Ponto de vista
Caríssima Carolina
ADILSON LUIZ GONÇALVES
Para eu gostar de uma pessoa, não é preciso conviver com ela. Basta observar suas atitudes: o que diz e o que faz.
Carolina Ramos é uma dessas pessoas, por muitas razões.
Sua figura extremamente doce, no auge de seus 102 anos, lúcida e dotada de um sorriso angelical, creio que arrebata qualquer um que a veja ou leia seus textos, “Primeira-Dama da Trova Brasileira” que é, mas que prefiro outra menção: “Princesa da Trova”.
Sempre gostei mais de princesas na literatura, pois guardam o frescor da juventude, assim como Carolina.
Princesas lembram flores e Carolina tem os ramos de onde elas nascem em seu nome.
A comemoração de seu aniversário ocorreu com pompa e circunstância em 22/02/2026, no magnífico Salão Nobre da Sociedade Humanitária, no Centro de Santos.
O evento coincidiu com o lançamento do livro “Colheita”, sob os auspícios da biógrafa, escritora e editora Fabíola Savioli.
O salão esteve repleto de amigos e admiradores e, logo ao acessá-lo, chamaram a atenção dois enormes cartazes que, mais do que reproduzirem a foto de Carolina, que também é capa do livro, tinham uma simbologia ainda maior.
Atendendo gentilmente cada um dos que buscaram a aposição de sua rosa vermelha no recém-adquirido exemplar, quando chegou minha vez, perguntei-lhe sobre a data daquela foto.
Ela olhou para a imagem, com um brilho nos olhos de quem voltou no tempo, mas não soube precisar.
Pouco depois, Fabíola explicou a todos que ali Carolina debutara, dançando sua primeira valsa!
Provavelmente a foto é de 1939, então.
A programação contou com a presença de três músicos, que particularmente abrilhantaram a tarde.
Um deles, Gabriel Motta Nunes, um jovem concertista cujo futuro promete ser fulgurante, pois já é espetacular, executou, com maestria lúdica, obras de grandes mestres da música erudita.
Parecia brincar com os teclados, como se os complexos acordes brotassem de sua alma!
Depois, um dueto de piano e violino se apresentou, gerando um momento mágico: Carolina dançou ao som de “Rosa”, música de Pixinguinha e letra de Otávio de Souza.
Creio que para ela, como para muitos dos presentes, inclusive eu, foi como se estivéssemos numa cena do filme “Em Algum Lugar do Passado” (EUA, 1980). Olhando para aquela foto e para seu rosto iluminado, a letra fazia todo o sentido: “Tu és divina e graciosa, estátua majestosa…”.
Poetisa, escritora, trovadora, artista plástica, musicista, professora e administradora, Carolina é uma mulher “de sete instrumentos” que, do alto de sua grandeza inquestionável, é de uma simplicidade e afabilidade que cativa.
Nada nela remete à arrogância e megalomania que caracterizam os pobres de espírito.
“Colheita”, que ela afirma ser “último livro”, merece ser lido e relido sem enfado.
Por mim, espero que não seja o último, mas, apenas, o mais recente!
Parabéns, caríssima Confreira Carolina Ramos!
Que sua arte e a candura de seu sorriso continuem a iluminar um mundo que precisa reaprender a sonhar, amar, perdoar e celebrar a vida!