Ponto de vista
O jardineiro
é um velho amigo. Ou um amigo velho. A inversão dá sempre no mesmo porque
delimita a idade, seja do sujeito, seja da amizade. Embora goste muito dele,
nunca tive o direito e a coragem de alertá-lo. A vida dele é uma paradeza,
como diriam meus parentes mineiros.
Regis se aposentou e, até o final do
ano passado, ocupava seu tempo com o próprio controle do tempo. Dos outros.
Passava horas na garagem do prédio onde reside, lugar em que serve de
referência. Era balcão de informações, centro de fofocas, controle de entrada e
saída de carros, moradores e visitantes. Tudo permeado por comentários
meteorológicos.
A eficiência era tamanha que deixava o
posto apenas para comer, dormir e ver TV, esta última tarefa depois das 22
horas. Permanecer no posto informal de vigilância e conversar com os vizinhos
aguçaram a percepção dele para um problema das redondezas. Regis se incomodava
com a transformação do canteiro central da avenida onde mora, a Pedro Lessa, em
depósito de lixo.
Nem os caminhões de coleta e os suportes
de metal davam conta de tanta tranqueira. Além dos sacos pretos convencionais,
o canteiro abrigava pedaços de cadeiras, restos de sofás, sapatos furados, brinquedos
abandonados, entre outras quinquilharias.
Regis olhou para os pequenos montes
de entulho, colaboração de moradores e comerciantes, e decidiu que precisava
fincar bandeira naquele território antes que fosse tomado pelos invasores
porcalhões. Era o ponto de virada em um roteiro linear e aborrecido de vida.
Como a maioria dos aposentados,
Regis teria que trabalhar novamente. Como a minoria dos aposentados ativos (a
contradição trabalhista em si), descobriu uma nova vocação e prazer.
Ele se tornou o jardineiro e
guardião de um trecho de
metros
cinza ganhou tons de verde. Regis começou com pequenos vasos de plantas. A tática
era de guerrilha: ocupar o espaço antes que o inimigo o fizesse.
O passo seguinte foi convencer a
vizinhança, residente em casas e prédios de três andares, a doar plantas para
aumentar a zona verde. Aproveitava até o armamento adversário. Pedaços de
madeira ganharam novo uso quando compunham o cercado que protegia as plantas. Restos
de metais viraram cordas para garantir a firmeza da proteção.
O hobby agora é expediente.
Comerciantes das redondezas doam materiais. Moradores e visitantes comentam a
mudança de visual. Regis foi promovido e levou de presente a responsabilidade
proporcional ao novo cargo. A manutenção é diária, inclusive aos domingos,
mesmo aqueles chuvosos em que o vigilante resistia em se deslocar de casa para
a garagem.
A vida de jardineiro não fez com que
Regis abandonasse a posição de vigia. As plantas não tomam os dois períodos de
trabalho. Ser jardineiro virou acúmulo de função não-remunerada. Ele se
queixa? Pintar um pedaço do bairro de verde natural não apenas traçou uma nova
relação com o tempo como também incluiu mais um assunto na pauta diária do
homem-referência.
Para a esposa, antes resignada com a
paradeza do marido, as flores brotaram no concreto do canteiro para redesenhar
o relacionamento. A TV continua ligada depois das 22 horas, desta vez com duas
pessoas no sofá.
Contato: [email protected]
Para acessar outros
textos do autor: www.conversasedistracoes.blogspot.com