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04 DE FEVEREIRO DE 2026

Ensaiar a cidade antes de tocá-la

Alessandro Lopes

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Os Gêmeos Digitais não nasceram para resolver cidades. Surgiram para evitar erros caros.

No início dos anos 2000, na engenharia de sistemas e na indústria avançada, pesquisadores buscaram compreender sistemas complexos antes que decisões irreversíveis fossem tomadas.

A pergunta era simples e desconfortável: por que insistimos em aprender apenas depois do erro?

Durante anos, essa lógica permaneceu restrita a setores onde falhar não era opção, como a indústria aeroespacial, a energia e a engenharia pesada.

Foi apenas na última década que ganhou escala, impulsionada pela convergência tecnológica.

A Internet das Coisas passou a captar dados em tempo real; a Inteligência Artificial ampliou a capacidade de análise e previsão; o BIM organizou informações ao longo do ciclo de vida das edificações; e os Sistemas de Informação Geográfica conectaram tudo isso ao território real, com precisão espacial.

Quando essas camadas passaram a dialogar, o Gêmeo Digital deixou de ser apenas um modelo sofisticado e tornou-se um instrumento de apoio à decisão.

Um modelo vivo, alimentado continuamente por dados, capaz de representar processos urbanos no espaço e no tempo.

Nesse ecossistema, o GIS assume papel central: é ele que ancora o modelo no território. Sem essa ancoragem, o gêmeo é técnico; com ela, torna-se urbano.

Ao chegar às cidades, essa lógica encontra um ambiente marcado pela urgência permanente.

Decide-se rápido, muitas vezes não porque é melhor, mas porque parar para compreender exige método.

No entanto, quem atua na engenharia urbana, na Arquitetura e no Urbanismo sabe que há escolhas que não admitem improviso.

Solo, água, edificações e infraestrutura formam sistemas interdependentes. Um erro pontual pode custar décadas.

Nesse contexto, os Gêmeos Digitais passam a ser considerados como ferramentas de apoio à decisão pública.

Não substituem projetos nem escolhas políticas, mas reduzem o número de decisões tomadas no escuro.

De forma hipotética, aplicada à realidade de Santos, essa abordagem poderia auxiliar na leitura dos canais de drenagem como sistema, e não apenas como obra.

O uso integrado de GIS, modelos hidráulicos e dados em tempo real permitiria observar como a água se comporta antes que o concreto seja lançado.

A pergunta deixaria de ser apenas onde intervir, e passaria a ser o que acontece com a cidade quando chove forte e a maré sobe ao mesmo tempo.

Nos prédios inclinados, a integração entre BIM, GIS e modelos analíticos permitiria tratar o edifício não como exceção, mas como sintoma.

Solo, lençol freático, drenagem e entorno deixariam de ser analisados em separado.

Decidir com mais calma, nesse caso, não seria atraso. Seria reconhecer que o erro ali não tem solução simples.

Falar de Gêmeos Digitais não é defender tecnologia como solução em si.

É reconhecer que, em cidades complexas, o custo da incerteza costuma ser maior que o custo da preparação.

Entre improvisar e compreender antes de agir, algumas cidades têm optado por compreender.

Ensaiar a cidade antes de tocá-la não é atraso.

É método quando o erro custa caro.

É cuidado quando o território é frágil.

É maturidade quando decidir deixou de ser simples.

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Siglas utilizadas:

Gêmeo Digital (Digital Twin): representação digital dinâmica de um sistema físico, alimentada por dados reais e utilizada para simulação, análise e apoio à decisão.

IoT (Internet of Things): Internet das Coisas, conjunto de sensores e dispositivos conectados capazes de coletar e transmitir dados do mundo físico.

IA (Inteligência Artificial): técnicas computacionais voltadas à análise de dados, reconhecimento de padrões e apoio à previsão e tomada de decisão.

BIM (Building Information Modeling): Modelagem da Informação da Construção, metodologia para organização e gestão de informações técnicas ao longo do ciclo de vida de edificações e infraestruturas.

GIS (Geographic Information Systems): Sistemas de Informação Geográfica, responsáveis pela organização, análise e visualização de dados espaciais e territoriais.

 

 

Alessandro Lopes é arquiteto e urbanista, especialista em Inovação, Sustentabilidade, Infraestrutura Urbana e BIM

 

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