Do dicionário Houaiss, intolerância significa "tendência a não suportar ou condenar o que desagrada nas opiniões e atitudes". Na prática, explicar a intolerância é mais complexo: vai além do sentimento e é necessário entender aspectos da História.
No Brasil, a situação não é diferente. "Existe um aspecto polar quando falamos de intolerância. Ao mesmo tempo que o País é tido como uma nação acolhedora, não é indício de aceitação das diferenças", aponta a historiadora e coordenadora do Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e dos Conflitos (Diversitas) da USP, Zilda Grícoli Iokoi. Em diversos setores como gênero, raça, etnia, religião e regionalidades (veja no quadro ao lado dados e indicadores) são encontradas manifestações de não-aceitação da diversidade. Afinal: por que mesmo com a implantação de políticas públicas de inserção social ainda persiste a intolerância?
Para a psicanalista Betty Fuks, especializada no assunto, a intolerância é um dado da estrutura do ser humano. "Em princípio, a intolerância designa o horror ao que é diferente ao desconhecido, ao que não se pode controlar seja em si mesmo ou ao que vem de fora. Aprendemos pouco a pouco a controlar a intolerância ao outro".
Xenofobia
Também judia, a psicanalista explica um dos grandes incidentes históricos de intolerância humana - o antissemitismo, que gerou o temível Holocausto, matando milhões de judeus e etnias não-caucasianas durante a Segunda Guerra Mundial. Isso exemplifica a problemática da intolerância como arma política e ideológica.
"Freud [pai da Psicanálise] estava atento à ascensão do Nazismo. Suas quatro irmãs foram mortas nos campos de extermínio. O poder o político também produzem intolerâncias e as explora". De acordo com a especialista, o ser humano tende a projetar no outro exatamente aquilo que não se admite nele mesmo. "Essa é a razão maior da xenofobia.", explica.
Na modernidade, os Estados passaram a explorar o fundo de intolerância preexistente em qualquer cidadão. O século XX foi testemunho disso.
"O totalitarismo explorou o horror ao estrangeiro como garantia de poder. Judeus, homossexuais, ciganos, deficientes intelectuais, enfim, todos aqueles que não pertenciam à raça pura foram exterminados por conta da crença na identidade alemã", analisa. "O Nacional Socialismo Alemão se apoiou nas crenças populares de desconfiança em relação ao judeu, ao homossexual aos ciganos ao mal das ideias comunistas que o nazismo veiculava e se uniu a ele para atingir o objetivo de transformá-los em inimigos comuns ao Estado".
Na atualidade
A história também desenha um legado de exemplos de intolerância no Brasil. A começar no campo de xenofobia e regionalismos (processo migratório). "Os primeiros imigrantes estrangeiros trabalharam em funções pouco qualificadas, como operários em geral. Em contrapartida, a ida dos nordestinos ao Sudeste e Sul do País, em especial São Paulo, foi uma estratégia dos capitalistas para gradativamente mudar o perfil da classe operária na época - anarquista, muitos oriundos da Itália", analisa a historiadora Zilda Yokoi. "Foram levados, na ocasião, 2 milhões de nordestinos a São Paulo entre 1940 e 1950".
O movimento neonazista, ainda que pouco relevante no ambiente político, possui surpreendentes dados no Brasil: a antropóloga da Unicamp, Adriana Dias, estuda o assunto há exatos 11 anos e constatou que 150 mil brasileiros baixam arquivos pela Internet ligados ao assunto. Número esse considerado pela própria especialista como "assustador".
"É preciso mergulharmos numa reflexão mais ampla", defende a historiadora Zilda Iokoi. "Acima de tudo, temos a necessidade de criar uma dinâmica de acolhimento para a sociedade."
Para ela, em especial, o brasileiro deve saber como e quando fazer da escolha da diversidade para poder conviver melhor.
"Um fator bastante interessante que constatamos na nossa sociedade é o fato de conseguirmos implementar uma cultura alimentar plena, variada, misturada, dificilmente vista em outro país", indica. "A gente precisa migrar isso para as relações sociais", conclui.
Diversitas
Outrora conhecido por Laboratório de Estudos sobre a Introlerância (LEI), o núcleo de estudos sobre o assunto se encontra na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH) e faz um trabalho de documentação de dossiês e pesquisas sobre intolerância em parceria com a Pastoral do Imigrante. Informações no site http://diversitas.fflch.usp.br/
Do dicionário Houaiss, intolerância significa “tendência a não suportar ou condenar o que desagrada nas opiniões e atitudes”. Na prática, explicar a intolerância é mais complexo: vai além do sentimento e é necessário entender aspectos da História.
No Brasil, a situação não é diferente. “Existe um aspecto polar quando falamos de intolerância. Ao mesmo tempo que o País é tido como uma nação acolhedora, não é indício de aceitação das diferenças”, aponta a historiadora e coordenadora do Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e dos Conflitos (Diversitas) da USP, Zilda Grícoli Iokoi. Em diversos setores como gênero, raça, etnia, religião e regionalidades (veja no quadro ao lado dados e indicadores) são encontradas manifestações de não-aceitação da diversidade. Afinal: por que mesmo com a implantação de políticas públicas de inserção social ainda persiste a intolerância?
Para a psicanalista Betty Fuks, especializada no assunto, a intolerância é um dado da estrutura do ser humano. “Em princípio, a intolerância designa o horror ao que é diferente ao desconhecido, ao que não se pode controlar seja em si mesmo ou ao que vem de fora. Aprendemos pouco a pouco a controlar a intolerância ao outro”.
Xenofobia
Também judia, a psicanalista explica um dos grandes incidentes históricos de intolerância humana – o antissemitismo, que gerou o temível Holocausto, matando milhões de judeus e etnias não-caucasianas durante a Segunda Guerra Mundial. Isso exemplifica a problemática da intolerância como arma política e ideológica.
“Freud [pai da Psicanálise] estava atento à ascensão do Nazismo. Suas quatro irmãs foram mortas nos campos de extermínio. O poder o político também produzem intolerâncias e as explora”. De acordo com a especialista, o ser humano tende a projetar no outro exatamente aquilo que não se admite nele mesmo. “Essa é a razão maior da xenofobia.”, explica.
Na modernidade, os Estados passaram a explorar o fundo de intolerância preexistente em qualquer cidadão. O século XX foi testemunho disso.
“O totalitarismo explorou o horror ao estrangeiro como garantia de poder. Judeus, homossexuais, ciganos, deficientes intelectuais, enfim, todos aqueles que não pertenciam à raça pura foram exterminados por conta da crença na identidade alemã”, analisa. “O Nacional Socialismo Alemão se apoiou nas crenças populares de desconfiança em relação ao judeu, ao homossexual aos ciganos ao mal das ideias comunistas que o nazismo veiculava e se uniu a ele para atingir o objetivo de transformá-los em inimigos comuns ao Estado”.
Na atualidade
A história também desenha um legado de exemplos de intolerância no Brasil. A começar no campo de xenofobia e regionalismos (processo migratório). “Os primeiros imigrantes estrangeiros trabalharam em funções pouco qualificadas, como operários em geral. Em contrapartida, a ida dos nordestinos ao Sudeste e Sul do País, em especial São Paulo, foi uma estratégia dos capitalistas para gradativamente mudar o perfil da classe operária na época – anarquista, muitos oriundos da Itália”, analisa a historiadora Zilda Yokoi. “Foram levados, na ocasião, 2 milhões de nordestinos a São Paulo entre 1940 e 1950”.
O movimento neonazista, ainda que pouco relevante no ambiente político, possui surpreendentes dados no Brasil: a antropóloga da Unicamp, Adriana Dias, estuda o assunto há exatos 11 anos e constatou que 150 mil brasileiros baixam arquivos pela Internet ligados ao assunto. Número esse considerado pela própria especialista como “assustador”.
“É preciso mergulharmos numa reflexão mais ampla”, defende a historiadora Zilda Iokoi. “Acima de tudo, temos a necessidade de criar uma dinâmica de acolhimento para a sociedade.”
Para ela, em especial, o brasileiro deve saber como e quando fazer da escolha da diversidade para poder conviver melhor.
“Um fator bastante interessante que constatamos na nossa sociedade é o fato de conseguirmos implementar uma cultura alimentar plena, variada, misturada, dificilmente vista em outro país”, indica. “A gente precisa migrar isso para as relações sociais”, conclui.
Diversitas
Outrora conhecido por Laboratório de Estudos sobre a Introlerância (LEI), o núcleo de estudos sobre o assunto se encontra na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH) e faz um trabalho de documentação de dossiês e pesquisas sobre intolerância em parceria com a Pastoral do Imigrante. Informações no site http://diversitas.fflch.usp.br/