Ponto de vista
Ângulos
A vida nos proporciona sempre momentos inesquecíveis. Basta estarmos abertos para o desconhecido. Neste ano, uma novidade importante veio preencher um pouco minha vida – sei que é meio piegas, mas é isso mesmo – um gato, depois mais um. Enfim, dois felinos percorrem pela minha casa aprontando as mais engraçadas e, às vezes, irritantes, confusões. As histórias são muitas e a maioria é pública. Estão no facebook.
Os dois são diferentes. Personalidades distintas, de fácil percepção. O Liszt é o tipo que gosta de ficar em casa. Faz amizade com todos, mas estes todos precisam estar dentro de casa. Já o Chaplin extrapola. Folgado foge pelas escadas e sai fazendo amizades. E é de uma específica que veio a inspiração para começar a escrever.
Senhor Helio e sua esposa do 12º andar. Um casal. 50 anos de casamento. De uma cumplicidade incrível. De um amor indescritível. No apartamento dos dois, levada pelo Chaplin, veio as primeiras conversas. O primeiro café. As primeiras observações. As visitas se tornaram cada vez mais constantes e a admiração mais forte. Ele é um senhor de seus 70 anos. Ela uma senhora que se tornou criança, com o tal do Alzheimer.
O Chaplin para ela vira o carro ou o cachorro como o chamou hoje. O carro brinca pela casa, passa pelas pernas, recebe carinho de ambos e ganha de presente uma salsicha. Tudo enquanto a conversa flui e entre palavras e gestos observo o que de verdade é o amor. “Eu te amo”, ele diz. E ela abre uma gargalhada. Entre palavras desconexas, sem sentido, começa conversas paralelas. Ele responde mesmo sem saber ao que.
Ele diz, quando eu comento o quanto ela é alegre, que ela é assim feliz porque “todos os dias quando acordamos o digo o quanto a amo, o quanto ela é linda, faço palhaçadas, caretas para ela rir, canto… ela adorava quando eu cantava, por isso as vezes ligo o som e mesmo sabendo que posso irritar um ou outro vizinho canto para ela, pelo sorriso dela”.
É ele quem cuida da casa, quem cozinha, faz café, uma delícia por sinal, quem a deixa linda. Sim, ele diz, amanhã pintaremos seu cabelo. Não sei o passado de ambos, somente o presente e nele sei que depois de conhecê-los acredito um pouco mais no amor. E quem sabe um dia eu encontre, ou melhor, todos nos encontremos alguém assim, que mesmo com todas as dificuldades fique do nosso lado com o único objetivo de nos fazer felizes.
A esperança dele, como ele mesmo disse dias atrás, é que ela encontre a paz antes dele. Não por estar cansado ou desejar a morte – longe disso. Pelo simples e complexo fato de que se ele for antes quem cuidará dela assim? Filhos? Talvez, mas não será com tamanha dedicação, paciência e o mais importante amor, no seu mais puro dos significados…
Mas, enfim, o que tudo isto tem a ver com fotografia?? Talvez por esta arte ser hoje para mim uma grande companheira. Não cuida diretamente de mim, mas eu tento cativá-la todos os dias. E este também é o segredo da fotografia: praticar diariamente o olhar, observar o que poucos prestariam atenção. Ver no detalhe o todo e no todo o detalhe. Amar o que se faz.
Há meses penso em fazer a coluna, a inspiração para o texto de abertura e a primeira foto, porém, veio somente ontem com a última visita ao casal e depois de assistir ao filme O Artista. Sim, acreditem, ainda não tinha visto tamanha arte, o vi somente hoje. Não esquecerei mais este nome Guillaume Schiffman, diretor de fotografia. As cenas são de tamanha inspiração que devo confessar que depois do filme ainda desci para fotografar o vento, às 2 horas da manhã, e quando voltei me vi escrevendo.
Voltando a coluna, a ideia é misturar técnica, um pouco que sei, com histórias como esta. Algumas maiores. Outras menores. Enfim cada qual com o tamanho que merece ter. Falarei como fiz a foto. Se foi de propósito ou por pura sorte. Se estava pensando em algo ou simplesmente em nada. Pensei ou não na regra dos terços? Quis fugir dela? Que tratamento fiz na foto? Mostrarei fotos de outras pessoas que simplesmente amo. A intenção, que fique bem claro, não é ensinar nada – até porque ainda não tenho cacife para isso – mas sim compartilhar o que faço diariamente seja aqui no Boqnews ou mesmo pela vida. Segue a primeira foto, alguns já viram (postei ontem mesmo no face depois de capta-la)
Ela é da janela do casal, a fiz enquanto os ouvia. Na verdade ontem subi com o Chaplin com a intenção de fazer da janela deles uma foto da chuva, chuva esta que acabou assim que subi.
Ainda não tinha visto este ângulo da Igreja do Embaré e me encantei. Foram algumas tentativas até chegar a este resultado de enquadramento e luz. Sem tripé, precisei aumentar um pouco o ISO e fiquei brincando com velocidade e abertura para ter este efeito, com a igreja iluminada mesmo quase sem luz e o chão quase estourado.
A máquina foi a Sony Nex 5, deixei tudo no manual e utilizei os seguintes dados:
ISO: 800
Velocidade: 3s
Abertura: 5.0
No lightroom, programa de edição de imagem, utilizei um filtro já pronto, devo confessar, que se chama iluminação antiga, junto com o efeito de arestas para ficar com as bordas arredondadas. estou um pouco viciada nestas bordas.
É isso. que este seja o primeiro de muitos posts e que compartilhemos a partir de agora muitas informações do mundo da imagem.
Buenas? Então, bora fotografar mais…
