Humberto Challoub é jornalista, diretor de redação do jornal Boqnews e do Grupo Enfoque de Comunicação
Ponto de vista
Retórica fiscal fragilizada
Ao apresentar as diretrizes básicas do novo arcabouço fiscal que irá substituir as normas de teto de gastos orçamentários até então vigentes, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, demonstrou otimismo de que sua proposta receberá o aval do Congresso.
Apesar da retórica de que as medidas não irão incorrer no aumento de tributos, na prática o fim aos subsídios e a cobrança de impostos de setores favorecidos pela facilidade de sonegação vão representar o remédio amargo necessário para as pretensões do atual governo, de fazer crescer a economia com baixa inflação, justiça social e sustentabilidade.
Apesar de coerente e lógica, a retórica do ministro fica fragilizada diante da constatação de que mais esse sacrifício imposto à população não são compartilhados no âmbito governamental e demais poderes, que até agora não demonstraram qualquer disposição de cortar gastos e reduzir mordomias.
Ao contrário.
A elevação das despesas decorrentes do aumento do número de ministérios para atender aliados políticos somado aos reajustes salariais na esfera federal, se revela um paradoxo e a constatação da imensa distância que separa os interesses dos representantes políticos da sociedade brasileira.
Inoportuna pelo seu caráter oportunista e despropositado, a farra salarial colocada em curso representa total falta de sintonia com o atual momento econômico vivido no País, uma vez que implica no crescimento dos gastos em um cenário recessivo.
São muitos custos e poucos benefícios, especialmente diante do cenário preconizado para este ano.
Nesse sentido, ao invés de buscar subterfúgios para manter as benesses de poucos, seria de maior valia se o Governo, em conjunto com o Congresso, se dedicassem com maior afinco à tarefa de promover as reformas que o País tanto espera e precisa, na qual, sem dúvida, se inclui a revisão do sistema tributário e a legislação que regula a administração pública.
Mais do que nunca, o momento impõe a adoção de uma postura mais participativa da população nas decisões políticas, por meio do engajamento nas entidades de classe, conselhos comunitários e organismos civis de representação.
Cobrar mais transparência no uso dos recursos públicos e, sobretudo, fiscalizar os atos e ações dos mandatários eleitos representam, juntamente com o exercício do voto, a única fórmula realmente capaz de moralizar, de forma eficaz e perene, o atual regime vigente.
Não há mais como exigir sacrifícios dos trabalhadores e setores produtivos.
Está na hora da classe política dar o exemplo buscando o equilíbrio fiscal por meio da austeridade e maior responsabilidade no uso dos recursos públicos.
