Ponto de vista
A eternidade do momento
MAURILIO TADEU CAMPOS
Há um dia no ano que me parece ser diferente dos outros.
É único, como se o tempo se dobrasse sobre si mesmo e me permitisse tocar sua textura.
O céu tem um peso específico, a luz pousa nos objetos com uma leveza inédita, a atmosfera carrega um sussurro antigo, quase um aviso.
É o dia em que eu existo com mais intensidade, não porque sou outra pessoa, mas porque sou todas as versões de mim mesmo reunidas em um único ponto.
Comemorar o aniversário não é apenas marcar uma nova estação da vida; é erguer um pequeno monumento ao que já fui, ao que sou e ao que me tornarei.
A certeza da celebração não reside no número de velas, na presença de outros ou no som tão esperado e comum das felicitações.
Mesmo que o dia passe em silêncio absoluto, ainda assim ele me pertence, porque o tempo me reconhece.
Sinto o peso do caminho percorrido em muitas estradas de diversos formatos, algumas estreitas, outras mais largas.
Os anos se desenrolam como folhas soltas de um diário que nunca escrevi mas que, de alguma forma, carregam minhas impressões.
Há risos e dores entre as páginas marcadas com palavras e frases que formam o conjunto de minha existência, repleta de hesitações e certezas, nascidas no meio de esperanças, desalentos ou dúvidas.
Comemorar o aniversário não é apenas marcar uma nova estação da vida; é erguer um pequeno monumento ao que já fui, ao que sou e ao que me tornarei.
O tempo não avança de forma linear dentro de mim; ele se espalha como tinta sobre um papel úmido, desenhando imagens inesperadas.
Recordo momentos que ficaram incrustados na memória, não pelos grandes feitos, mas pelos detalhes que perseguem o meu olhar quase distraído.
A primeira vez que percebi o silêncio de uma manhã sem pressa deixou-me marcas que tento recorda-las a cada aniversário.
O som de um riso gostoso que pareceu preencher um espaço vazio dentro de mim ainda ressoa e me faz bem. A melancolia de um dia que terminou sem despedidas.
Tudo isso, costurado em minha existência, constrói um mosaico que não pode ser desfeito, repleto de pessoas que amo e que também têm carinho por mim.
O aniversário, então, torna-se um rito que repete muitos momentos felizes e outros nem tanto, mas que me servem como aprendizado para o enriquecimento de minha essência.
Não importa se é celebrado por multidões ou na solitude do pensamento, ele acontece.
A cada ano, trago comigo a confirmação de que sou um conjunto de continuidades e de mudanças, unidos por um grande e preciso fio que liga o ontem ao hoje e me conduz ao amanhã.
E amanhã? Amanhã, tudo voltará ao seu curso, como sempre acontece.
O sol nascerá sem questionar se eu fiz algo memorável no meu dia ou, simplesmente, senti o passar das horas de mais um aniversário, repleto de boas reminiscências e oportunas saudades.
Mas hoje, por esse pequeno instante, sou história, sou lembrança e sou promessa.