Manguezais: entre a lama e o infinito | Boqnews

Ponto de vista

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
30 de julho de 2025

Manguezais: entre a lama e o infinito

No avesso da paisagem, onde a cidade termina em promessas de concreto, respira quase invisível o ventre dos manguezais.

Poucos lhe prestam escuta. Mas toda vez que provamos o sal de um peixe, o frescor de um camarão, ou buscamos paz diante do mar, atravessamos, sem saber, o território secreto dessas raízes que dialogam com o tempo.

Aqui, reina um tempo sem relógio. O mangue não se apressa; deixa-se moldar pela maré. Sua desordem é treino de engenho, um caos que organiza a ancestralidade das espécies.

Três irmãs são as colunas desse templo: o mangue-vermelho, que finca a lama com raízes-ponte, segurando o solo como quem segura um filho que teima escapar; o mangue-branco, sereno, filtrando com rigor o sal da existência; e o mangue-siriúba, obstinado, erguendo caniços ao céu, busca por ar onde respirar é quase um milagre.

São árvores, sim, mas, sobretudo, são abrigo, arquitetura, dança.

São a orquestra invisível de onde brotam vida, alimento e continuidade para peixes errantes, caranguejos discretos, moluscos escondidos e aves visitadoras.

No mangue, o oceano aprende a ser infância e, com ele, tudo o que mais tarde crescerá e regresará para dar início ao ciclo de novo.

Paira, entretanto, uma sombra. Mais de um terço desses reinos já se dissolveu diante da ânsia cega por terras, por lucros, por promessas de progresso fugidio.

No Brasil, ainda resistem os manguezais, quase nove mil quilômetros quadrados suspensos entre lama e sal, enquanto por fora avança, sorrateira, a especulação, a poluição, o esquecimento.

Mas o mangue é também centurião, capta e sela carbono em seu leito por séculos, resfriando discretamente o fervor do planeta.

Complexo e paciente, é muralha contra as águas enfurecidas, protetor de cidades sonolentas, filtro para a própria esperança costeira.

De Bangladesh à Indonésia, do calor dos Emirados ao coração do Brasil, despontam gestos silenciosos de reparo: mudas lançadas à lama, tradições tecidas entre marés, comunidades inteiras guiadas por respeito antigo ao convívio.

Se salvar o manguezal é guardar a infância dos oceanos, talvez seja também abrigar a última chance de recomeço para todos nós.

O mangue pede pouco. Nem aluguel, nem monumento: só espaço, só escuta. Porque, talvez, quando a última raiz respirar, ainda seja tempo de regar o futuro.

 

Alessandro Lopes é arquiteto e urbanista, mestre em Direito Ambiental e professor universitário. Pesquisador em Cidades Criativas e Sustentáveis, atua como assessor técnico em políticas de zeladoria urbana. É também comentarista em rádio e TV e palestrante nas áreas de urbanismo e inovação

Alessandro Lopes
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