Golpe? Sociedade diz não | Boqnews

Ponto de vista

19 de agosto de 2022

Golpe? Sociedade diz não

Abro este texto sob as primeiras impressões do evento no salão nobre da Faculdade de Direito da USP, no Largo de São Francisco, onde o ex-ministro da Justiça, José Carlos Dias, leu, no último dia 11, quinta, por volta das 11 horas, a Carta em Defesa da Democracia, após discursos de representantes de entidades da sociedade civil.

A inferência mais abrangente é a de que, se havia alguma articulação sub-reptícia para golpear, dia 7 de setembro próximo, a ordem democrática, foi sustada pelo mais incisivo movimento empreendido pela sociedade brasileira nos últimos tempos.

A Carta foi um eloquente discurso em prol do sistema democrático e, mais que isso, um vistoso sinal da nossa democracia participativa.

A comunidade levanta a mão e avisa: não toleraremos qualquer desvio autoritário no regime. Iremos às ruas, se for o caso. Viu-se intensa mobilização, comparável em simbolismo ao famoso Comício das Diretas – Já, realizado em 16 de abril de 1984, o último e o maior comício em favor das eleições diretas, que reuniu 1,5 milhão de pessoas no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo.

A projeção que se faz oportuna é de que a corrente em defesa da democracia tende a crescer, face à imagem de pedra jogada no meio da lagoa, que a leitura da Carta nos transmite.

Essa percepção se acentua ante a análise dos organizadores e assinantes do documento, que beiram 900 mil pessoas, de segmentos profissionais variados, e originários do meio da pirâmide social.

A recorrente comparação que ancora os argumentos deste analista é: as classes médias exercem o poder de irradiar seu pensamento, a partir do meio da lagoa até as margens.

Esse poder é alavancado pela integração das mídias na divulgação do movimento. Desse modo, é bem provável que a defesa da democracia ganhe mais apoios do que a tese do fechamento do regime, e consequente instalação de mecanismos autoritários.

A comunidade nacional, por sua vez, age como a panela de pressão. A fervura precisa que a panela tenha um buraquinho para deixar vazar o ar quente, sob risco de explosão.

Os movimentos sociais, as manifestações de ruas, aplausos e urras são o vapor que, ao vazar, deixa o sistema em equilíbrio. O perigo é de ruptura no processo, com forte corrosão social.

O fato é que a comunidade utiliza meios para se exprimir. Exemplos são seus representantes nas Câmaras de Vereadores, nas Assembleias Legislativas nos Estados, na Câmara Federal e no Senado.

Quando esses mecanismos não agem a contento ou quando, mesmo sob sua ação, os Poderes Executivos (federal, estadual e municipal) não atendem ao clamor social, a população reage.

É quando a democracia participativa entra na arena de guerra. Esse sistema também conta com o plebiscito, o referendo e o projeto de lei de iniciativa popular.

Mas, em momentos de crise, como o que estamos vivendo, e sob um ambiente eleitoral polarizado, a sociedade escolhe a ferramenta do aviso direto: a movimentação de rua.

No Brasil, a organicidade social é um dos mais interessantes fenômenos da contemporaneidade. Significa que as massas d’outrora estão dando lugar a grupos, setores, núcleos, alas, que passam a agir em defesa de seus interesses.

A isso chamo de poder centrípeto, que vem das margens e vai até os centros, os poderes constituídos. Essa força centrípeta, de lá para cá, é o novo desenho dos poderes da Nação. E quem quiser ter sucesso na política, não pode desprezar tal sinalização.

O Brasil, mesmo que se reconheça a prevalência de padrões tradicionais – o grupismo, o mandonismo – caminha, a passos lentos, porém, graduais, na direção da esfera racional.

Que tem na autonomia um dos seus motores. Autonomia quer significar capacidade de o cidadão decidir, sem se valer da influência de outros. Claro, a equação BO+BA+CO+CA (Bolso, Barriga, Coração, Cabeça) poderá influenciar o voto. Devemos reconhecer: já teve mais força no passado.

Hoje, coisas como a Carta aos Brasileiros, harmonia social, desenvolvimento, paz, segurança, igualdade, educação, saúde, mobilidade urbana, habitação, conseguem chegar aos ouvidos do anônimo escondido na multidão.

Que eleva sua condição de cidadania e sabe distinguir trololós de compromissos sérios.

Rezemos um Pai Nosso!

Gaudêncio Torquato é jornalista, escritor, professor titular da USP e consultor político. Twitter@gaudtorquato

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