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Opiniões

16 DE MARÇO DE 2026

Do coração à cabeça: o voto mais racional

Gaudêncio Torquato

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A razão, como mecanismo para a tomada de decisões, está ampliando consideravelmente seus espaços junto aos segmentos sociais, inclusive nos setores populares, tradicionalmente conhecidos por agir intensamente sob o impacto das emoções.

Há sinais cada vez mais visíveis de que o voto no Brasil começa a deixar o terreno exclusivo da emoção para ingressar no campo da racionalidade. O eleitor continua sensível ao carisma, à empatia, aos símbolos partidários e às narrativas de identidade.

Mas, diante da sequência de escândalos que atravessa a vida pública brasileira desde os tempos do mensalão, tornou-se mais desconfiado, mais exigente e mais atento.

Hoje, observa com lupa o perfil dos candidatos, o conteúdo de seus discursos, a coerência entre promessas e práticas, o estilo de vida, as companhias e os interesses que os cercam.

O coração ainda pulsa, mas a cabeça passou a vigiar.

Esse deslocamento não ocorreu de repente. É resultado de um processo lento de fadiga moral. O brasileiro foi submetido, por anos, a uma sucessão quase ininterrupta de denúncias, investigações, prisões, delações, CPIs e escândalos rumorosos.

A política passou a ser vista, por amplas camadas da população, como um espaço contaminado por interesses inconfessáveis.

Quando a confiança pública se dissolve, o eleitor deixa de ser apenas torcedor e passa a atuar como juiz. Em vez de aderir automaticamente a mitos e bandeiras, pesa, compara, desconfia, examina.

A eleição presidencial de 4 de outubro de 2026 deverá refletir esse novo espírito. O voto tende a ser menos um gesto de paixão e mais uma sentença. O eleitor não vai apenas escolher quem mais o emociona, mas quem mais se aproxima de suas necessidades concretas.

E essas necessidades têm nome. Saúde, segurança pública e economia, de acordo com pesquisa recente do Instituto Datafolha, compõem hoje a trinca de maiores angústias do país.

O cidadão sente o colapso da saúde pública, teme a expansão da violência e sofre com o encarecimento da vida.

Hospitais sucateados, ruas inseguras, renda comprimida e alimentos caros fazem com que o eleitor cobre menos retórica e mais solução. A campanha tende a ser menos teatral e mais pragmática.

O bolso, aliás, continua sendo um dos maiores pedagogos da política. Quando a inflação morde, o romantismo eleitoral perde força.

Quando o mercado, o supermercado e a farmácia impõem sacrifícios, o eleitor troca a devoção pelo cálculo.

Pergunta não apenas quem fala melhor, mas quem pode entregar mais.

Não quer apenas ouvir promessas; quer perceber consistência, preparo, equilíbrio e capacidade de gestão. A urna se transforma, assim, em tribunal da vida cotidiana.

Nesse ambiente de exaustão moral, escândalos recentes reforçam a impressão de que as instituições seguem vulneráveis à promiscuidade entre dinheiro, influência e poder.

O caso do Banco Master produziu forte impacto. O banqueiro Daniel Vorcaro voltou a ser detido na semana passada, em investigações que envolvem corrupção, lavagem de dinheiro, ameaças e fraudes ligadas ao banco, já liquidado pelo Banco Central.

O episódio ampliou a sensação de podridão sistêmica e alimentou o sentimento de que a engrenagem do poder continua capturada por interesses subterrâneos.

A perplexidade cresce quando o eleitor toma conhecimento de que Vorcaro manteve interlocução com figuras influentes do sistema político.

Reportagens relataram que Lula recebeu o banqueiro em encontro no Planalto, fora da agenda oficial, embora o presidente tenha sustentado que encaminhou o assunto para tratamento técnico no Banco Central.

Ainda que não haja prova de favorecimento direto, a simples proximidade entre personagens centrais da República e operadores de escândalos financeiros aprofunda o desgaste ético da política.

No mesmo cenário aparece o nome de Fábio Luís, o Lulinha, citado no âmbito da CPMI do INSS. A comissão aprovou a quebra de seus sigilos, mas a decisão foi posteriormente suspensa pelo ministro Flávio Dino.

O episódio, mesmo sem conclusões definitivas, tem peso político porque reforça, no imaginário coletivo, a velha associação entre famílias de poder e zonas nebulosas da administração pública.

Em tempos de saturação ética, a suspeita já produz dano eleitoral.

É nessa moldura que se ergue a pergunta central da sucessão presidencial: quem tem mais chances? Lula ou Flávio Bolsonaro? Ou haverá espaço para um nome capaz de romper a polarização?

As pesquisas mais recentes apontam cenário apertado. Levantamento Datafolha divulgado em 7 de março mostrou empate técnico, em eventual segundo turno, entre Lula e Flávio Bolsonaro: 46% a 43%, dentro da margem de erro.

O dado é eloquente. Mostra que Lula continua forte, mas também revela que o bolsonarismo preserva musculatura, mesmo após todo o desgaste institucional dos últimos anos.

Lula entra na disputa com atributos conhecidos: força da máquina, lembrança positiva entre faixas populares e presença nacional consolidada.

Mas seu caminho está longe de ser confortável. O desgaste econômico do cotidiano, a fadiga de parte do eleitorado com o PT e a sucessão de episódios que alimentam a percepção de deterioração moral torna sua caminhada mais defensiva.

Já Flávio Bolsonaro se beneficia do capital político do sobrenome, da mobilização do eleitor antipetista e do impulso dado pela bênção pública do pai. Mas carrega alta rejeição e precisará provar que é mais do que herdeiro de um espólio eleitoral.

Nesse terreno, cresce o debate sobre uma alternativa fora da guerra entre lulistas e bolsonaristas. Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Romeu Zema disputam esse espaço.

Zema, em particular, não pode mais ser tratado como figura lateral. Reafirmou nesta semana que pretende levar sua candidatura presidencial “até o final”, recusando a hipótese de servir apenas como vice. Tenta se apresentar como gestor sóbrio, administrador eficiente e representante de uma direita menos estridente e mais gerencial.

Sua força está na boa base mineira e no discurso de austeridade. Sua dificuldade está em romper a cerca regional e adquirir densidade nacional.

O problema desse campo alternativo é conhecido: a dispersão. Separados, esses nomes ajudam a manter viva a polarização.

Unidos em torno de um projeto e de uma narrativa nacional, poderiam oferecer uma terceira via competitiva.

Mas, até aqui, o centro e a centro-direita continuam padecendo do velho mal brasileiro: excesso de ambições, pouca convergência e baixa capacidade de transformar bons governadores em presidenciáveis robustos.

O fato central, porém, é outro. O eleitor brasileiro parece estar mudando de atitude. Já não se satisfaz com marketing, com messianismo, com slogans e com guerras simbólicas.

Quer propostas consistentes para a saúde, para o combate à violência, para a contenção da inflação e para a recuperação da confiança institucional.

Quer menos pirotecnia e mais substância. Menos culto à personalidade e mais governo.

Por isso, a eleição de 2026 poderá marcar a consolidação de uma nova etapa da cidadania eleitoral no país.

O voto não deixará de ter emoção, porque política também é sentimento, memória e identidade. Mas tenderá a ser cada vez mais filtrado pela razão.

E quando a razão sobe à cabine eleitoral, a urna deixa de ser altar de paixões para se transformar em tribunal de responsabilidades.

 

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político

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