Porcos e utopia | Boqnews

Ponto de vista

11 de julho de 2024

Porcos e utopia

Que maravilha seria se todos fossem iguais em direitos e deveres, e que estes fossem estabelecidos de forma justa e consensual!
Não haveria mais discriminação de qualquer espécie, pois todos seriam iguais perante a lei, até para serem diferentes.
De fato, somos todos diferentes de múltiplas formas, por mais que uns queiram rotular os outros ou tentem reproduzir seres humanos em série, como os “replicantes” de “Blade Runner” (EUA, 1982); ou apenas um, especificamente, como sugerido na obra de Ira Levin “The Boys from Brazil”, que virou filme, em 1978.
A diferença é que os primeiros foram criados para serem servos, enquanto os últimos foram concebidos e educados para serem líderes, a partir de material genético e formação de Hitler.
A igualdade talvez seja a maior utopia da humanidade, tão indefinível e imaginária quando sua irmã gêmea: a liberdade. Sem as duas, o que dizer da fraternidade?
Muitos a teorizaram e até perderam a cabeça em seu nome, por ameaçarem o poder secular ou “divino” de tiranos e déspotas, esclarecidos ou não, donos do poder de suas épocas.
Que o diga Thomas More, que também não foi nenhum santo.
George Orwell fez brilhante abordagem sobre a igualdade imposta sob supervisão “superior” em seu “1984”, de 1949, metáfora que serve para ditaduras de esquerda ou direita.
No entanto, antes disso, em 1945, seu “A Revolução dos Bichos” já sintetizara a máxima da “democracia hipócrita” adotada por vários líderes atuais: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”.
Na época, Orwell não sabia que o genoma de símios e suínos era parecido com o do ser humano.
No entanto, escolheu os porcos para serem os líderes oportunistas de uma igualdade controlada, conquistada e mantida pela submissão dos menos esclarecidos e pela perseguição e até eliminação dos que ameaçassem seu domínio.
Aliás, eles só ganharam protagonismo quando a igualdade inicial foi alcançada, pela força da união e do bem comum.
A libertação do jugo dos humanos tornara os animais livres e iguais em direitos!
No entanto, a igualdade e a liberdade que lhes deu condição de evoluir, fez com que alguns resolvessem que, por inteligência maldosa, eloquência, violência física ou psicológica teriam o direito de liderar os demais em benefício próprio, eternizando-se no poder: nova escravidão!
Perfeita simbiose das dominações descritas por Max Weber: carismática (que permitiu a ascensão ao poder, o estabelecimento do “culto à personalidade”, a inquestionabilidade de suas ordens e desígnios), legal (que lhes deu legitimidade) e tradicional (na intencionalidade de manter o poder restrito a um único grupo: uma nova casta em meio à “igualdade”).
Será que quem tem “O Príncipe”, de Machiavel, e “A Arte da Guerra”, de Sun Tzu, como livros de cabeceira se enxergaria, em suas verdadeiras intenções, em “A Revolução dos Bichos”?
Creio que não. E isso vale até para alguns que brandem livros sagrados para pregar a igualdade dos seres humanos, mas se querem líderes espirituais, juízes insofismáveis, “donos da verdade”.
Para estes, a igualdade não é para todos, mas apenas para os liderados, que têm somente o sagrado “direito” de obedecê-los e segui-los, como única alternativa ao “fogo do inferno”.
Quantos políticos e religiosos pregam a igualdade, porém, divinizam a si próprios, tornando-se ídolos de seguidores fanatizados?
Quantos não fazem o que querem e bem entendem na obscuridade ou mesmo à luz do dia, mas condenam, execram e expulsam publicamente quem ameaça sua autoridade de “mais iguais que os outros”?
Crescente e insaciável alcateia, cuidando de ovelhas cada vez mais alienadas e oprimidas, em verdade são vara que chafurda na corrupção e na espoliação de inocentes, criando ou interpretando leis a seu bel prazer, usando a discriminação como meio de submissão servil.
A igualdade, para eles, não passa de um discurso alienante ou de uma promessa futura, onerosa, pródiga de deveres e restrições que tolhem o discernimento e o livre-arbítrio.
Que os porcos me perdoem, pois não merecem essa comparação!
As pérolas da democracia e do respeito ao próximo estariam melhores em suas mãos.
Adilson Luiz Gonçalves é escritor, engenheiro, pesquisador universitário e membro da Academia Santista de Letras
Adilson Luiz Gonçalves
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