A santa está presa | Boqnews

Ponto de vista

27 de maio de 2011

A santa está presa

A rua Santa Catarina, no José Menino,
sempre foi famosa pelas pensões. No século passado, carregava a fama de reduto
dos farofeiros. No politicamente correto, os turistas de um dia que, com seus
ônibus, lotavam várias vias em torno do Orquidário Municipal antes de ver o mar.

Hoje, a rua traz nas costas um fardo
involuntário e mais doloroso. A Santa Catarina divide com a gruta de Nossa
Senhora de Lourdes um ponto de consumo de crack. Durante o dia, o movimento de
usuários é mais discreto. É possível visitar a gruta, ainda que com relativo
temor.

Quando anoitece, a gruta é trancafiada. Uma
grade tenta separar a imagem de Nossa Senhora de Lourdes de um dos mais graves
problemas sociais de Santos. Todos os dias, de 30 a 40 pessoas se reúnem para
consumir crack e dividir o sofrimento provocado pelo que se acreditava ser a
droga mais devastadora dos centros urbanos. O vício em oito segundos.

O purgatório sempre tende a se transformar em inferno. Duas novas
(velhas) versões do crack, o Hulk (pedra de cor verde) e o Capitão América
(rosa), já circulam na Baixada Santista. O óxi, uma versão mais poderosa,
também já foi apreendido por aqui. Mais de 50 kg, segundo reportagem do
jornal A Folha de S.Paulo.

O óxi possui querosene e – em outra
variedade – gasolina na composição, além do coquetel de substâncias presentes
no crack. O efeito ainda não pode ser mensurado, mas se imagina o estrago no
organismo. Na cracolândia, em
São Paulo, um usuário disse ter perdido 15 quilos em um mês.

A concentração de usuários na rua Santa
Catarina é um cenário conhecido por todos. O problema reside na forma como se
trata a questão. O Estado insiste em confundir – por conveniência? – tráfico
com consumo. O traficante é caso de polícia. O usuário, de saúde pública.

A permanência das pessoas no local indica a
esterilidade das ações públicas. Não basta retirar os viciados da rua Santa
Catarina. Serão colocados aonde? Sem mencionar a violência física eventual, até
porque “homens da lei” não pedem por favor, caro cidadão. É redundante dizer
que, cientes dos riscos e reféns da droga, os usuários retornam ao José Menino
no dia seguinte.

Separar quatro leitos, no Hospital da Zona
Noroeste, como anunciou a Prefeitura para o próximo semestre, é esconder o
esqueleto no armário. O número de vítimas é muito maior. Internar sem tratamento
de longo prazo pode adiar a retomada do vício ou somente esconder o “desvio”
dos olhos de todos.

Quando se confunde segurança com saúde
pública, fica cristalina a perspectiva – com a concordância de parte da
sociedade – de que os usuários de crack são responsáveis por tudo o que fazem.
Não necessariamente! É uma doença não apenas biológica, mas também social, que
altera valores e comportamentos individuais. Os mais radicais, no alto da ignorância,
creditam ao viciado a consciência voluntária do vício. Estar lá, na sarjeta,
nesta visão, seria um desejo, uma vontade, quase um prazer.  

As duas santas não dão conta de proteger o
cenário em que vivem hoje. Não há milagre, promessa ou oração capaz de
modificar a vida dos usuários. É uma questão de fé, mas na decência de quem
gerencia a cidade, pessoas que insistem em combater um doença terminal com os
remédios errados. Em doses exageradas, o medicamento é o veneno que eleva a
dor, quando não provoca a morte, sem poesia, crua e anônima.

Contato: [email protected]

Para
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(sobre educação)

Da Redação
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