Ponto de vista
Além do ajuste fiscal
Marcos Cintra
O Brasil insiste em tratar o debate econômico como se tudo se resumisse ao ajuste fiscal.
Sem dúvida, equilibrar as contas públicas, controlar a dívida e garantir credibilidade orçamentária são condições necessárias para a retomada do crescimento.
Mas é um erro – e um erro recorrente – imaginar que isso basta.
O problema brasileiro é mais profundo. Está na qualidade da governança pública.
Artigo recente de Horácio Lafer Piva, Pedro Passos e Pedro Wongtschowski, no Estadão, acerta ao apontar a deterioração institucional em estatais, autarquias e agências reguladoras.
A politização de cargos, a fragilidade técnica e o risco de captura por interesses privados não são detalhes administrativos – são fatores que corroem a capacidade do Estado de decidir, planejar e inspirar confiança.
E sem confiança, não há investimento.
Mas é preciso ir além do diagnóstico. O problema não está apenas nas estatais ou nas agências. Está em todo o aparato estatal.
Ministérios, estruturas de planejamento, orçamento público – tudo sofre do mesmo mal: baixa capacidade de gestão, excesso de rigidez e pouca responsabilização.
O próprio Fundo Monetário Internacional tem sido claro: ajuste fiscal sustentável exige mais do que cortar gastos. Exige gastar melhor. Exige instituições fortes. Exige produtividade do setor público. Em outras palavras, exige governança.
E é justamente isso que falta ao Brasil.
Uma governança minimamente funcional se apoia em pilares básicos: integridade nas decisões, compromisso com o interesse público, instituições estáveis e um orçamento que permita planejar – não apenas reagir.
Nada disso é novidade. O problema é que, no Brasil, esses princípios seguem sendo sistematicamente ignorados.
O resultado está à vista. Um Estado que gasta muito, mas gasta mal. Que arrecada muito, mas entrega pouco. Que promete, mas não cumpre.
Diante disso, insistir apenas no ajuste fiscal é tratar o sintoma e ignorar a doença.
Sem um choque de governança – com mais disciplina, transparência e responsabilização – qualquer esforço de equilíbrio das contas será parcial e, muitas vezes, inócuo.
O país precisa abandonar a falsa escolha entre gastar mais ou gastar menos. A questão central é outra: governar melhor.
Isso significa profissionalizar a máquina pública, qualificar decisões, avaliar políticas e, sobretudo, impor eficiência ao gasto.
Mesmo déficits, quando inevitáveis, seriam menos danosos se inseridos em um contexto de gestão responsável.
O que realmente compromete o Brasil não é apenas o desequilíbrio fiscal, mas a combinação perversa de desorganização, desperdício e baixa capacidade de entrega.
Sem enfrentar isso, o país continuará preso à estagnação – ainda que ajuste suas contas no papel.