Ponto de vista
Meninos quietos
Oásis na floresta de
concreto e ferro, o Jardim Botânico Chico Mendes é o lugar ideal para conversar
com a arte-educadora Selma Maria. Ambos transmitem paz de espírito, são
introspectivos e adeptos do silêncio como resistência à velocidade do mundo
moderno.
Selma e o Jardim Botânico
haviam acabado de se ver, quando sentamos em um dos bancos de madeira, em meio
às árvores, para conversar. Seria exagero e certa cafonice afirmar que
houve amor à primeira vista entre a educadora e o espaço onde trabalharia
naquela tarde nublada e fria, mas apostaria na identificação mútua a partir do
olhar contemplativo e da busca pela quietude para a reflexão sobre os seres,
vivos ou não, que os cercam.
Selma tem 45 anos e três filhos.
É, acima de tudo, uma menina quieta. Vive para brincar. Vive de brincar. Não
compra seus brinquedos. Prefere fazê-los. Poucas vezes sozinha. No Jardim
Botânico, montou cata-ventos de papelão e espeto de madeira (aqueles de
churrasco) com 20 pessoas, crianças de sete a 85 anos.
Quando compra brinquedos,
Selma Maria vai buscá-los longe. Não se incomoda em viajar mil quilômetros.
Perdeu as contas de quantas vezes foi para a estrada, até o sertão de Minas
Gerais, para seguir os rastros das palavras de Guimarães Rosa.
No sertão, a compra de um
brinquedo é negócio único. Único exemplar. Único vendedor. Horas de boa
conversa, que podem estar acompanhadas de comida e muitas testemunhas, todas
dispostas a dividir as histórias vividas e contadas por um dos maiores
escritores brasileiros.
As andanças de Selma Maria a
tornaram conhecida. Trouxe mais de 200 brinquedos para a vida urbana, virtual e
eletrônica das crianças. As viagens resultaram em exposição e livros
publicados. Um deles se chama Um Pequeno Tratado de Brinquedos para Meninos
Quietos, conjunto de prosa e poesia sobre os brinquedos feitos à mão, com o
que estiver disponível.
Selma Maria foi ao Jardim
Botânico, lugar desconhecido, para despertar nas crianças esqueça a faixa
etária, leitor a chance de manter contato com elas mesmas. Com voz serena e
firmeza nos argumentos, Selma defende que o faz-de-conta nunca se perde, até
porque o adulto o cultua, sem perceber.
Construir o próprio
brinquedo, para quem convive com crianças, além de estudar a cultura delas, é a
reação à gororoba de informações disponíveis no mundo eletrônico. O
computador não se constitui no inimigo, e sim o que fazemos com ele, traduzido
na falta de convite dos adultos para conhecer o mundo que ultrapassa os muros
do universo eletrônico.
Qual criança trocaria um
passeio por horas na frente da TV? O corpo dela é um brinquedo. O que fazer com
esta explosão de energia?
Selma Maria levou tão a sério
a relação com os brinquedos artesanais e as histórias por trás de cada peça que
passará a viver com eles. A arte-educadora alterou a própria casa em Cotia, uma
série de cômodos em formato de iglu (obra do sogro professor Pardal), para
abrigar brinquedos.
Ao se levantar do banco de
madeira, ela indicava o Jardim Botânico como metáfora da relação entre crianças
e brinquedos. A vida é a mistura. As puras misturas. Metáfora confirmada nos
olhos brilhantes e nas vozes sem fôlego das crianças que retornavam das
alamedas do parque. Nas mãos delas, gravetos, folhas e objetos de plástico,
talvez lixo para os cegos da infância adormecida. Em dez minutos, a metamorfose
em bonecas e soldados e a quietude da viagem para dentro de si, em meninos e
meninas.
Contato:
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Outros
textos do autor: www.conversasedistracoes.blogspot.com
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(textos
sobre educação)