos sacos pretos convencionais,
o canteiro abrigava pedaços de cadeiras, restos de sofás, sapatos furados, brinquedos
abandonados, entre outras quinquilharias.

Regis olhou para os pequenos montes
de entulho, colaboração de moradores e comerciantes, e decidiu que precisava
fincar bandeira naquele território antes que fosse tomado pelos invasores
porcalhões. Era o ponto de virada em um roteiro linear e aborrecido de vida.

Como a maioria dos aposentados,
Regis teria que trabalhar novamente. Como a minoria dos aposentados ativos (a
contradição trabalhista em si), descobriu uma nova vocação e prazer.

Ele se tornou o jardineiro e
guardião de um trecho de 200
metros
da avenida, a duas quadras do Canal 6. Ali, o
cinza ganhou tons de verde. Regis começou com pequenos vasos de plantas. A tática
era de guerrilha: ocupar o espaço antes que o inimigo o fizesse.

O passo seguinte foi convencer a
vizinhança, residente em casas e prédios de três andares, a doar plantas para
aumentar a zona verde. Aproveitava até o armamento adversário. Pedaços de
madeira ganharam novo uso quando compunham o cercado que protegia as plantas. Restos
de metais viraram cordas para garantir a firmeza da proteção.

O hobby agora é expediente.
Comerciantes das redondezas doam materiais. Moradores e visitantes comentam a
mudança de visual. Regis foi promovido e levou de presente a responsabilidade
proporcional ao novo cargo. A manutenção é diária, inclusive aos domingos,
mesmo aqueles chuvosos em que o vigilante resistia em se deslocar de casa para
a garagem.

A vida de jardineiro não fez com que
Regis abandonasse a posição de vigia. As plantas não tomam os dois períodos de
“trabalho”. Ser jardineiro virou acúmulo de função não-remunerada. Ele se
queixa? Pintar um pedaço do bairro de verde natural não apenas traçou uma nova
relação com o tempo como também incluiu mais um assunto na pauta diária do
homem-referência.

Para a esposa, antes resignada com a
“paradeza” do marido, as flores brotaram no concreto do canteiro para redesenhar
o relacionamento. A TV continua ligada depois das 22 horas, desta vez com duas
pessoas no sofá.


Contato: [email protected]

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www.conversasedistracoes.blogspot.com

 

Da Redação
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