Ponto de vista
Desafios do assistencialismo
Embalado pela popularidade ampliada pelo programas de transferência de renda adotados em razão da necessidade criada pelo período de excepcionalidade motivado pela pandemia de coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro demonstra agora o firme propósito de abandonar de vez a agenda liberal defendida na campanha eleitoral assumindo plenamente um caráter populista para seu Governo, entendendo assim ser uma estratégia capaz de o reconduzir a um novo mandato.
O entusiasmo do presidente com o sucesso dos projetos assistencialistas fica evidenciado a partir do estudo publicado esta semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), revelando que cerca de 4,4 milhões (6,5%) de domicílios brasileiros sobreviveram, em julho, apenas com a renda do auxílio emergencial pago pelo Governo Federal.
Entre os domicílios mais pobres, os rendimentos atingiram 124% do que seriam com as rendas habituais. Ainda segundo o Instituto, a ajuda financeira também foi suficiente para superar em 16% a perda da massa salarial entre as pessoas que permaneceram ocupadas.
A ampliação e manutenção dos modelos adotados para transferência de renda, mesmo que reconhecida sua importância e relevância para grande parte da população brasileira, impõe grande desafio à equipe econômica comandada pelo ministro Paulo Guedes, que terá que produzir receitas extras em um orçamento limitado pelo teto de gastos e pela Lei de Responsabilidade Fiscal.
Nesse sentido, mais do nunca, torna-se imprescindível o desenvolvimento de um projeto econômico que estabelece metas de desenvolvimento sustentáveis, prevendo a substituição gradativa das políticas assistencialistas por oportunidades de empregos formais.
Da mesma forma, o momento requer do Governo coragem para dar sequência às propaladas propostas de reforma tributária e, sobretudo, administrativa, com a diminuição dos impostos cobrados das atividades produtivas e a redução de custos da máquina pública, especialmente com o fim das benesses que tem beneficiado privilegiados do setor público, insensíveis à realidade econômica brasileira.
Mais do que perpetuar ações paliativas, o País carece de diretrizes consistentes para alcançar a prosperidade almejada por todos, e não ações popularescas de curto prazo que, ao contrário do que se pensa, não asseguram o reconhecimento nas urnas.