O ombro como simbologia | Boqnews

Ponto de vista

4 de maio de 2026

O ombro como simbologia

ADELTO GONÇALVES

I

Uma obra que explora a simbologia do ombro como lugar de refúgio, fardo e segurança é o que espera o leitor no mais recente livro de Raquel Naveira, poeta, romancista, contista, cronista, crítica literária, ensaísta e professora universitária sul-mato-grossense.

Com um estilo marcado por grande sensibilidade, a autora apresenta em O ombro e outros textos poéticos (São Paulo Evoluce Editora, 2026) crônicas entremeadas por poemas sensíveis, em que transita por figuras históricas.

Entre essas figuras, a autora cita Dom Pedro II (1825-1891) , Napoleão Bonaparte (1769-1821), Paul Valéry (1871-1945), Pablo Picasso (1881-1973), Maria Antonieta (1755-1793), Gertrude Stein (1874-1946) e Carolina Augusta Xavier de Novais (1835-1904), mulher de Machado de Assis (1839-1908), além de homenagear suas raízes pantaneiras junto às águas barrentas do rio Paraguai e uma escritora hoje praticamente esquecida, mas de grande importância para a literatura brasileira, Dinah Silveira de Queiroz (1911-1982), autora de A Muralha (1954), épico romance em que conta a história de uma família bandeirante que morava nos arredores da vila de São Paulo.

No posfácio, em artigo com o título “O lírio da poesia”, em que faz análise crítica do poema “Lírio”, de Raquel Naveira, Rosemary Ferreira de Souza, doutora em Letras: Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), faz observações tão pertinentes que podem ser extensivas aos demais textos do livro dessa que aponta como “uma das vozes mais significativas da poesia brasileira”.

E lembra que Raquel Naveira “utiliza o lirismo para explorar questões essenciais e emocionais, estabelecendo uma conexão íntima entre o eu lírico e a natureza”.

De fato, como em “O lírio”, os demais poemas que acompanham os textos poéticos mostram uma estrutura e versos livres, que “proporcionam fluidez e musicalidade”, o que permite muitas interpretações. São poemas e textos poéticos introspectivos, que examinam a relação do ser humano com o mundo natural.

E que, como diz a crítica, “são marcados por uma sensibilidade acentuada, onde cada palavra é escolhida com cuidado para evocar uma resposta emocional no leitor”.

II

Dividido em três capítulos – “Ombro amigo”, “Ombro a ombro” e “Ombro rebelde” – , o livro mostra intertextualidade erudita, fazendo alusões a autores de obras clássicas, como Aristóteles (384a.C.-322a.C.), Goethe (1749-1832), Herman Hesse (1877-1962), Lev Tolstói (1828-1910), Pablo Neruda (1904-1973), Garcia Lorca (1898-1936) e Antonin Artaud (1896-1948), além de referências a vários escritores que são ícones da literatura brasileira, como os poetas Hilda Hilst (1930-2004), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Cassiano Ricardo (1895-1974), Álvares de Azevedo (1831-1852), Cora Coralina (1889-1985) e Manoel de Barros (1916-2014), e o romancista Aluízio Azevedo (1857-1913), entre outros.

Uma dessas figuras históricas é Paul Valéry, autor do poema “La jeune parque” (“A jovem parca”), em que o poeta francês, a propósito do pesado clima de pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1944), trata da luta da razão contra o apelo da carne, a sensualidade, e do qual Raquel Naveira retirou algumas expressões para compor o seu poema “As parcas”.

Em seu texto, a poeta lembra que as parcas, na mitologia romana, são três deusas irmãs que tecem, medem e cortam a vida dos seres humanos, determinando o destino de nascimento à morte. Eis o trecho final desse poema:

(…) Somos três as Parcas, / Duras e impiedosas, /Filhas da Necessidade, / Lei que rege as mudanças, / Que planta e ceifa / As contínuas esperanças. / Somos três as Parcas, / Fixando símbolos, / Plantando sementes / Nos campos das mentes / Que lavramos. / Somos três as Parcas, / Somos três as |Moiras: / Índia, / Negra, / Ibérica, / Marcas deste continente / Que se fez América.

Como são textos em que a autora transforma história e memória em exercícios de intimidade, vale ressaltar a crônica na qual parece confessar um fracasso pessoal, ao reconhecer um último revés na vida, talvez por não ter tido coragem de partir.

É o que se lê na crônica intitulada “Naufrágios” em que não aparece nenhum poema propriamente dito, mas cuja poesia escorre nas linhas formais do texto:

“(…) Naufraguei porque aquele a quem amei infinitamente me tratou com insultos. Porque me desviei e caí nas rochas. Não entendo a razão desse ataque selvagem do Mal, eu que sempre usei a palavra como bússola. (…) Fraca e pequena, fui atirada na praia. Estou viva. O corpo iluminado pelo brilho dos pirilampos. Coberta de sangue e espuma. Em mim, ficou apenas o essencial”.

III

Outro texto que atrai a atenção por sua sensibilidade em absorver e perdoar as fragilidades humanas é “Pombinha” em que recorda a personagem de Aluísio Azevedo que leva esse nome no romance O cortiço (1890), sua obra-prima.

A cronista lembra que, nessa obra, o autor conta a transformação moral e social pela qual passa a personagem, uma rapariga ingênua, filha de uma viúva portuguesa, que teria um futuro digno pela frente, de dona de casa talvez, mas que se deixa levar pela lábia de Léonie, uma prostituta francesa, culta e sofisticada, que a atrai para uma vida de degeneração moral e social.

Mais adiante, acrescenta: “Pombinha vira, ao final, uma nova Léonie: elegante, resoluta, disposta a levar outras pombinhas para as arapucas e gaiolas da prostituição”.

E conclui com este poema:

“Não entregues ao gavião / A tua pombinha, / Tão simples, / Tão pura, / Defende-a das garras / Dessa agressão. / É outono, / Há sol nas folhas, / Ele a viu de longe, / Cheia da graça, / E desceu, / Caçador alado / Que mata aquela / Que deseja / Seu coração. / Não entregues ao gavião / A tua pombinha, / Alma nascida da fonte da memória. / Do bosque da sagração. / Poupa a pombinha, / Que ela voe / Em tua direção”.

À falta de espaço para analisar os demais poemas e crônicas, é de se repetir o que se lê no texto afixado na primeira aba do livro, ou seja, que “o ombro é lugar de refúgio e existência”.

E que Raquel Naveira trata essa articulação complexa da vida, mesclando a densidade de sua poesia com o fluxo da crônica.

E escolhe o ombro físico que todo o ser humano carrega para fazer um fecundo simbolismo, utilizando-o como metáfora do peso da vida que todos carregamos. Ou, como ela mesma diz, na crônica que abre o livro:

“(…) Quanta dimensão espiritual nos ombros. Quantas jornadas. Sobre os ombros são depositados os desafios, as cargas emocionais, os fardos, as responsabilidades, as adversidades. Pela posição curvada dos ombros, percebemos quando uma pessoa está sobrecarregada, escondendo algo, mascarando situações difíceis. Jesus carregou nos ombros a cruz em direção ao calvário e ela perfurou sua clavícula até o sangue. Também carregou a ovelha perdida que era eu”.

IV

Raquel Naveira (1957), nascida em Campo Grande, formada em Direito pela Universidade Católica Dom Bosco (1976), em sua cidade natal, é mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2001), de São Paulo.

Graduou-se em Língua e Literatura Francesa pela Universidade de Nancy (1981), na França, e em Letras pela Universidade Católica Dom Bosco (1994), onde deu aulas de Literaturas Brasileira, Latina e Portuguesa por 19 anos e aposentou-se.

Residiu no Rio de Janeiro, onde lecionou na Universidade Santa Úrsula e, em São Bernardo do Campo-SP, na Faculdade Anchieta.

Deu aulas também na pós-graduação da Universidade Nove de Julho (Uninove), de Comunicação Aplicada na Faculdade de Tecnologia em Hotelaria, Gastronomia e Turismo (Hotec) e na pós-graduação da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo.

Ministrou palestras e cursos em escolas e em várias instituições culturais como Casa das Rosas, Casa Guilherme de Almeida e Casa Mário de Andrade, em São Paulo.

Na Academia Paulista de Letras, participou do Ciclo de Memória da Literatura, discorrendo sobre o trabalho das romancistas Maria de Lourdes Teixeira (1907-1989) e Stella Carr (1932-2008).

É autora de mais de 40 títulos de poesia, crônicas, ensaios e romances, entre eles: Abadia, poemas (Editora Imago,1996), e Casa de Tecla, poemas, obra indicada ao Prêmio Jabuti de Poesia, pela Câmara Brasileira do Livro. Escreveu o livro infanto-juvenil Pele de Jambo (1996) e o de ensaios Fiandeira (1992).

Publicou os romanceiros Guerra entre irmãos (1993), poemas inspirados na Guerra do Paraguai (1864-1870), e Caraguatá (1996), inspirados na Guerra do Contestado (1912-1916), conflito armado entre os Estados de Santa Catarina e Paraná, a partir de luta entre posseiros e pequenos proprietários pela posse de um território.

É autora também de: Via Sacra (1989); Fonte Luminosa (1990); Nunca-Te-Vi (1991); Sob os Cedros do Senhor (1994); Canção dos Mistérios (1994); Mulher Samaritana (1996); Maria Madalena (1996); O Arado e a Estrela (1997); Rute e a Sogra Noemi (1997); Intimidades Transvistas (1997); e Senhora (1999), que recebeu o prêmio Jorge de Lima-Brasil 500 anos, concedido pela Academia Carioca de Letras e pela União Brasileira de Escritores (UBE), seção do Rio de Janeiro, em 2000.

Publicou ainda: Stella Maia e Outros Poemas (2001); Xilogravuras (2001); Maria Egipcíaca (2002); Casa e Castelo (2002); Tecelã de Tramas – ensaios sobre interdisciplinaridade (2005); Portão de Ferro (2006); Literatura e Drogas – e outros ensaios (2007); Guto e os Bichinhos (2012); Sangue Português (2012); Álbuns de Lusitânia (2012); e Jardim Fechado – uma antologia poética (2016), livro comemorativo dos seus 30 anos de carreira literária.

Nos últimos tempos, lançou Leque Aberto (2020), Romanceiro de Cabeza de Vaca: o andarilho das Américas (2020) e Manacá (2021), crônicas em que mescla em prosa poética tradição e modernidade.

Em 2022, publicou No Mundo Encantado de Luciana, infanto-juvenil e, em 2023, Mundo Guarani – fragmentos de uma alma da fronteira, obra de memória que está entre a crônica, a novela e o romance e obteve o Prêmio João do Rio, da UBE-RJ, narrativa que traz à tona o universo da fronteira entre o Brasil e o Paraguai, em que recupera suas vivências com a herança indígena ainda extremante forte na cidade de Bela Vista, na fronteira com o Paraguai, à beira do rio Apa.

Em 2024, lançou Ponto de Fuga & Outros Poemas (São Paulo, Inmensa Editorial), coletânea de poemas originalmente publicados em dez de seus livros, que reúne também peças inéditas, os chamados poemas “vegetais”, gênero que, aliás, já estava presente em obras anteriores.

Em 2025, publicou Ursa Maior (São Paulo, Scortecci Editora), que reúne reflexões de uma mulher madura, sensível, amante das Letras e das Artes, à janela, diante de uma noite salpicada de estrelas, obra de gênero de difícil classificação, para a qual a autora arrisca como definição que seria um “romance em desordem, fragmentário, um amontoado de estudos”.

Pertence à Academia Sul-mato-grossense de Letras, à Academia Cristã de Letras, de São Paulo, à Academia de Letras do Brasil, de Brasília, à Academia de Ciências de Lisboa e ao PEN Clube do Brasil. Escreve para várias revistas e jornais como Correio do Estado-MS, Jornal de Letras-RJ, Linguagem Viva-SP, Jornal da ANE-DF e O Trem-MG, entre outros.

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O ombro e outros textos poéticos, de Raquel Naveira, com posfácio de Rosemary Ferreira de Souza. São Paulo, Evoluce Editora, 112 páginas, R$ 58,35, 2026. E-mail da editora: [email protected] E-mail da autora: [email protected]

Adelto Gonçalves
Adelto Gonçalves, doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de 'Gonzaga, um poeta do Iluminismo', 'Barcelona brasileira', 'Bocage, o perfil perdido', entre outros. E-mail: [email protected]
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