André Barretto, inspirado em grandes mestres      | Boqnews

Ponto de vista

21 de junho de 2023

 André Barretto, inspirado em grandes mestres     

I

O escritor André Barretto (1979) chega ao seu segundo livro, Uma pedra na janela do tempo (São Paulo, Editora Patuá, 2022), e já se mostra um contista de futuro, deixando claro que é um leitor ávido e percuciente, que se tem inspirado em verdadeiros mestres do conto e da arte literária.

Sua estreia, porém, deu-se com Cegueira sem ensaio (edição independente e e-book, 2017), livro-reportagem sobre pessoas que perderam a visão e seus processos de reabilitação.

Nesta obra de estreia, ele traça um mosaico contando as histórias de 12 pessoas que perderam a visão, mas reconstruíram suas vidas e descobriram formas de se reabilitar.

Para tanto, construiu sua narrativa valendo-se de técnicas de jornalismo literário e da metodologia da Jornada do herói, método para criar uma storytelling, modelo apresentado em 1949 por Joseph Campbell (1904-1987), em seu livro O herói de mil faces.

Já em seu novo livro, buscou inspiração em grandes autores como Jorge Luís Borges (1899-1986), Eduardo Galeano (1940-2015), Ítalo Calvino (1923-1985), John Cage (1912-1992), Robert Walser (1878-1956), Javier Marías (1951-2022), Lygia Fagundes Telles (1918-2022), Sérgio Sant´Anna (1941-2020), Ruth Guimarães (1920-2014) e Lucia Berlin (1936-2004), além do jovem escritor carioca Geovani Martins (1991) e do pianista Arthur Rubinstein (1887-1982). Dessa forma, procurou transitar por vozes narrativas, estilos e formatos diferentes, como observou na apresentação que escreveu para sua própria obra.

O conto que abre o livro, uma homenagem a Jorge Luís Borges, trata de um encontro imaginário com o grande escritor argentino, mas “um Borges remoçado, que ainda não tem as rugas nas beiras dos olhos nem a cegueira dentro deles”, e que, depois de um breve diálogo, ensina o autor a “escrever centenas de metáforas da lua, do tempo fluindo como água; o uso apropriado do paradoxo eleático; versos livres, redondilhas menores e maiores, decassílabos, alexandrinos, versos bárbaros e prosa, a forma mais difícil de poesia”.

II

Como se vê, a imaginação do contista vai longe e repete-se no conto inspirado no escritor suíço de língua alemã Robert Walser, admirado por autores como Franz Kafka (1883-1924) e Enrique Vila-Matas (1948), entre outros. Só que, desta vez, é o alter ego do autor quem recebe a visita do poeta famoso: “(…) ele é como os personagens de seus textos: um tipo singular, nada fácil e translúcido”.

Dispensando prefácios ou posfácios escritos por algum luminar da Literatura, o autor faz sua própria apresentação em que descreve a essência de cada um dos doze contos que compõem o livro.

Imaginada durante a época da pandemia de coronavírus (covid-19), que durou de 2020 a 2022, a obra reúne contos com histórias de personagens que, em meio a situações de conflito, sentem a impotência em relação à violência e procuram resistir aos desafios da vida.

“Em tempos de confinamento e ódio disseminado nas redes sociais, me voltei para os livros e mergulhei no universo de outros autores; transitei por vozes narrativas, estilos, formatos; caminhei por Montevidéu, Turim, Chicago, Nova York e pelas ruas vazias do Rio de Janeiro; conheci obras de arte e criei realidade aumentada; persegui e fui perseguido; abracei, agredi, sonhei, me despedi; e aprendi que contar histórias é vivê-las”, reconhece Barretto.

No conto “Calvino”, por exemplo, o personagem Amarildo conversa com uma cor num museu, enquanto em “Marías”, inspirado no espanhol Javier Marías, o personagem Raul revela as pistas do que pode ter sido um crime brutal. Já no conto “Telles”, inspirado na premiada romancista e contista brasileira Lygia Fagundes Telles, ex-membro da Academia Brasileira de Letras e Prêmio Camões de 2005, imaginou vidas possíveis para seus três irmãos, Andréia, Ana Paula e Adriano, o mais novo, “irmãos que viveram tão pouco”.

Com uma prosa que se mostra inovadora, em que procura adaptar o estilo ao tema escolhido, conclui o livro com um conto-posfácio em que o homenageado é o compositor norte-americano John Cage.  Enfim, ao repetir uma frase do poeta e romancista francês Jean Cocteau (1889-1963) no texto de apresentação, Barretto resume a essência de sua obra de estreia como contista: “O poder mágico das palavras agrupadas faz com que eu possa conversar com um escritor de qualquer época”.

E mais importante: “se o conto se baseia na captação do fragmentário, porque é uma radiografia de um aspecto parcial da realidade, o reconhecimento de um detalhe que pode ser revelador”, como observa o professor de Literatura, doutor em Filologia, escritor e crítico literário espanhol José Luis Martín Nogales (1955) em Actas de la Universidad Nacional de Educación a Distancia (UNED), de Madri (2001, p. 43), os textos de André Barretto preenchem todos os requisitos fundamentais do gênero, ainda que exibam aspectos inovadores que, ao mesmo tempo, contribuem para ampliar a variedade temática e estilística que se constata em alguns autores mais jovens.

III

André Barretto Santos Boaretto, nascido em Campinas-SP, formado em Administração Pública e Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (PUC), de Campinas, depois de dez anos atuando como empreendedor, planejou a transição para a carreira de escritor. Motivado por seu sonho, dedica-se agora totalmente à escrita. Com o livro Cegueira sem ensaio, participou da Bienal de Livros do Sul de Minas (Flipoços), em Poços de Caldas, da Feira do Livro de Resende-RJ (FLIR) e da Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Reside em Campinas com a mulher Leticia e o filho Dante.

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Uma pedra na janela do tempo, de André Barretto.  São Paulo-SP: Editora Patuá,  200 págs., R$ 49,90, 2022. Site: www.editorapatua.com.br E-mail: [email protected]

 

Adelto Gonçalves é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Fernando Pessoa: a Voz de Deus (Santos, Editora da Unisanta, 1997); Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003, São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo – Imesp, 2021), Tomás Antônio Gonzaga (Imesp/Academia Brasileira de Letras, 2012),  Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imesp, 2015), Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981; Taubaté-SP, Letra Selvagem, 2015), O Reino a Colônia e o Poder: o governo Lorena na capitania de São Paulo – 1788-1797 (Imesp, 2019), entre outros. E-mail: [email protected]

 

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