Trump vai interferir na nossa eleição presidencial? | Boqnews

Ponto de vista

Imagem ilustrativa gerada por IA
22 de janeiro de 2026

Trump vai interferir na nossa eleição presidencial?

Sempre que um presidente dos Estados Unidos decide agir de forma agressiva na política externa, surge a mesma pergunta na América Latina: “Isso vai respingar na nossa política?”.

No caso de Donald Trump, a dúvida ganha força porque ele costuma tratar assuntos externos como parte da disputa interna dele — e porque sabe usar conflitos como arma de comunicação.

Mas é importante entender o que significa “interferir” numa eleição hoje. Em geral, não é “mexer na urna”.

A interferência moderna é mais indireta e, por isso, mais difícil de provar. Ela acontece principalmente por quatro caminhos: discurso, redes sociais, economia e diplomacia.

1) A interferência pelo discurso: criar clima de desconfiança

Um jeito clássico de influenciar é colocar dúvida na cabeça das pessoas. Não precisa apresentar prova; basta repetir frases que enfraquecem a confiança: “o sistema é manipulado”, “as instituições são parciais”, “a eleição não é limpa”.

Isso cria um ambiente de suspeita permanente. O efeito é simples: se o eleitor desconfia do processo, ele fica mais irritado, mais radicalizado, mais vulnerável a boatos.

Trump já usou essa estratégia nos EUA. E, quando esse tipo de narrativa é exportado, ela encontra terreno fértil em países polarizados, como o Brasil.

2) A interferência pelas redes: empurrar conteúdo que inflama

O segundo caminho são as plataformas digitais. Hoje, muitas “batalhas eleitorais” acontecem em redes que não são brasileiras — as regras, os algoritmos e as decisões de alcance são definidos lá fora. E isso vira combustível político aqui dentro.

Em ano eleitoral, qualquer medida contra desinformação pode ser transformada em propaganda: se uma conta é derrubada, vira “censura”; se há regras para propaganda online, vira “perseguição”. E as redes amplificam o conflito porque polêmica dá clique, dá audiência, dá engajamento.

A interferência, nesse caso, não precisa vir diretamente de Trump. Pode vir de grupos internacionais, influenciadores alinhados, páginas, correntes, perfis falsos e até conteúdos feitos por inteligência artificial. O objetivo é o mesmo: aumentar o barulho, dividir o país, empurrar as pessoas para os extremos.

3) A interferência pela economia: provocar instabilidade

Economia também decide eleição. E como decide…No Brasil, a maior massa de eleitores vota em quem lhe garante o dinheirinho da feira e da farmácia.

Costumo me referir a essa hipótese como Equação BO+BA+CO+BA (Bolso, Barriga Satisfeita, Coração Agradecido, Cabeça racional).

Em outras palavras, candidatos que proporcionem o bolso cheio, o dinheirinho da feira, terão melhores condições de conquistar o eleitorado.

A economia, ao lado da segurança pública, dará o tom maior da campanha. Ao contrário, qualquer choque — dólar subindo, juros altos, crédito caro, exportações ameaçadas — muda o humor social. E a política logo transforma isso em narrativa: “o governo não presta” ou “o país está sendo atacado”. Em ambos os casos, a tensão externa vira munição interna.

Medidas econômicas dos EUA, mesmo quando têm justificativas formais, podem gerar insegurança em mercados e empresas.

E insegurança é “matéria-prima” para campanhas: aumenta medo, raiva e sensação de descontrole.

4) A interferência diplomática: sinais e recados calculados

Há também a diplomacia simbólica: quem Washington recebe, quem ignora, que recado manda, que tom usa, que alianças prefere na região.

Isso influencia a política local porque vira argumento de campanha. Um candidato pode se vender como “o que aproxima o Brasil dos EUA”, outro como “o que enfrenta e defende a soberania”.

O eleitor, então, passa a votar também pela leitura que faz do cenário internacional.

Há limites? Sim. E isso é essencial.

Interferência não é destino. O Brasil tem instituições, Justiça Eleitoral, imprensa, sociedade civil e mecanismos de fiscalização.

Além disso, interferência aberta pode ter efeito contrário: quando o eleitor sente ingerência externa, cresce a reação nacionalista.

E existe um ponto decisivo: nenhuma interferência funciona sem ponte interna.

Para a influência externa virar voto, precisa haver gente aqui dentro espalhando, financiando, convertendo ruído em mobilização política.

Sem esse “canal doméstico”, a interferência fica fraca. Então, Trump vai interferir?

Mesmo sabendo que Trump é imprevisível e capaz de invadir pedaços de seu quintal – termo usado pelo Secretário de Defesa dos EUA ao se referir à América do Sul – o mais provável é que, se houver interferência, ela seja indireta: narrativa, redes, pressão econômica e sinais diplomáticos. Não é uma história de “controle da urna”, mas de “controle do clima”.

A eleição se disputa também pelo ambiente emocional do país: confiança, medo, ressentimento, esperança.

O antídoto não é histeria. É organização democrática: transparência na propaganda digital, rastreio de financiamento, resposta rápida contra mentiras, educação midiática e compromisso das lideranças com regras do jogo. Em 2026, soberania não se defende só com discurso.

Defende-se com instituições firmes e uma opinião pública atenta.

 

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político

Gaudêncio Torquato
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