Ponto de vista
O camaleão das araucárias
WILSON PEDROSO
O filósofo pré-socrático Heráclito dizia que nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio. As águas passam e o homem já não é o mesmo.
No Paraná, Sergio Moro decidiu testar essa máxima ao limite da física política.
Na última semana de março de 2026, a filiação do ex-juiz ao PL de Valdemar Costa Neto não é apenas uma mudança de legenda.
É a conclusão de uma metamorfose iniciada no instante em que ele trocou a magistratura pelo Ministério da Justiça.
O caminho para o poder costuma ser pavimentado com hipocrisia e baixas.
Moro tentou ser o elemento disruptivo que passaria por cima desse asfalto sem sujar os pés.
Terminou pedindo abrigo e estrutura no coração do sistema que jurou implodir.
O fato lateral que passou despercebido por muitos nesta semana foi o silêncio obsequioso de Moro sobre o comando nacional de seu novo partido.
O homem que em 2021 dizia ser impossível combater a corrupção sentado à mesa com Valdemar agora divide o café e a estratégia eleitoral com o cacique.
Essa manobra ilustra o conceito de Realpolitik. É o exercício da política baseado em interesses práticos e circunstâncias concretas, em vez de ideologias ou premissas éticas rígidas.
Moro entendeu que, para disputar o governo paranaense com chances reais, precisava do tempo de TV e do fundo partidário que só o centrão raiz oferece.
Ele abandonou o purismo para abraçar a necessidade.
Antigas lições de poder ensinam que o governante deve saber ser leão para assustar os lobos e raposa para conhecer as armadilhas.
Em Curitiba, Moro foi o leão que acuou o sistema.
Agora ele tenta ser a raposa que navega entre as correntes de Brasília para garantir o próprio mandato.
O eleitor paranaense, fiel ao lavajatismo, assiste ao movimento com uma mistura de perplexidade e resignação.
A direita local parece ter aceitado que, para derrotar o PT, vale caminhar de mãos dadas com antigos desafetos.
Resta saber qual será o custo dessa conta no longo prazo.
Ao se tornar um deles, Moro ganha estrutura e perde o brilho da excepcionalidade que o carregou até aqui.
Ele não é mais o juiz que veio de fora para limpar a casa.
O ex-juiz agora é o político que aprendeu a usar as ferramentas da casa para não sofrer o despejo.
A história dirá se o Paraná prefere o símbolo ou o sobrevivente.