A poesia como viagem ao inferno | Boqnews

Ponto de vista

15 de junho de 2023

A poesia como viagem ao inferno

I

Em nenhum dos poetas brasileiros, antigos ou modernos, a sombra da morte é tão presente como neste livro de estreia de Marcelo Theo (1969), Peccatum Sum (que, em latim, quer dizer “Eu sou o pecado” ou simplesmente “Eu pequei”), que acaba de ser publicado pela Editora Letra Selvagem, de Taubaté-SP.

A obra reúne poemas que foram escritos durante os anos em que o autor se assinava como Teteco dos Anjos e vivia chafurdado no vício em narcóticos e no alcoolismo, em meio a hordas de rejeitados que viviam nas ruas e vielas de tradicionais cidades da Europa, como Roma, Paris, Lisboa e Amsterdam.

Como bem observa no prefácio o poeta, ensaísta, filósofo e dramaturgo Marcelo Ariel, este livro está inserido num gênero que pode ser chamado de “brutalista” e que inclui nomes como os do romancista e contista Rubem Fonseca (1925-2020), do contista Dalton Trevisan (1925), do teatrólogo Plínio Marcos (1935-1999) e dos poetas Glauco Mattoso, pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva (1951), e Roberto Piva (1937-2010), entre outros.

Ou seja, trata-se de um gênero marcado por uma genuína transgressão da linguagem, em que não faltam palavras e, às vezes, até palavrões comuns no dia a dia de uma população marginalizada da vida social e econômica do País, afetada pela urbanização rápida das cidades provocada por uma industrialização sem medidas e avanço da ganância especulativa tanto na área urbana como em territórios indígenas. Seja como for, em seus poemas, perpassa também a sombra de poetas brasileiros clássicos como Mário de Andrade (1893-1945) e Jorge de Lima (1893-1953) e de simbolistas franceses.

Composto por três seções, o livro, em sua primeira parte, “Poemas sardos e outras envergaduras”, apresenta peças que foram esboçados na Sardenha, na Itália, em 2007, quando Marcelo Theo se apresentava em boates e inferninhos com um grupo especializado em Brazilian Jazz.

Num desses poemas, “Novos afrescos para Roma”, evoca também o tempo vivido na capital da Itália em que demonstra um pouco como é difícil a adaptação dos brasileiros aventureiros que carregam o sonho de viver e enriquecer nas terras de Dante e outros solos europeus. Eis um excerto desse poema:
(…) Roma abriga legiões de farejadores / contra Pindorama / dos filhos de Tupã / Roma não sabe o que é estar só em Roma / ela é a verruga na cara de todo mundo / não precisa de mim, nem dos meus versos / Roma não viu o sol rodopiar no horizonte / como um porco espinho de ouro / Roma recebe Bush debaixo de vaias / Ah… estou nessa com Roma / Napolitano sorri azedo / o Papa se esquiva com sua fálica aura / do deus mortificado e desencantado / Bush peida… / os afrescos da Capela Sistina percebem / santos e anjos tossem, tísicos e resignados / oh velha Roma das derivações seculares que me foderam no / Brasil / Roma vai dormir agora / calam-se anjos e demônios / Roma foi purificada pelo canto do rouxinol na aurora.

II

Na segunda parte, “Poemas avulsos”, que reúne peças escritas entre 2009 e 2013, a uma época em que o autor lutava para escapar da ilusão provocada pelo álcool e pelos narcóticos, o leitor vai encontrar um alter ego que se assemelha, em voracidade e palavreado vulgar e até obsceno, a Charles Bukowski (1920-1994), poeta, contista e romancista norte-americano nascido na Alemanha, com um estilo violento e despudorado, que pode ofender olhos e ouvidos mais pudicos.

E que deixa entrever também uma forte influência de autores ligados à Geração Beat norte-americana, como Jack Kerouac (1922-1969), Allen Ginsberg (1926-1997) e William Burroughs (1914-1997).

A par disso, constata-se mesmo uma poética surrealizante que esconde uma auto-ironia e marca a passagem pelo inferno da depressão e pelo falso paraíso suscitado pelo uso de alucinógenos. É o que se pode ver neste poema que leva por título “Demência”:
a humanidade é a coisa mais demente / que pode existir / aliás, não tenho certeza se ela pode existir / de fato / deveriam tê-la proibido disso… / creio que o universo / sensato e glorioso / a proibiu / mas, / deve ter havido / um trambique… / um embuste lá das profundezas / e cá estamos / mais fodidos que uma capivara no abismo

Já a terceira parte é formada apenas por duas longas peças, “Ab Imo Pectore” e “Um poema”, que foram escritas também entre 2009 e 2013, ano este em que o poeta começou o seu tratamento contra os narcóticos e o álcool. São poemas que marcam a saída do poeta do inferno apocalíptico das drogas, como se lê neste excerto de “Um poema” (2013):
“(…) eu não ando pela rua óbvia e comum / vou por caminhos desconhecidos, caminhos dentro da / neblina diáfana e mágica, / perigosos até, e são caminhos que me levam ao êxtase e ao / inferno, / enquanto observo o inútil e maravilhoso fluir do tempo / dentro de mim, / dentro de nós, das árvores, nuvens e animais, / caminhos que passam em torno e por dentro das estrelas / e se espalham por todo o infinito”.

São dois “poemas épicos, sem cronologia, nem lugares específicos”, como diz o autor numa espécie de preâmbulo, ao acrescentar que neles procurou misturar realidade e fantasia, mas deixando claro que não são “surreais” ou “dadaístas”, ou ainda sem nexo. Eis um excerto de “Ab Imo Pectore”, que em latim significa “Do fundo do meu coração”:
“(…) eu nunca estou em um local fácil ou seguro / procurem-me entre o que arde / entre bocas que gritam e guindastes abandonados / atrás dos holofotes, entre os insetos que se matam na luz / nos antigos armazéns delegados ao tempo / nas histórias de guerras e grandes batalhas / mas também nas fábulas carinhosas e divertidas / nos jardins coloridos que esbanjam vida e crianças serelepes / nos hologramas de um futuro feliz e propício / que a mente projeta no infinito, ah, devo estar por lá também e aqui (…).

III

Foto: Eduardo Lazzarini

Nascido na cidade de Taubaté-SP, em família de classe média abastada, Marcelo Theo, quando completou dez anos de idade, começou a estudar música, especialmente violão e piano, com a musicista, compositora, poeta, diretora musical e artista plástica Geny Marcondes (1916-2011), que, ao mesmo tempo, passou a lhe indicar obras da literatura nacional bem como de poetas simbolistas franceses e obras clássicas das literaturas russa e inglesa, além dos escritores da chamada Geração Beat norte-americana, que sacudiu os alicerces literários dos Estados Unidos, a partir da década de 1950.

Como reconhece o poeta, esses autores acabaram por lhe atrair pela linguagem coloquial que utilizavam. Autodidata, passou a conhecer desde cedo não só os grandes autores da literatura mundial, como também da filosofia clássica e da filosofia mística oriental, sem deixar de percorrer as obras fundamentais da História do Brasil e do mundo.
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Pecatum Sum, de Marcelo Theo, com prefácio de Marcelo Ariel. Taubaté-SP: Editora Letra Selvagem, 216 págs., R$ 65,00, 2022. Site: www.letraselvagem.com.br E-mails: [email protected] [email protected]

 

Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012), Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), O Reino a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: [email protected]

 

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