Transmissão de energia no Brasil: perspectivas para 2026 | Boqnews

Ponto de vista

9 de dezembro de 2025

Transmissão de energia no Brasil: perspectivas para 2026

O setor elétrico brasileiro presenciou, no final de outubro último, o único leilão de transmissão do ano – e o resultado surpreendeu pelo elevado nível de concorrência.

Todos os 7 lotes ofertados foram arrematados, totalizando R$ 5,53 bilhões em investimentos previstos e distribuídos em projetos localizados em 12 estados, do Sudeste ao Nordeste.

A disputa feroz entre cerca de 20 proponentes resultou em um deságio médio de 47,98% sobre a Receita Anual Permitida (RAP) máxima estabelecida.

Agora, as atenções do setor se voltam para as novas licitações de transmissão já no radar para 2026.

O governo federal e a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) projetam um salto nos investimentos contratados nos próximos dois anos, em grande parte impulsionados pela necessidade de integração das fontes renováveis de energia.

Nesse contexto, o MME já confirmou a realização de dois leilões de transmissão em 2026.

O primeiro está marcado para março, com lotes já definidos e em fase final de consulta pública na Aneel.

É esperado que nesse certame estejam incluídos os lotes remanescentes retirados do leilão de 2025, além de novos empreendimentos de grande porte.

O segundo leilão de 2026 está previsto para o segundo semestre, com sua lista de obras ainda sendo fechada conforme a EPE conclui estudos até o fim de 2025.

Essa divisão em dois eventos por ano reflete uma mudança estratégica: em vez de um megaleilão único anual, distribuir projetos em leilões semestrais pode diluir riscos, atrair um pool maior de investidores a cada rodada e dar mais fôlego para preparação das propostas.

Para o setor empresarial, isso traz a oportunidade de planejar capital e consórcios com antecedência, enquanto para o governo significa antecipar a contratação de infraestrutura crítica.

Neste ano, o Congresso já discutiu a Medida Provisória 1.304 – de modernização do setor elétrico que, embora esteja focada principalmente em geração e comercialização, incluiu dispositivos visando agilizar o licenciamento ambiental de obras de transmissão estratégicas – um gargalo conhecido.

Há expectativa de aprimoramento dos mecanismos de licenciamento e de coordenação federativa para linhas interestaduais, reduzindo atrasos por questões ambientais ou fundiárias.

A Aneel, por sua vez, estuda inovações no modelo de edital para os próximos certames, possivelmente incrementando as exigências de capital próprio mínimo ou reforçando a análise de viabilidade econômico-financeira das propostas de menor RAP.

Tudo isso em resposta às lições aprendidas: garantir que altos investimentos prometidos se convertam em obras no prazo.

Do ponto de vista tecnológico e de planejamento, o avanço das fontes renováveis aparece como principal vetor da expansão da transmissão.

A matriz elétrica brasileira vem passando por uma transformação: o contínuo crescimento da geração eólica, sobretudo no Nordeste, e solar fotovoltaica, cria a necessidade de novos “corredores de escoamento” de energia limpa para os grandes centros consumidores no Sudeste e Sul. Já está em construção um quarto sistema de corrente contínua (HVDC) ligando o Nordeste ao Sudeste, complementando os três existentes, que são Itaipu, Belo Monte e Madeira.

A EPE também estuda a viabilidade de novos projetos de ultra-alta tensão em HVDC para serem licitados até 2027, o que pode alterar a escala dos próximos leilões – são obras mais caras e complexas, porém capazes de transferir grandes blocos de energia a longas distâncias com menores perdas.

Espera-se, portanto, que os leilões de 2026 incluam alguns desses projetos estruturantes, possivelmente linhas de 800 kV em corrente contínua conectando polos de renováveis (no Nordeste ou no Norte) às regiões Sudeste/Centro-Oeste, reforçando a segurança energética nacional.

Paralelamente, o crescimento exponencial de geração distribuída e de novas cargas, como o aumento da frota de veículos elétricos, e a expansão dos data centers no país, também demanda reforços na rede de transmissão e subtransmissão.

O Operador Nacional do Sistema (ONS) tem alertado para eventuais saturações de rede em horários de pico de renováveis, e a resposta passa tanto por obras físicas quanto por soluções de gerenciamento de demanda e armazenamento.

Ou seja, o leilão de 2025 pode ter sido um termômetro de apetite de investidores, mas os próximos serão um termômetro da capacidade do planejamento setorial absorver tendências tecnológicas e de mercado.

Olhando adiante, as perspectivas para 2026 são ambiciosas e desafiadoras.

Os próximos leilões tendem a ser ainda maiores em investimentos, puxados pela integração de fontes renováveis em ritmo acelerado e por necessidades de reforço estrutural do SIN – Sistema Interligado Nacional.

As empresas, por sua vez, já se preparam para novos rounds de competição – possivelmente calibrando suas estratégias após as lições de 2025.

Será fundamental que o arcabouço regulatório permaneça estável e convidativo a investimentos, ao mesmo tempo em que incorpore melhorias pontuais para mitigar riscos de atraso e insolvência.

A expansão da transmissão não é apenas um empreendimento de engenharia e capital: é um pilar estratégico para sustentar o crescimento econômico sustentável do Brasil, assegurando que a energia gerada – cada vez mais limpa e diversificada – alcance todos os cantos do país com confiabilidade e custo acessível.

O sucesso contínuo dessa empreitada pode consolidar a posição do Brasil como um dos destinos mais atrativos do mundo para investimentos em infraestrutura energética, ao mesmo tempo em que oferece as bases para uma matriz elétrica robusta, integrada e preparada para o futuro.

 

Maria Guilhermina é líder de Energia da Tractebel Brasil, Chile e Canadá

Maria Guilhermina
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