Embora o Brasil esteja geograficamente distante de um eventual conflito prolongado entre Estados Unidos e Irã, seus efeitos econômicos certamente não respeitarão fronteiras.
Em um mundo profundamente integrado por cadeias logísticas, energia, seguros, finanças e fluxos comerciais, guerras no Oriente Médio produzem repercussões que chegam rapidamente aos portos, às indústrias, ao agronegócio e, por consequência, ao comércio exterior brasileiro.
O primeiro e mais imediato impacto de uma escalada duradoura estaria no mercado internacional de energia.
Qualquer ameaça persistente à segurança do Golfo Pérsico e do Estreito de Ormuz tende a pressionar o preço do petróleo e do gás natural, elevando custos de transporte, combustíveis, armazenagem e produção industrial em escala global.
Para o Brasil, isso significa aumento de custos logísticos e operacionais em praticamente toda a cadeia do comércio exterior, afetando tanto exportadores quanto importadores.
Esse efeito é particularmente sensível porque o encarecimento da energia não atua de forma isolada.
Ele se espalha pelo custo do frete rodoviário, da movimentação portuária, do transporte marítimo e da própria atividade industrial.
Mesmo setores tradicionalmente competitivos do Brasil, como o agronegócio e a mineração, sentiriam os reflexos de um ambiente de maior volatilidade e menor previsibilidade.
A logística marítima seria outro ponto de grande preocupação. A experiência recente mostra que conflitos em rotas estratégicas produzem efeitos muito além das regiões diretamente atingidas.
A simples percepção de risco já é suficiente para elevar o valor dos seguros, alongar rotas, aumentar o consumo de combustível e pressionar os fretes internacionais.
Em comércio exterior, previsibilidade vale quase tanto quanto preço. Quando ela desaparece, contratos ficam mais expostos, margens diminuem e o planejamento empresarial se fragiliza.
Para o exportador brasileiro, isso significa um cenário operacional mais oneroso e mais instável.
A formação de preços se torna mais difícil, a execução contratual mais sensível a atrasos e o custo financeiro das operações tende a subir.
Empresas que dependem de insumos importados ou de cronogramas logísticos rígidos podem enfrentar maior dificuldade para honrar compromissos, sobretudo em setores industriais de cadeia longa.
Há ainda uma variável estratégica para o Brasil: os fertilizantes. Como o agronegócio nacional permanece fortemente dependente do mercado externo para suprimento desses insumos, qualquer crise prolongada que afete energia, transporte marítimo, crédito ou fornecedores internacionais tende a repercutir diretamente no custo de produção agrícola.
E quando o custo do agro sobe, o problema deixa de ser apenas setorial: ele alcança justamente uma das principais bases da balança comercial brasileira.
Mas nem tudo, necessariamente, se traduz em prejuízo. Em meio à instabilidade global, o Brasil também pode colher ganhos pontuais.
Como grande exportador de commodities agrícolas, minerais e energéticas, o país pode se beneficiar da elevação dos preços internacionais de alimentos, petróleo e matérias-primas.
Em um contexto de desorganização geopolítica, fornecedores que preservam capacidade produtiva, estabilidade institucional e regularidade de entrega passam a ser ainda mais valorizados.
O Brasil pode, assim, consolidar-se como parceiro comercial relativamente confiável em um ambiente internacional conturbado.
Produtos como soja, milho, açúcar, carne, celulose, minério de ferro e petróleo podem ganhar maior relevância, tanto pela necessidade global de abastecimento quanto pela eventual perda de competitividade de outros fornecedores afetados direta ou indiretamente pela crise.
Ainda assim, esse benefício deve ser visto com cautela.
O aumento de receitas com exportações pode coexistir com a elevação dos custos de frete, seguro, energia, insumos e financiamento.
Em outras palavras, o país pode até vender mais ou vender melhor em determinados setores, mas isso não significa, automaticamente, ganho líquido amplo para toda a economia.
Parte da vantagem pode ser absorvida justamente pelo encarecimento estrutural da operação comercial.
Outro canal de impacto seria o financeiro.
Guerras prolongadas elevam a aversão global ao risco, fortalecem o dólar, encarecem o crédito internacional e aumentam a volatilidade cambial.
Em tese, um câmbio mais alto favorece exportadores. Na prática, porém, esse eventual ganho de receita costuma ser parcialmente neutralizado pelos custos maiores de produção, transporte e proteção financeira.
O resultado final, portanto, depende menos do câmbio isoladamente e mais do equilíbrio entre receita externa e custo operacional.
Além disso, uma guerra por prazo indeterminado tende a comprometer o crescimento da economia global. E isso importa diretamente ao Brasil.
Se os principais mercados compradores desacelerarem, haverá menos demanda, menos investimento e mais cautela no comércio internacional.
O país, nesse cenário, pode ser atingido de forma dupla: por custos mais altos de um lado e por uma demanda global menos dinâmica do outro.
É nesse ponto que a dimensão institucional ganha relevo. Em períodos de forte tensão geopolítica, cresce a tendência de medidas unilaterais, restrições à exportação, barreiras comerciais e respostas protecionistas.
Por isso, a importância da Organização Mundial do Comércio volta ao centro do debate. A OMC continua sendo um dos principais referenciais de previsibilidade, transparência e disciplina nas relações comerciais internacionais.
Em momentos de crise, sua função se torna ainda mais relevante: conter arbitrariedades, preservar parâmetros multilaterais e reduzir os efeitos em cascata de decisões isoladas que desorganizem ainda mais o comércio global.
Em outras palavras, quanto maior a turbulência geopolítica, maior a necessidade de instituições capazes de oferecer algum grau de estabilidade normativa.
O comércio internacional não depende apenas de navios, contratos e mercadorias; depende também de regras. E quando a confiança política se deteriora, as regras multilaterais passam a ter papel ainda mais decisivo.
O ponto central, portanto, é que o comércio exterior brasileiro não depende apenas da eficiência dos portos, da taxa de câmbio ou da competitividade de seus produtos.
Ele depende, cada vez mais, da estabilidade geopolítica internacional. Uma guerra prolongada entre Estados Unidos e Irã tende a agravar justamente aquilo que o setor mais teme: fretes elevados, insegurança logística, volatilidade cambial, encarecimento de insumos e dificuldade de planejamento.
Se o conflito for breve, os impactos podem se concentrar em uma turbulência passageira. Mas, se a crise se prolongar indefinidamente, seus efeitos podem se tornar estruturais.
E, nesse caso, o Brasil viverá uma combinação delicada: de um lado, oportunidades pontuais de ganho exportador; de outro, aumento generalizado dos custos e redução da previsibilidade.
Em síntese, uma guerra prolongada entre EUA e Irã pode funcionar como um verdadeiro imposto geopolítico invisível sobre o comércio exterior brasileiro.
Não se trata de um tributo formal, mas de um custo embutido em cada operação, em cada contrato, em cada tonelada exportada ou importada.
E esse tipo de custo, silencioso mas persistente, costuma ser pago com perda de margem, menor competitividade e mais incerteza para o futuro.

Rodrigo Zanethi é advogado e professor universitário da Unisantos e FATEC Santos
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